Deferência ao Paulo Coelho

A moralidade Grega do Alquimista

| 20/06/2016 | 0 Comentários

E no dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles – (Jó 1:6).

Assim começo essa resenha: “Paulo Coelho vendeu a alma ao diabo”. Nada mais poderia ser dito antes disso, afinal, por certo Paulo queria fama, sucesso e a vida de quem vive escrevendo livros, e ele a conseguiu mas não de modo fácil. As memórias do autor d’O Alquimista oscilam entre o satânico e a santidade, o pecaminoso e o sagrado, o sacrilégio e a virtude, entre Deus e o Diabo – mas o que ele ganhou em troca? Com toda certeza, uma vida digna de relacionamentos cosmológicos filosoficamente fundamentados e religiosamente justificados. O leitor que for guiado pelo título deste texto e vendo-o numa seção filosófica não se decepcionará com o mesmo pois a relação entre Paulo Coelho e a Filosofia será relacionada e exemplificada, todavia, o objetivo principal de minha escrita é a visão contextualmente biográfica, com teor de homenagear um dos maiores escritores ainda vivo: O Mago!

“O menino que nasceu morto, flertou com suicídio, sofreu em manicômios, mergulhou nas drogas, experimentou diversas formas de sexo, encontrou-se com o diabo, foi preso pela ditadura, ajudou a revolucionar o rock brasileiro, redescobriu a fé e se tornou um dos escritores mais lido no mundo”, assim Fernando Morais(1)( biografo oficial do Paulo) descreve o homem que recebeu mais de 600 páginas de seu livro chamado O Mago (2008). Paulo Coelho de Souza foi um leitor voraz de Oscar Wilde, Henry Miller, Nietzsche dentre outros, filho de um Engenheiro Pedro Queima Coelho de Souza, foi entregue ao santo José ao nascer morto, asfixiado pelo líquido que o protegera durante nove meses no corpo da mãe; Ligya Queima Coelho de Souza, que foi atendida pelo santo, ao que tudo indica, mesmo que seus primeiros três dias no mundo tenham sidos passados numa incubadora.

Contudo, para preservar seu teor filosófico, alguns detalhes devem ficar à parte desta resenha – eventuais descrições biográficas não serão detalhadas; como quando o escritor, ainda adolescente, atropelou um garoto ou quando foi internado e torturado, fugiu para Bahia à procura de um romance que resultou num aborto de um filho que poderia ter, quando foi confundido com terroristas e recebeu desculpas do Coronel Ivan Lobo Mazza, comandante da 13° BIB, etc. Realmente irei abrir mão dessas peripécias – aos curiosos é indicado a leitura da biografia citada, mas aqui eramos relacionar o modelo de vida do Alquimista com a virtude Grega, de modo que o leitor se sentirá engajado a compreender a Lenda Pessoal na referida obra do Alquimista(2) mais do que um mero conceito de livros de auto ajuda, mas uma moral edificada há milênios, segue a descrição:

A título de contextualização, devemos ter em mente que são três os grandes princípios da vida moral grega, a saber;

1. Por natureza, os seres humanos aspiram ao bem e à felicidade, que só podem ser alcançados pela conduta virtuosa.

2. A virtude é uma excelência alcançada pelo caráter.

3. A conduta ética é aquela na qual o agente sabe o que está e o que não está em seu poder de realizar.

éticaOra, Aristóteles chegou a afirmar, em sua Ética a Nicômaco, que ser ético é adotar o hábito de fazer o bem, e que a virtude está “no meio”, ou seja, entre os excessos e deficiência dos vícios, exemplo; a mediação entre covardia (vício por carência) e temeridade (vício por excesso) se encontra a Coragem (Virtude), entre a inveja e a alegria malévola se encontra a virtude da justa indignação, como na figura ao lado.

Os gregos eram inclinados a acreditar em suas virtudes, para eles, o exercício era o que ligava o indivíduo ao cosmo, realizando assim a vontade dos Deuses, o motor natural do fluxo das coisas, mas o que tem a ver Paulo Coelho com essas moralidades arcaicas? Aqui repousa justamente o tema de minha provação, pois trocando em miúdos, tudo se relaciona por quesito mais humano do que moral, ou seja, mais real do que ideal, todavia gostaria de me dar ao luxo de intervalar um relato pessoal que pode servir de pilares para o desenvolvimento de minhas pontuações:

O diálogo ocorreu num grupo Católico denominado Shalom, promovido e instigado pelas minhas provocações, passei uma madrugada inteira dedica a uma vigília conversando com uma das dirigentes do local, e pela primeira vez, eu, um iniciante da magia de Aliester Crowley e Anton Lavey, tive um espaço para discutir e provocar conceitos espirituais com um religioso, e entre anjos e demônios, Deus e Satã,  chegamos a uma conclusão admitida que é admitida pelos Kardencistas(3); a de que estamos falando da mesma coisa, por óticas e viés diferentes. Isso me fez aprender uma das maiores lições de vida que já tive; a diversidade cultural, temporal e biológica não chega a separar a humanidade como um todo, no fundo ainda sentimos calor quando muito quente, e frio quando muito gelado, e apesar de todas as ideologias, credos e bandeiras, não podemos nós desvincular da carne, das limitações e as implicações que isso acarreta, deste feito, é assim que a compreensão de ética proposta por Aristóteles há dois mil anos atrás ainda faz sentido para nós, os contemporâneos, e é nessas inclinações que a relação de Paulo Coelho e a moralidade Grega se encontram.

Algumas pessoas insistem em afirmar um certo desdém pelos livros do Mago, alguns pontos são compreensíveis, mas outros, vergonhosos; a compreensão se trata da falta de referencias filosóficas e cientificas em seus livros, é difícil de encontrar uma ótica acadêmica  em livros como As Valquirias, Diario de um Mago ou Alquimista, mas esse desdém também é vergonhoso pelo simples fato de evidenciar uma inveja digna de críticos ociosos incapazes de produzirem algo além de sermões, tal como Dan Brown, Coelho não polpa esforços para por vezes distorcer um pouco a realidade de um fato para germinar uma lógica em suas narrativas, prática muito comum no mercado de literatura.

Mas como todo escritor, Paulo engendra em seus personagens características dos livros e filósofos que leu, como o personagem Hamid do livro ‘O Vencedor está só’, que pontua um posicionamento bem Nietzschiano ao afirmar que

“Sempre que possível, é necessário ver os homens do alto,” pensa. “Só assim entendemos a sua verdadeira dimensão e pequenez.” ( COELHO, Paulo, O vencedor esta só; edt Agir; pág 97 cap 1:28PM)

Mas nem só de Nietzsche viverá o homem, seus livros são repletos de citações bíblicas, sempre como uma nota introdutória, (por isso fiz questão de introduzir uma também nesse testo), mas referencias e alusões a parte, o quesito principal desse elaborado, uma vez contextualizado, adentra no conceito de ‘Lenda Pessoal’ e ‘Vontade do Mundo’, de acordo com o parceiro de Raul Seixas, Lenda Pessoal é um fator individual de cada um que está intimamente ligado ao fator coletivo; a vontade do mundo, ou seja, cada pessoa é provida naturalmente de um missão; seja ela ser um astro do rock, uma estrela de cinema, salvar uma pessoa ou mesmo matar, estamos todos inseridos numa espécie de matrix onde nossa verdadeira vontade deve ser manifestada através de uma longa jornada promulgada pelo auto-conhecimento, ora, essa seria uma virtude grega, com denominações diferentes, a alquimia da vida implicaria em transformar pedra em ouro e me faz lembrar a descrição do Jerry Hopknis na biografia do Jim Morrison, em que ele afirma a figura de um herói trágico que é levado  através de uma longa e demasiada jornada pela dor, mas que a partir disso constrói a si mesmo, com a temperança de se chegar a tornar a pedra do seu coração em ouro.

Um outro ponto a destacar, para responder a possíveis críticas, faz-se necessário entender que existe uma lacuna entre o pensamento arcaico grego com a proposta da alquimia inserida pelo Paulo Coelho, mas devemos ter em mente que o mesmo não criou tais conceitos; a alma do mundo e a lenda pessoal são premissas mágicas que existem há mais de 50 mil anos, o mito as vezes toma diversas formas, as vezes como religiosa, outras como filosofia, e algumas como ciência. Mas a literatura está aí para evidenciar um fato; a de que a nossa imaginação é a verdeira criadora das possibilidades, e que no fundo, tudo isso não passa de “maneiras diferentes para falarmos a mesma coisa” ; A de que a existência é absurdamente e substancialmente rica para aderir as mais diversas formas de verdade, afirmo isso sem ser relativista, mas como um estudante de filosofia, como indivíduo a procura de si mesmo, como um leitor de Paulo Coelho.

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(1) Fernando Gomes de Morais é um jornalista, biógrafo, político e escritor brasileiro. Sua obra literária é constituída por biografias e reportagens.

(2) O Alquimista é o livro de maior sucesso de Paulo Coelho, que chegou a vender mais que Shekespeare, no que se refere ao seu conteúdo, o termo da ‘A lenda pessoal’ equipara-se a ideia da jornada do herói, moralidade individual nascente desde o berço em que promove ao individuo a compreensão de quem ele é, e do que fazer para expandir sua sabedoria enquanto espirito.

(3) Referente a Allan Kardec

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Categoria: Espiritualidade, Literatura e Cinema

Ismar Dias

Sobre o(a) Autor(a) ()

Eu acredito na vida, por conseguinte; na morte, acredito em espíritos, na inexistência da existência de Deus, acredito que existem monstros no armário, eu acredito na beleza, e choro diante dela. Quanto a definição de quem sou, que importa dizer o que faço sem antes denunciar o que penso? Dedico aqui uma boa parte de mim; pois eu acredito no que escrevo.

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