Não me formei um fantoche

Escrevi este texto em 27/12/2013, dias depois da minha formatura do Ensino Médio. Lendo-o hoje, posso reviver um pedaço da minha formação e felizmente compartilhá-lo com vocês.


O modo como hoje olho o tempo correr é curioso, muito parece ter se perdido em meio a tantas coisas engavetadas na minha caixinha de pensar. Isso agora me é concreto, explícito, pungente.

Muitos anos se malograram ante a minha formação – a começar de 2002, na minha alfabetização, até o presente momento, nos confins de 2013. Então, presentemente, começo a olhar para trás e procurar uma bagagem intelectual: o que essa formação pôde me dar?

Ao menos posso discernir a arte de escrever com lápis e caneta, na cursiva ou na letra de forma, na tela do computador ou no papel. Afora isso, reconheço as contas de padaria – aqueles cálculos de um mais um, três menos dois, alguns centavos e afins – as matérias historiográficas, geográficas, o que não aprendi da química, um pouco da física e tudo o que pude extrair da filosofia – sem esquecer da biologia, cultura religiosa, educação física, língua estrangeira e portuguesa, literatura, produção de texto e sociologia.

Contudo, adjetivo todo esse conhecimento com a frivolidade – o que é frívolo, do latim frivolu, caracterizado por falta de seriedade ou sentido, sem um objetivo sério, dado a leviandades que não merece consideração particular.

Não se trata de uma injustiça ou inverdade. Além da escrita e das contas básicas, grande parte do que aprendi foi de um modo tão inconsistente que será – se não já foi – esquecido em poucos anos. Eu, ao menos, preferiria esquecer. Esquecer as organizações incapazes de levar em conta o aprendizado, capazes apenas de impor a aceitação, acomodação, obediência e competição por um vestibular mal preparado.

Até onde me era possível, eu não seguia essa disciplina nem me entregava à pressão de entrar nas universidades. Costumava sentar no canto da sala, tranquila, observando os coqueiros, que ficavam no terreno vizinho da minha escola. Escrevia sobre o movimento de suas sombras, a beleza que deles emana ou de vez em quando os deixavam me inspirar uma poesia ou um ensaio. Outro dos meus costumes era ler livros filosóficos ou ficar olhando para os diversos alunos de minha classe pelo reflexo da janela. Gostava de analisar as pessoas sem que elas me observassem.

Pouco a pouco, os próprios professores se acostumaram comigo, apesar de não gostarem da minha falta de atenção. O que eles não entendiam era que eu estava, sim, completamente atenta. Minha concentração só não era voltada às matérias decorativas, mas a tudo o que se passava ao meu redor ou à minha mente.

Esse meu comportamento – para muitos, considerado inadequado – foi capaz de me dar uma formação muito ampla. Hoje, fico convicta que das coisas realmente importantes do meu aprendizado, só pude encontrar poucas delas nas matérias da escola – até mesmo na filosofia, já que seu conteúdo era restrito à alguns conceitos formados sem leitura ou estímulo concreto, não havia quase nada.

Por isso acredito que se eu tivesse seguido à risca o estudo das instituições de ensino, não seria quem sou e não conheceria as coisas que dou importância e valor. Enfim, posso exemplificar uma lição rápida: jamais estudei a estrutura ou nome cientifico dos coqueiros, mas os observei como nenhum dos estudantes regrados o fez.

Felizmente, não me formei um fantoche, mas uma pessoa pronta para os novos aprendizados da vida, tanto no campo pessoal quanto no acadêmico.

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Categoria: Artes e Letras, Crônicas e contos, Pedagogia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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