O racional e o místico no Tratactus de Wittgenstein

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Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (Viena, 26 de Abril de 1889 — Cambridge, 29 de Abril de 1951).

Esta publicação será narrada através de uma compreensão da obra O Racional e o Místico em Wittgenstein (2001) de Urbano Zilles. Atentai ao fato de que esta não é a compreensão da obra ela mesma, mas uma compreensão por meio dela que, assim como ela, corresponde a uma tentativa, por intermédio do Tractactus Logico-Philosophicus, de compreender a maneira como nosso pensamento pode encontrar um caminho no labirinto da linguagem. Porquanto para Zilles o acesso ao absoluto, transcendente e metafísico é impossível através do discurso lógico e representativo uma vez que ele só é possível no interior do sentimento místico, a obra de Wittgenstein é, ao mesmo tempo, “uma lógica e uma mística”. No entanto, muitos de seus receptores a herdaram como uma simples compreensão da linguagem, antes compreendida como um dom dos deuses, agora como um aspecto da conduta social humana, isso porque, segundo afirma o próprio Wittgenstein, o Tratactus foi mal compreendido em muitos aspectos até mesmo por Frege, Russell e Moore. Cabe a nós, diante disso, resgatar o vínculo com a vida e com os sentimentos, sem esquecer deles ao atentar-nos apenas à ciência.

Zilles encontra uma das aberturas para apreender a significação triplica do nosso filósofo em Schulz, e é daí que ele procede: I) Wittgenstein tem como ponto de partida a moderna lógica matemática influenciada por Frege e Russell; II) Wittgenstein possui um pensamento independente e não classificável; III) Wittgenstein é uma criação de possibilidades futuras à atividade filosófica, Wittgenstein é uma mudança do positivismo para os jogos de linguagem. Assim como o círculo de Viena, Wittgenstein I) separa a ciência e a lógica da vida, II) defende que as proposições lógico-analíticas são tautologias e as ciências empíricas são sintéticas; III) justifica como a referência das proposições empíricas deve ser verificável – e, segundo o aforismo 2024 do Tratactus, determina que “compreender uma proposição é saber o que ocorre, caso ela for verdadeira”.

Mas vede também as diferenças entre o positivismo lógico, que rejeitou totalmente as proposições metafísicas, e Wittgenstein, que assumiu uma postura mais aberta quanto a elas; eis como K. T. Frann pôde mostrar que o Tratactus não é anti-metafísico. Se é verdade que adentrando na ciência a metafísica é impossível, ainda assim, na vida ela não o é; e exatamente porque Wittgenstein separa a ciência da vida, a metafísica pode “não ser declarada como morta”. Ora, a ciência é clara, mas a vida é aporética, e assim como ela o é, está lá a metafísica, igualmente uma aporia. De um lado há o mundo, do outro, palavras e proposições. De um lado está a facticidade do mundo, do outro a estrutura lógico-sintática da linguagem. Eis o que ambas as realidades carregam em comum: uma forma lógica. E é justamente esse pontapé – ambas como estruturas lógicas – que permite o paralelismo linguagem-mundo, proposição-fato, e salienta a construção lógica tanto da linguagem quanto do mundo uma vez que a linguagem pode figurar a realidade.

Zilles defende a teoria da figuração como uma das chaves para entender o Tratactus. Mas o que Wittgenstein realmente entende por figuração? Diz o comentador: “Por figuração, Wittgenstein certamente não entende imagens naturalistas, uma espécie de fotografia da realidade. Pensa, antes, uma relação abstrata, complexa, que os matemáticos designam como afiguração (Abbildung), ou seja, uma isomorfia. Imagem e original correspondem-se na estrutura. Assim o conjunto das proposições fornece uma descrição completa do mundo”. Deixemos que o próprio Wittgenstein fale:

A figuração presenta a situação no espaço lógico, a subsistência e a não subsistência de estados de coisas. (2.11); A figuração é um modelo da realidade. (2.12); A proposição é figuração da realidade. A proposição é modelo da realidade tal como a pensamos. (4.01); A proposição é a figuração da realidade; pois conheço a situação representada por ela quando entendo a proposição. E entendo a proposição sem que o sentido me seja explicado. (4.02).

Nesse sentido, a linguagem é um mapa do mundo. O sentido de uma proposição se dá pela possibilidade de sua veracidade ou falsidade ou, conforme hoje se diz, na semântica das condições-de-verdade. Zilles mostra que para Wittgenstein há três aspectos a se considerar: I) um mundo como totalidade dos fatos (1 até 1.11); II) a figuração dos fatos (2.1); III) como essas figurações são elas próprias fatos (2.141). E “o que cada figuração, de forma qualquer, deve sempre ter em comum com a realidade para poder figurá-la em geral – correta ou falsamente – é a forma lógica, isto é, a forma da realidade” (2.18). Por isso a filosofia se utiliza da lógica mas “a filosofia não é ciência da natureza” (4.111):

A finalidade da filosofia é o esclarecimento lógico dos pensamentos. A filosofia não é teoria, mas atividade. Uma obra filosófica consiste essencialmente em comentários. A filosofia não resulta em proposições filosóficas mas em tornar claras as proposições. A filosofia deve tomar os pensamentos que, por assim dizer, são vagos e obscuros e torná-los claros e bem delimitados. (4.112). Denotará o indizível, representando claramente o dizível. (4.115).

Portanto diz Zilles: “para Wittgenstein, a filosofia não constitui um corpo de conhecimento. Seu discurso carece de sentido. Não diz fatos, mas esclarece proposições, que dizem fatos. A filosofia não exige conhecimentos específicos. O filósofo busca respostas a pseudo-questões e a maioria das proposições filosóficas não são falsas, mas carecem de sentido”. A filosofia aparece então como crítica da linguagem a fim de esclarecer o pensamento. Brilhantemente o comentador aponta que quando Wittgenstein quis dizer que “o que não se pode falar deve-se calar”, ele explicitou:

Não se pode dizer mas só mostrar (…) a) a estrutura da linguagem e, com isso, a estrutura do mundo na própria fala; a estrutura da linguagem manifesta-se em proposições lógicas, de modo especial em tautologias, contradições, afirmações analíticas etc.; b) o limite do mundo e o místico.

Para Zilles Wittgenstein propriamente conseguiu validar que o místico se mostra, em última análise, na ação. “Sentimos que, mesmo que todas as possíveis questões científicas fossem respondidas, nossos problemas vitais não teriam sido tocados. Sem dúvida, não cabe mais pergunta alguma, e esta é precisamente a resposta” (6.52) e “observa-se a solução dos problemas da vida no desaparecimento desses problemas” (6.521). O comentador mostra que, “quando Wittgenstein, no final do Tratactus, aconselhou seus leitores a usarem sua obra como uma escada para elevar-se além dela” e “mostra que de Deus não se pode ter um verdadeiro conhecimento científico”, ele construiu “uma variante moderna da antiga ‘teologia negativa’, que sempre abriu caminho a Deus enquanto excluía a transcendência no âmbito do dizível”.

E foi assim que Wittgenstein pôde escrever em seus Diários de 1914-16 como pelo Tratactus

O impulso para o místico origina-se da insatisfação de nossos desejos através da ciência. Nós sentimos que mesmo depois de respondidas todas as perguntas científicas possíveis, nosso problema ainda não foi tocado / Que sei eu acerca de Deus e do sentido da vida? Sei que este mundo existe; que estou colocado nele como meu olho em seu campo visual; que há algo de problemático; que chamamos seu significado; que este significado não está nele, mas fora dele; que a vida é o mundo; que minha vontade penetra o mundo; que minha vontade é boa ou má. Portanto, que o bom e o mau de algum modo estão conectados com o significado do mundo. Ao sig-nificado da vida, isto é, ao significado do mundo, podemos chamá-lo Deus e conectar com isso a comparação de Deus com um pai. Orar é pensar acerca do significado da vida. Não posso sujeitar os sucessos do mundo à minha vontade: careço por completo de poder… Se a boa ou má vontade afeta ao mundo, só pode afetar às fronteiras do mundo, não aos fatos; isso não pode ser figurado pela linguagem mas só mostrado na linguagem / Crer em um Deus significa compreender a pergunta pelo sentido da vida. Crer em um Deus significa ver que nem tudo se exaure nos fatos do mundo.

“Crer em um Deus”, portanto, “significa ver que a vida tem um sentido”.

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Categoria: Epistemologia, Espiritualidade, Filosofia, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Ciência, Filosofia da Linguagem, Lógica, Metafísica e Ontologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (3)

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  1. Lívia disse:

    Nunca tinha pensado na mística em Wittgenstein, se antes já gostava dele agora gosto mais ainda

  2. Victor Hugo disse:

    Estou em busca de pessoas que queiram produzir conteúdo de forma voluntária para esta página: https://www.facebook.com/VICTORHUGOALVES.OF/

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