Hermenêutica: Etimologia e significado

hermes

Symbolicarvm qvaestionvm de vniuerso genere, 1574, de Achille Bocchi: Imagem de Hermes como o intérprete do conhecimento universal.

Um dos modos preambulares para compreender a Hermenêutica é a volta etimológica ao seu conceito, um exercício não apenas de curiosidade, mas, sobretudo, útil em seu entendimento. Segue-se que, de origem grega, a Hermenêutica (hermeneuein) é tida como a filosofia da interpretação, sendo originalmente afiliada à Hermes que, segundo a mitologia grega, chamado de “deus-intérprete”, costumava transmitir as mensagens dos deuses para os mortais. Assim, primeiro, Hermes tinha o papel de intérprete de tudo o que os homens comuns não pudessem compreender assumindo assim um segundo aspecto importante, a saber, a inteligibilidade do que estava falando.

Desse modo, se por um lado, na Antiguidade grega, o empenho hermenêutico se dava acima de tudo em permitir a conciliação de Hermes (ou da tradição mitológica) com a consciência filosófica, por outro, na Idade Média, este foi assumido pela dogmática bíblica e pelo Corpus iuris canonici da tradição da jurisprudência, sendo esta tomada pela hermenêutica jurídica até hoje. No contexto da Modernidade, porém, a hermenêutica ressurge em diferentes espaços para mostrar que há outros modos de conhecer a realidade e dialogar com a tradição.

No século XX, eg, Martin Heidegger dá um aspecto fenomenológico ao método hermenêutico. Desse modo, o sentido original do seu conceito é atualizado e caracterizado como uma interpretação da facticidade a partir da investigação de uma presença, quer dizer, a presença do próprio investigador que, ao investigar, investiga segundo sua possibilidade de autocomunicação e autocompreensão. Eis que, sob as influências da hermenêutica heideggeriana, Hans-Georg Gadamer percebe que uma sentença não pode ser tomada como uma entidade semântica já dada e autossuficiente, mas, ao contrário, o sentido de um enunciado repousa na estrutura motivacional da linguagem. Por isso, para Gadamer, a hermenêutica diz respeito principalmente à noção de tradição e de suas possíveis apropriações, por conseguinte, ela é o próprio cerne do filosofar e só é possível ao filosofante partir da apropriação e investigação da historicidade da compreensão.

Por fim, em virtude de que todo exame conceitual requer uma hermenêutica própria, tenhamos cada presença uma autocompreensão do próprio Gadamer acerca do tema, afinal, conforme suas palavras, “Uma interpretação definitiva parece ser uma contradição em si mesma”. 

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Categoria: Direito, Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Linguagem, Filosofia Moderna, Mitologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. É interessante notar que a Hermenêutica enquanto campo de estudo ganhou grande importância no contexto medieval, na interpretação bíblica, mas no século XX adquiriu outro tipo de importância: é uma área fundamental dos estudos jurídicos e a maioria das faculdades de direito tem ao menos uma disciplina sobre o assunto.

    Isso acontece, porque a proibição do non liquet (a proibição de um juiz abster-se de decidir um caso por falta de clareza do direito) somada à ideia de que a lei seria, em última análise, produto da vontade do povo e, portanto, legítima exigem uma pretensão de correção do “aplicador do direito” (termo do gosto dos juristas): ou seja, para aplicar o direito, o juiz deve aplicar o direito correto – que é o direito legítimo, nesse contexto, ou, caso contrário, ele estaria criando direito sem legitimidade. Para fazer isso, o juiz ou outro “aplicador do direito” precisa interpretar corretamente a lei.

    Assim, os juristas criaram vários supostos “métodos” para obter a interpretação correta, como buscar pela vontade do legislador, pela finalidade da lei, pela semântica dos termos, pela coerência lógica entre as leis, entre outros.

    Até hoje, no Brasil e no mundo, juízes e advogados justificam suas posições e interpretações com base nesses “métodos”. No entanto, os estudiosos não acreditam mais que eles possam oferecer respostas objetivamente corretas, como pretendiam fazer. Pensam que aplicar e criar direito não pode ser totalmente separado, mas ninguém conseguiu resolver a tensão que existe entre a criação do direito e a legitimidade democrática, de modo que o movimento mais recente na teoria do direito (visto na Hermenêutica Jurídica e na Teoria da Argumentação Jurídica) é em direção à busca por parâmetros racionais de decisão e justificação – o mesmo desejo que deu origens aos “métodos” interpretativos.

    João Maurício Adeodato tem uma boa imagem para isso: é uma história sisífica (referência ao mito de sísifo) – com idas e vindas.

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