“Filosofar não cabe no lattes”

A começar pelo rumo das pesquisas acadêmicas hoje, o maior paradoxo da Universidade na Filosofia e nas ciências em geral é que ela trai a confiança do pensamento – ou mais propriamente do indivíduo que pensa – à medida em que se torna dependente do patrocínio e reconhecimento dos instrumentos do Estado tanto quanto se torna estéril sem seu correspondente apoio financeiro e prestigioso.

Longe disso porém, o pensamento genuíno, tal como incansavelmente sublinhava Deleuze, não serve nem ao Estado nem à Igreja nem a poder estabelecido algum. No entanto, o que vemos hoje é a quase necessária submissão da “elite intelectual” (sendo o signo “elite” dito com muito otimismo, pois somente assim podemos nomeá-lo em virtude do núcleo do corporativismo acadêmico brasileiro) ao poderio que esta deveria originariamente se libertar.

Ora, mas que poderio é este e por qual razão o pensamento deve se desligar do mesmo? Simplesmente porque um legítimo pensador não se mascara em “ares nobres”, quer dizer, nos ditos “ares de pensador”. Um pensador legítimo simplesmente pensa sem o instrumento das máscaras, ou melhor, sem instrumento exterior algum. Hoje, ao contrário, é feita na filosofia uma caricatura, uma mistificação e uma dogmática (dogmática esta que é muito distinta da “dogmática” tradicional que permeia a história ou mesmo as “endoxas” e opiniões dos grandes sábios).

Na realidade, tal como enunciou o próprio Deleuze, a mistificação da filosofia começa a partir do momento mesmo em que esta renuncia a seu papel; e hoje ela o faz a cada vez que fala em nome da federação, em meio da ABNT, da CAPES, do MEC. E qual o efetivo papel do filósofo? Certamente a distância do lattes e a aproximação da vida; todavia é infactível que o pesquisador não se encontre em aporia pois em sua vida há uma necessidade primária (a fechadura, o Estado) para a sua chave (a Filosofia), isto é, uma instituição que pague seu arroz e seu feijão ou antes, sua biblioteca pública e seu livreiro particular.

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Categoria: Ética e Cidadania, Existência, Filosofia Contemporânea, Filosofia Social e Política

Ana Elizabeth

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Sou um pseudônimo do meu nome próprio, de uns vinte e tantos anos, duas dezenas de existência, umas centenas de angústia.

Comentários (12)

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  1. A provocação desse texto deixa de lado muitos fatores concretos pertinentes à discussão.

    1. A pesquisa acadêmica em geral não é totalmente dependente do Estado; além de institutos privados e até empresas (Google, Microsoft, etc) realizarem pesquisas ou financiarem pesquisas, basta lembrar que a maioria das universidades americanas, reconhecidas como as melhores do mundo, tais como Harvard, MIT e Princeton, são universidades privadas, cuja receita vem, em grande parte, de doações e investimentos financeiros. Essa colocação já seria suficiente para refazer esse texto, mas, se nos restringirmos ao Brasil, já que você menciona o Lattes, temos mais a dizer.

    2. O fato de os pesquisadores brasileiros, em sua maioria, serem financiados pelo Estado não quer dizer que o pensamento deles esteja a serviço do Estado – alguns deles, inclusive, são liberais no sentido de negar ao máximo possível a presença do Estado na sociedade. Ninguém os impede de defender ideias que vão totalmente de encontro ao “interesse” do Estado, se é que faz sentido dizer que uma entidade abstrata tem algum interesse. Essa liberdade é possível, inclusive, porque esses pesquisadores gozam de estabilidade no emprego – embora a estabilidade do emprego público, da forma como é hoje, gere outros problemas que não vem ao caso agora.

    3. Há muitas críticas que podem ser feitas ao Lattes, mas não é possível evitar o problema logístico que ele tenta solucionar: obter um quadro tão completo quanto possível dos professores e pesquisadores do Brasil. Se você checar a plataforma Lattes, vai ver que tem uma área com estatísticas. Esses dados só são possíveis graças à plataforma. Você tem uma ideia melhor para fazer isso? A estrutura institucional da academia hoje é uma consequência dos tempos: muita informação, muita competição entre pesquisas, muito material humano, enfim. É preciso gerir tudo isso.

    4. Seja lá o que você queria dizer, uma “aproximação da vida” não é impossibilitada pela estrutura institucional da academia, tampouco na área de filosofia. Na UFPE, o professor Érico Andrade, do departamento de filosofia, é conhecido por seu ativismo social, inclusive por dar entrevistas à mídia. Outro exemplo é o professor Marcelo Pelizzoli: http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2016/01/29/um-filosofo-em-missao-junto-aos-presos/

    Enfim, muita calma antes de criticar instituições tão bem estabelecidas.

    • Ana Elizabeth Ana Elizabeth disse:

      SOBRE O PONTO 1: Ítalo, talvez vc não tenha se atentado ao fato de que eu não usei a palavra “Estado” isolada, e sim “instrumentos do Estado”. Nesse sentido, qualquer instituição ou componente formal faz aí parte do Estado, ou seja, qualquer verba, seja ela pública ou privada, atua no Estado.

      SOBRE O PONTO 2: Em nenhum momento eu falei que quando alguém é pesquisador brasileiro, um outro alguém o “impede de defender ideias que vão totalmente de encontro ao “interesse” do Estado” – até porque eu pesquiso o socialismo. E sobre a ‘estabilidade do emprego público”, eu concordo em gênero, número e grau com você; ela não contradiz minha perspectiva, pelo contrário, é exatamente ela que gera a aporia presente no primeiro parágrafo, a aporia que faz de um “filósofo” um servidor público (e também privado).

      SOBRE O PONTO 3: O emprego do “Lattes” foi de cunho poético e uma “paródia” devido a onda de pichações feitas nas UFs do país que diziam “Viver não cabe no Lattes” (esse texto está cheio de referências das paredes e conversas de corredor).

      SOBRE O PONTO 4: Em nenhum momento falei que tais considerações impediam a existência de profs que atuem em outras áreas da estrutura social ou ajam de forma menos “burocrática” ou “para cumprir calendário”. Os profs são em geral mentes extraordinárias! O problema é que vivem essa aporia. Qual? A de serem servidores públicos. Filósofos-servidores-públicos? Filósofos-que-servem? Filósofos-que-pensam-com-hora-marcada (a hora da aula) “Filósofos-que-‘filosofam’-independente-de-sua-inspiração”? “Filósofos-que-ganham-dinheiro” e sobretudo dinheiro público? Mas, infelizmente, “filósofos” quem TEM de ganhar dinheiro para viver…

    • Gostaria de comentar o quão achei meritória a atitude do Marcelo Pelizzoli. Inclusive, fazendo um link, há um autor brasileiro (não me recordo seu nome agora, apenas o título de sua obra, “Metafilosofia”) que propõe a investigação empírico-filosófica de como os presidiários enxergam a ética e a moral.

  2. Dois pontos que quero discutir: a estabilidade de emprego e a ideia de “Filósofos-que-servem” (a entidades públicas ou privadas).

    1. Não sei se fui claro, a estabilidade é um elemento útil na manutenção da liberdade do filósofo, e age na contramão da aporia que você descreve, pois, uma vez que o filósofo tem seu emprego garantido independentemente do que fale ou faça (bem ou mal), ele é livre para filosofar conforme sua “inspiração”, inclusive para criticar seus empregadores. Um dos problemas com essa estabilidade irrestrita, como é no Brasil, é que ela funciona como um estímulo à acomodação e prejudica a competitividade na academia, e, consequentemente, a produtividade. Querendo ou não, a pesquisa no mundo todo está estruturada desta forma: altamente competitiva (basta considerar que uma minoria de uma multidão de artigos é publicada nos periódicos centrais), altamente exigente por produção, e, em muitos casos (mas não em filosofia), altamente dependente de grandes recursos financeiros.

    2. Você parece aprovar a ideia de um filósofo como um pensador livre, que pensa apenas em função de sua curiosidade e interesse intelectual, que não tem compromisso, senão consigo mesmo. Daí repudia a ideia de haver “Filósofos-que-servem”. É uma visão atrativa, mas irrealista, mesmo se considerarmos filósofos do passado – no caso presente, é obviamente irrealista. Os sofistas ensinavam artes retóricas em troca de dinheiro. Os filósofos medievais praticamente filosofavam em função da cosmovisão da Igreja Católica, refinando e adaptando as ideias da Igreja. Na Idade Moderna, muitos filósofos foram funcionários do Estado, como Maquiavel e Hobbes.

    Mesmo se um filósofo não precisasse se preocupar em ganhar dinheiro, nos tempos atuais, não sei se isso seria o ideal, pois dinheiro, status, cargos, competição, coisas presentes na academia hoje, funcionam como incentivos e pressões ao bom e produtivo trabalho, mesmo que tenham algumas consequências ruins e nem todos se adaptem bem.

    Como disse Nicholas Rescher, “…the day of the philosopher as isolated thinker–the talented amateur with an idiosyncratic message–is effectively gone.”. Ver sobre a profissionalização da filosofia:
    https://en.wikipedia.org/wiki/Contemporary_philosophy

    • Sobre os comentários acima: Pelo que pude perceber, a disputa entre vocês dois (Ítalo e Ana) está além de como o filósofo se encontra hoje nos departamentos de Filosofia. Antes, haveria um conflito político entre o Estado, a existência do mesmo ou como este atua e deve atuar não apenas na Filosofia, mas em sua razão de ser geral.

    • Ana Elizabeth Ana Elizabeth disse:

      Natália, você está certa quanto ao que está por trás da discussão, mas não totalmente, pois vejo aqui uma divergência não só sobre o Estado, mas também sobre o que a filosofia é.

      Pelo discurso do Ítalo, não há problema algum em falar de Filosofia ao lado de “produtividade”, produtividade esta que até lhe parece positiva. Qual o problema disso? Que filosofar, em minha visão, não é produzir artigos tampouco comentários à história da Filosofia.

      Que mais posso extrair dos comentários acima? Que para Ítalo falar em Filosofia e Competitividade juntas não é um mal. Quanto a falar em Filosofia e pressão-como-incentivo? Muito menos! Tampouco há problemas em falar da burocratização da filosofia…

      Para mim, ao contrário, o filósofo não deve ser pressionado a “parir sua idéia”, nem deve ter seu processo criativo burocratizado; nesse sentido, o que hoje temos dificilmente são ideias, e sim comentários etc.

      Vendo isto, eu até poderia discutir com o Ítalo (pois não devo ser excludente de quem está em discordância de mim consequentemente não posso me comunicar apenas com quem concorda comigo), mas não vejo como edificar algo a partir de comentários neste post. Sei que o espaço virtual é muito proveitoso para o crescimento dos debates, acredito nele (por isso até estou escrevendo aqui), mas neste momento ele não está cumprindo seu papel da melhor forma. Prefiro então me ausentar da discussão momentaneamente.

      Como alternativa, sugiro que o Ítalo escreva seu pensamento sobre a Filosofia no Brasil, sua burocratização e academicização e mande num post explicativo pro site. Assim posso ler com mais calma, entender sua posição e quem sabe chegar a um denominador comum. De acordo?

  3. Olá, Ana.

    Admiro sua visão romântica de filósofos e das filósofas pensando livremente e parindo ideias, mas essa simplesmente não é a forma como a área de filosofia está estruturada hoje no mundo e no Brasil. Não é minha opinião; não digo que seja o ideal; não digo também que é uma catástrofe; é apenas uma tendência irreversível; sinal dos tempos. Isso se você escolher a área acadêmica.

    Aceito e agradeço ao seu convite para escrever um texto para o site. Será um prazer.
    Igualmente, grato pelo debate.

  4. Não sei, Natália.
    Pode me dizer como é o procedimento?
    Mais uma vez agradeço a oportunidade.

    • Em primeiro lugar, você precisa se registrar no FiloVida; segue link de cadastro http://filovida.org/registro/ . A confirmação do cadastro ocorre via email, e costuma aparecer no lixo eletrônico. Tendo confirmado o seu log in, você me deixa ciente; então te posso pôr como colaborador, daí em diante é só submeter um novo texto em +Novo (opção que aparecerá tendo isto feito) sempre que quiser.

  5. Obrigado, Natália.
    Terça ou quarto eu mando alguma coisa.
    E parabéns pelo site. Li alguns posts seus sobre filosofia e achei bem legais, como o sobre Larry Laudan. Gosto da ideia de ciência como atividade de resolução de problemas. Aponta, penso eu, para o caminho certo, e contorna alguns problemas persistentes.

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