Breve historiografia da Biologia

bioloA Biologia como ciência tem raiz no mundo grego, mais especificamente através de Aristóteles que, como tutor de Alexandre, O Grande, teve o privilégio de conhecer a fauna e a flora do mundo conquistado pelo Império Macedônio. Apesar de discordar de Platão sobre o mundo das ideias, o pensamento aristotélico não rompeu com o conceito de essência, apenas o reposicionou no mundo físico a partir de sua teoria mais conhecida por “hilemorfismo“. Mesmo que livre do eidos platônico, seu raciocínio compreendia um fim ideal para os seres vivos, e isso originou muitos grilhões que a biologia, como ciência natural, tentou se livrar no percurso da história.

No fervilhar da Revolução Científica inúmeras coleções de seres vivos vindas do Mundo Novo desembarcavam na Europa e inúmeros avanços eclodiam na tecnologia laboratorial (como a invenção do microscópio). Em consequência disso quase toda a ciência natural se tornou descritiva e sistemática. O maior exponente da época marcada pelo cristianismo foi o botânico Lineu, cuja obra mais famosa ainda é usada como base para a nomenclatura dos seres vivos. Foi crescendo entre os naturalistas a ideia de que o ser humano estava no topo da criação divina, estabelecendo assim um tipo de hierarquia entre os seres vivos do mais simples ao mais complexo. Aplicando isso à ideia de transmutanismo, surgiu Lamarck, quem deu força ao que foi chamado de Scala Naturae.

Esses conceitos de Essência e de Scala Naturae, juntamente com a ideia teleológica de que todo ser vivo foi “feito” para um fim, também uma herança aristotélica, foram os que mais deram força para que as áreas da biologia se importassem mais em responder a pergunta “como ocorrem esses processos?” do que “por que ocorrem esses processos?”. Além do mais, o cristianismo, uma vez que já impunha uma resposta para a dúvida do “por que?”, sempre a preenchendo com Deus, deixou terreno fértil para resoluções da pergunta “como?”.

O historiador Leandro Karnal enumera em três os maiores golpes que o ego humano sofreu na história: ao lado da descoberta de que a Terra não era o centro do universo e da formulação freudiana de que não somos seres completamente racionais está a formulação da teoria da evolução por seleção natural, que afastou o homem da ideia de ter sido feito à imagem e semelhança de um Deus bondoso e justo. Desde então, a biologia começou a dar seus primeiros passos enquanto uma ciência madura, tendo agora possibilidade de resposta para suas duas peguntas norteadoras.

Entretanto, essas possibilidades eram e são bastante desiguais. No livro Isto é Biologia E. Mayr deixa claro o seguinte: “Em 1955, o Conselho de Biologia organizou um simpósio especial dedicado a analisar os conceitos da biologia e a como melhor representar a estrutura biológica. (…) É interessante (e não surpreendente) que o experimentalista Weiss tenha agrupado todos os aspectos da biologia de organismos (as biologias sistemáticas, evolutiva, ambiental e comportamental) em uma única categoria, ‘biologia de grupo e ambiental’, enquanto reservou cinco categorias de igual peso para níveis hierárquicos abaixo de organismos inteiros.”. E no livro A Biologia e o Homem, escrito em 1964, George Gaylord evidência que “(…) um dos chefes dos instrutores estava desenvolvendo e divulgando um novo curso de Biologia Geral, em que, como ele se orgulhava, não se falava de organismos a não ser no segundo período escolar e apenas como se fossem tubos de ensaio nos quais se processam as reações químicas.”.

Com áreas de estudo como a ecologia tendo alcançado a maturidade apenas na década de 70, vinte anos antes do projeto genoma, fica claro que as áreas que estudavam sistemas de organização de nível molecular e celular tiveram muito mais importância do que as áreas que estudavam sistemas de organização de nível organismal e populacional. Novamente, Mayr ressalta: “Com as ciências físicas tradicionalmente favorecidas com prêmios Nobel, em eleições para a Academia Nacional, em cargos consultivos no governo e pela indústria, as porções da biologia mais próximas do material e do pensamento das ciências físicas sempre foram favorecidas pelo governo, enquanto outros aspectos da biologia, como estudo da biodiversidade, eram negligenciados. A origem dessa diversidade, um dos dois principais problemas da biologia evolutiva, era quase totalmente ignorada pela genética evolutiva antes da síntese evolucionista. A biologia médica, por razões óbvias, sempre foi favorecida pelas agências de fomento. Projetos equivalentes geralmente conseguem financiamentos muito maiores quando apoiados pelo Instituto Nacional de Saúde do que quando apoiados pela Fundação Nacional de Ciências.”.

Assim como a hereditariedade ou o comportamento animal, todos os processos biológicos podem ser reduzidos ao nível molecular, por mais que a ciência atual ainda não tenha arcabouço para isso, vide que a mesma se constitui como uma ciência adolescente. Lutar contra isso, assim como fizeram alguns biólogos organismais no final do século XX, hoje é papel dos defensores da Teoria do Design Inteligente, que defende a ideia de Complexidade Irredutível sobre algumas coisas, como a consciência humana. Porém, limitar-se ao mundo das essências, como bem faz as ciências físicas, conduz a possíveis erros, já que a biologia trata, em última instância, de organismos diferentes entre si e de suas relações com outros organismos, vivos ou não. Dessa forma, uma explicação de qualquer processo biológico não pode ser completamente satisfatória até que tanto suas causas próximas (resposta da pergunta “como?”) quanto suas causas últimas (resposta da pergunta “por que?”) sejam iluminadas.

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Categoria: Biofilia

Bruno Abu Marrul

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de biologia e amante de sophia, vivendo numa eterna luta interna entre a razão científica e um irracionalismo necessário. Poeta nas horas vagas e crítico literário em meio período.

Comentários (2)

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  1. Anônimo disse:

    “Assim como a hereditariedade ou o comportamento animal, todos os processos biológicos podem ser reduzidos ao nível molecular, por mais que a ciência atual ainda não tenha arcabouço para isso, vide que a mesma se constitui como uma ciência adolescente.”

    Você acredita que os métodos de estudo baseados nas teorias de conhecimento que fundam as ciências biológicas seriam capazes de descrever, sem prejuízo, o funcionamento complexo dos comportamentos animais e humanos, incluindo a construção dos sistemas simbólicos e linguísticos que compartilhamos e que fundam nossa sociedade? Você acredita mesmo que a biologia, com o devido avanço instrumental, tornaria as ciências sociais e psicológicas obsoletas sem prejuízo científico, ético e ontológico?

    Se sim, por que?

    • Bruno Abu Bruno Abu disse:

      Talvez não na forma como as Ciências Biológicas são trabalhadas e ensinadas. Até porque em um curso de biologia nós mal estudamos o ser humano… e quando estudamos, o cortamos em pedaços. Porém, acho que uma pesquisa e um ensino em biologia repensados, com outros objetos de estudo (que não deixam de ser seres vivos e suas manifestações), poderia ser possível de englobar algumas ciências, como as que você disse. E sobre os processos simbólicos, que é sobre oq fundamos nossa moral, nossa justiça, etc., a biologia pode até explicar os porquês, mas sempre vai existir alguma ciência que vai trabalhar em cima de organizar essas coisas (como o direito, ou a economia).

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