Fé e razão em Abelardo: “Não se pode crer naquilo que não se compreende”

Deus conhece de antemão tudo o que cria e não necessita da abstração, pois conhece diretamente. Somente esse conhecimento divino é perfeito. O uso da abstração por parte do homem só oferece um conhecimento deficiente […] posto que conhecemos mediante os sentidos e não podemos conhecer bem mediante qualquer outra faculdade que seja estranha ao modo propriamente humano de conhecer.

– Bertelloni acerca da perspectiva de Abelardo (1998, p. 12-13).

Escultura de Abelardo no Palais du Louvre

Escultura de Abelardo no Palais du Louvre.

A filosofia escolástica francesa de Pedro Abelardo (1079-1142) é notável sobretudo porque descortina filosoficamente a razão medieval. Eis suas palavras: “Não se pode crer naquilo que não se compreende”, quer dizer, as verdades de fé devem vir expressas senão em palavras inteligíveis. “E, diz ele, não basta aderir cegamente as autoridades; é mister examiná-las criticamente a fim de determinar claramente o que se deve crer. Tanto mais que existem muitas contradições aparentes entre essas autoridades. Há proposições que são afirmadas por umas e negadas por outras (…) Em tais casos a razão deve decidir-se por um ou por outro” (BOEHNER, Philotheus, GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã: Desde as Origens até Nicolau de Cusa. 7ª ed. Trad. Raimundo Vier. Petrópolis: VOZES, 2000. P. 309).

Outrossim Abelardo mostra que, antes de aderir determinada crença, até mesmo acerca das Escrituras, é preciso ponderar a fé racionalmente. Somente através da razão é possível, verbi gratia, distinguir entre os significados próprios e o emprego metafórico das palavras. O papel da atividade racional surge também como um examinador dos textos dos Santos Padres tanto porque vários deles mudaram de opiniões quanto porque podem ter-se equivocado. Sem uma reta compreensão, admite Abelardo, o homem não conseguirá discernir o que há nos Padres de opinião e quais são as suas doutrinas definitivas (Pedro Abelardo, Intelligo ut Credam).

Dessa maneira, o binômio “razão e fé” pôde fazer da primeira uma crítica da segunda, aliás, no pensamento de Abelardo a razão não mais se assimila à fé, mas a fé, apropriada da razão, se apóia num discurso filosófico autêntico. A filosofia não mais se torna um conjunto de sentenças teológicas, antes, é reconhecida como um auxilio no entendimento da verdade, uma  mediadora entre a revelação e o pensamento humano. Como bem explicou Modin, o método de Abelardo leva a razão a uma atitude de independência e de crítica incompatível com a doutrina tradicional anselmiana das relações entre razão e fé. Ela não mais é, como em Anselmo, uma humilde intérprete da fé, mas da fé se separa para tratá-la como igual.

No entanto, se filosoficamente seu caminho foi louvável, para a Igreja era imprescindível que Abelardo repensasse dezenove de suas teses – dentre elas seu conceito de fé, da doutrina trinitária e algumas doutrinas morais – cuja consequência foi a condenação das mesmas nos concílios de Soisson (1121) e Sens (1141). Abelardo, um infortúnio para a Igreja, decerto foi uma boa ventura para a Filosofia tendo suscitado o momento quando “a razão separa-se da fé e assume uma posição crítica em relação a ela. Com esta posição Abelardo prepara o futuro conflito entre o saber humano e o saber religioso” (MONDIN, Batistta. Curso de Filosofia: Os Filósofos do Ocidente v. 1. Trad: Bênoni Lemos. Ver. João Bosco de lavor Medeiros. São Paulo: Paulus, 1981. P. 171).

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Categoria: Cristianismo, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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