O ensino de filosofia no Brasil

Uma crítica a partir de Sílvio Gallo e Walter Kohan

No texto Crítica de alguns lugares-comuns ao se pensar a filosofia no Ensino Médio, Sílvio Gallo e Walter Kohan introduzem como o Brasil tem uma débil tradição no que concerne ao ensino de filosofia no nível médio. Em suma, dizem os autores, desde sua implantação no século XVI, a filosofia foi ensinada de forma dogmática, carregada de uma forte ideologia tomista. Já no século XX, como consequência da ditadura militar, os currículos oficiais retiraram-lhe do cenário educacional. Desde então, quando seu estudo está presente no currículo, dificilmente o está por mais de uma ou duas horas-aula por semana ou fora de paradigmas prejudiciais à originalidade filosófica.

Exemplo disso é o paradigma de uma filosofia presa a sua história (seja baseada nos filósofos, seja baseada nos temas ou conteúdos filosóficos), como se o ensino da filosofia fosse unicamente o ensino da história da filosofia. Outra prejudicial exposição filosófica presente nas escolas brasileiras é o chamado conhecimento enciclopédico, que tem como caráter uma espécie de monografia em torno de questões inquietantes do pensamento, no entanto, geralmente a partir de levantamentos fora do interesse dos jovens estudantes. Enfim, há o que Gallo e Kohan consideram como paradigmas ativos, isto é, como tentativas autênticas de introduzir a filosofia no Ensino Fundamental e/ou Médio. Assim, segundo essa matriz ativa, ensinar filosofia não significa ensinar sua história nem tratar de determinados problemas, mas antes propiciar aos alunos um conjunto de habilidades de pensamento.

Contudo, mesmo quando alguns professores pretendem estimular atitudes filosóficas, muito deles adquirem uma postura doutrinária, quer dizer, privilegiam uma única teoria – ou história, ou problema (e solução), ou habilidade – como verdadeira, devendo ser aprendida como tal pelos alunos. Uma posição mais aberta, em contrapartida, “não coloca histórias, problemas (e solução) e habilidades em termos de sua verdade, mas dá mais ênfase a outras categorias, como sentido, interesse e possibilidades emancipatórias”.

Na realidade, antes de refletir diretamente sobre esse ponto, Gallo e Kohan nos levam a pensar os “pra quê” e os “quê” do ensino da filosofia. Em primeiro lugar, eles citam a perspectiva de Kant que diferencia o processo da filosofia (o filosofar) e o seu produto.

O verbo, infinitivo, assinala o processo; o substantivo, o produto. Em sentido kantiano, a filosofia não pode ser ensinada porque ela, enquanto idéia de uma ciência possível, sempre é inacabada e, portanto, não pode ser aprendida nem apreendida. No entanto, é possível exercer “o talento da razão na observância dos seus princípios universais em certas tentativas existentes”. Para Kant só isso é possível, aprender a filosofar, reservando-se sempre à razão “o direito de investigar esses princípios nas suas próprias fontes e confirmá-los ou rejeitá-los”. Kant afirma, assim, a autonomia da razão pura, que é ao mesmo tempo a autonomia da razão filosofante [Gallo e Kohan, A distinção entre filosofia e filosofar].

No entanto, de acordo com Gallo e Kohan, essa distinção só faz sentido na concepção kantiana. Sem sua perspectiva de filosofia e concomitantemente do filosofar e sem o sujeito transcendental, dizem eles, o pensamento filosófico perde esta significação. Hegel, por exemplo, vai discordar de Kant. Ao tratar da didática da filosofia no Gymnasium, o filósofo alemão defendeu um ensino enciclopédico, transmitindo o “conteúdo universal da filosofia, a saber, os conceitos fundamentais e os princípios de suas ciências particulares”[1] em três fundamentais: a lógica, a filosofia da natureza e a filosofia do espírito. Na perspectiva hegeliana, conforme narra Gallo e Kohan, a lógica da produção filosófica é mais complexa e “dialética” do que a distinção analítica entre processo e produto: a própria prática da filosofia leva consigo o seu produto donde se segue que não é possível fazer filosofia sem filosofar, assim como, em contraposição a Kant, não é possível ensinar a filosofar sem ensinar filosofia.

Aos moldes críticos, em contraposição a esse tipo de filosofia, quer dizer, à tradição cuja percepção enxerga a filosofia como um saber eminentemente organizativo, está Nietzsche, um dos primeiros filósofos a repreender as pretensões sistemáticas. Na perspectiva nietzschiana, o ensino da filosofia deveria ser genealógico e heterodoxo. Seu fim, portanto, não seria sistematizar o pensamento, tampouco oferece-lhe sínteses, mas vir a ser sempre instável, parcial, provisório, perspectivo, múltiplo, destotalizador e a-sistemático.

Nesse sentido, a filosofia não tem serventia para muita coisa e, seja dito de passagem, sequer é preciso ser um crítico avassalador para defender que a filosofia não serve para nada. Nas palavras de Gallo e Kohan, já no mundo grego a filosofia – ou sabedoria primeira –, conforme diz Aristóteles, é a única sabedoria que existe para si mesma e não para outra coisa, o único saber que procuramos por si e não como meio para alcançar outro saber; daí seu caráter livre, independente e inútil.

Frente a ela e por outro lado, neste mundo mercantilizado de nossos dias, costuma-se enfatizar algumas pretensas utilidades da filosofia: ela permitiria formar pessoas mais flexíveis, mais versáteis, mais produtivas intelectualmente, mais criativas (no sentido publicitário do termo), o que, no final das contas, pode ser uma utilidade nada desprezível no competitivo mercado de trabalho de nossos dias. No final das constas, é estar a apropriação que se faz da filosofia em muitos segmentos da rede particular de ensino, tanto no nível médio quanto no nível fundamental: a filosofia é muitas vezes utilizada como uma ferramenta de marketing, junto com computação e inglês; é tudo o que necessita um jovem para ser aquele trabalhador flexível, instruído e criativo de que o mercado precisa [Gallo e Kohan, A filosofia não serve para nada].

Contudo, a perspectiva de Gallo e Kohan é bem distinta da ótica do mercado. Embora resguarde uma dimensão positiva à pergunta para que serve a filosofia, ela não lhe atribui uma utilidade determinada, dizem eles:

A filosofia contribui para se manter aberta e sempre presente a pergunta pelo sentido de como vivemos e do que fazemos (Larrossa, 1994: 80). Essa é sua função social principal. A prática da filosofia é coerente com sua inquietação inicial: Por que temos a sociedade que tempos? Por que vivemos da forma que vivemos? O sentido da filosofia é abrir nosso pensamento a essas interrogações e a novas formas de entender essas perguntas, colocando a dimensão no sentido em nossa experiência do mundo. Neste aspecto, a filosofia é ela mesma transformadora, seu exercício impede o continuar pensando da forma em que se pensava. A filosofia serve ao pensamento, à sua própria lógica problematizadora, sem que isso signifique que preste uma utilidade definida externamente [Gallo e Kohan, A filosofia não serve para nada].

Tendo isso em vista, Gallo e Kohan demonstram que é importante defender espaços para a filosofia na escola, no vestibular ou nos programas alternativos de ingresso, bem como na universidade, etc; mas, dizem eles, “para que o acesso dos jovens à aventura do pensamento filosófico seja possível é necessário que tenhamos bons professores de filosofia” – ou “filósofos-educadores”, como dizia Nietzsche, “que permitam que a experiência da educação seja uma experiência formativa de si mesmo, de forma crítica e criativa. Afinal, o ensino de filosofia acaba sendo uma questão de educação da filosofia, não menos que de filosofia da educação”.


[1] HEGEL, 1991:137.


Obra resumida: Uma crítica de alguns-lugares comuns ao se pensar a filosofia no Ensino Médio, de Sílvio Gallo (Prof. de Filosofia e História da Educação da Unicamp) e Walter Omar Kohan (Prof. do Departamento de Teoria e Fundamentos da UnB).

Tags: , , , , , , , , , , ,

Categoria: Filosofia, Filosofia latino-americana, Pedagogia, Pedagogia e aprendizagem filosófica

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (2)

Trackback URL | Feed RSS dos Comentários

  1. Rafaela disse:

    Natalia, eu preciso urgentemente deste texto do Silvio Gallo e não consigo encontrá-lo. Você poderia me ajudar?

    • Gostaria, sinceramente, de poder ajudá-la; mas eu o consegui através da copiadora da minha Universidade, quando cursei uma disciplina de Educação, agora porém não o tenho em mãos. Você é universitária? Se sim, é muito provável que um prof. que trabalhe nesta área o tenha e te possa emprestar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas