Materialismo versus mentalismo: Cinco tipos de reducionismo

filosofia da menteNa obra A Redescoberta da Mente (1997) John Searle ambiciona minar as bases sobre as quais se assenta toda a tradição materialista que lhe precede. Segundo o autor as tese materialistas se compõe num grupo de concepções e pressuposições metodológicas sucintas em 7 assunções, a saber:

  1. No estudo cientifico da mente, a consciência e suas características especiais não são importantes. Para falar de cognição e de estados mentais em geral não é necessário se referir à consciência.
  2. A “[…] ciência é objetiva […]”. (SEARLE, 1997, p. 20). E dizer isso não é apenas dizer que a ciência se submeteria a um método para chegar a conclusões que sejam independentes de gostos e pontos de vista pessoais, mas também que a ciência envolve uma realidade que seria completamente objetiva, e por isso a ciência só seria objetiva porque a “[…] própria realidade é objetiva […]”.16 (SEARLE, 1997, p. 20).
  3. Se a realidade é totalmente objetiva, então o método adequado para se estudarem as coisas seria um método que adote o ponto de vista objetivo ou de terceira pessoa, inclusive para o mental.
  4. A única resposta aceitável à pergunta epistemológica como é possível conhecer os estados mentais de outros sistemas? seria uma resposta comportamentalista: conhecemos a mente das pessoas observando seu comportamento. Este pressuposto seria coerente porque a tradição estaria partindo do pressuposto de que o ponto de vista de terceira pessoa seria o único método adequado para estudar a realidade, como exposto no ponto 3.
  5. O comportamento inteligente e as relações causais de comportamento inteligente seriam a essência do mental. Segundo Searle, a aceitação deste ponto de vista vai desde a postulação behaviorista (do behaviorismo radical) de que não há nada que possa ter estados mentais a menos que tenha disposições para o comportamento, até a tentativa funcionalista de definir as noções mentais em termos de relações causais internas e externas.
  6. Todos os eventos seriam, em princípio e em todo o universo, cognoscíveis e inteligíveis para investigadores humanos, pois se a realidade for somente física, objetiva, e se a ciência envolve a investigação da realidade física, não poderia haver limites para o nosso conhecimento desta realidade.
  7. Tudo o que existe seria essencialmente físico, e este excluiria, necessariamente, o mental.

(Sobre a filosofia da mente de John Searle / Rodrigo Canal. – Marília, 2010. 174 f. ; 30 cm)

Searle entende que cada umas dessas sete teses, “que representariam os fundamentos do materialismo tradicional”, são falsas mas, se foram amplamente aceitas, foi em decorrência do horror ao dualismo cartesiano; depois da crença na falência da proposta de Descartes, seria absurdo pensar que possam existir dois tipos de substâncias isoladas (a mente e a extensão). Por conseguinte, foi preciso de algo para se opor ao dualismo. No entanto, segundo Searle, os reducionistas passaram a “sofrer o mal de não reconhecer como certa qualquer coisa que pareça dualista, sob pena de ter que aceitar, sem volta, a metafísica dualista”. A tradição reducionista acabou por herdar o vocabulário físico versus mental, corpo versus mente, materialismo versus mentalismo, matéria versus espírito (SEARLE, 1997, p. 25) sob uma tendência objetivadora a fim de fazer “alguma grande ‘ruptura’ no estudo da mente” ou “uma ciência cognitiva madura” (SEARLE, 1997, p. 30).

Seriam cinco os modos de se pensar o Reducionismo, são eles:

  1. redução ontológica segundo a qual objetos de certos tipos são nada mais do que objetos de outros tipos (como os genes constituem em nada mais do que moléculas de DNA ou cadeiras são nada exceto coleções de moléculas). Por conseguinte os processos neurônicos de nível inferior no cérebro causam a consciência e a consciência é apenas uma característica de nível superior de um sistema composto de elementos neurônicos de nível inferior (SEARLE, 2010, p. 5).
  2. redução ontológica de propriedades, que é a redução ontológica ligadas a propriedades mente-corpo (Consciência, arquiteturas mentais e reducionismo em Ciências Cognitivas / Heloísa Pedroso de Moraes Feltes).
  3. A redução lógica-definicional que, oriunda no behaviorismo, culminará no pensamento de que a esfera mental pode ser reduzida a inclinações ou disposições comportamentais. Os behavioristas, em geral, defendem que o comportamento pode ser explicado sem referência a estados internos privados. Por conseguinte, a redução lógica-definicional, tratando-se especificamente do behaviorismo lógico-analítico, levanta a tese de que atribuir crenças ou desejos “não é atribuir determinados estados mentais, mas sim dizer que há uma certa tendência para a pessoa que tem a crença ou o desejo agir de determinada forma, em determinadas circunstâncias” (Filosofia da Mente / Sara Bizarro).
  4. Ora, se a redução definicional lida com a redução de termos lógicos, a redução teórica lida com a redução de teorias e sentenças. “Nesse sentido, as leis e fenômenos descritos segundo uma teoria científica (como a termodinâmica) seriam explicáveis em termos de outra teoria (a mecânica estatística). Neste tipo de redução se vê a identidade entre entidades de uma teoria e outra (no exemplo visto, entre temperatura e energia cinética média)” (Fisicalismo redutivo e sondas epistemológicas / Osvaldo Pessoa Jr). Assim, o problema do reducionismo teórico, visto a partir da redução lógica-definicional, seria que este não esgota a análise sobre o problema da mente uma vez que qualquer programa reducionista tem que se basear em uma análise teórica do que deve ser reduzido – e não unicamente nomológica.
  5. Já a redução causal diz que a consciência é causada por processos cerebrais o que implica em duas condições (cf. Searle, 2002b, p. 60): que as características da consciência são explicáveis em termos de processos cerebrais e que suas capacidades causais são as mesmas que as destes processos (É incoerente a concepção de Searle sobre a consciência? / Tárik de Athayde Prata – Manuscrito vol. 34 no. 2 Campinas July/Dec.2011).

Por todos esses aspectos, de um modo ou dos outros, resta aos reducionistas refletir sobre o que diz Nagel:

Sem a consciência, o problema mente e corpo seria bem menos interessante. Com a consciência, ele parece insolúvel. O aspecto mais importante e característico dos fenômenos mentais conscientes é muito mal compreendido. A maioria das teorias reducionistas nem tenta explicá-lo. Um exame cuidadoso mostrará que nenhum dos conceitos atualmente disponíveis de redução se aplica a tal aspecto. Talvez uma nova forma teórica seja concebida com esse propósito, mas tal solução, se existe, está em um futuro intelectual distante.

(Nagel, p. 246, 2005)

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Categoria: Filosofia Contemporânea, Filosofia da Mente, Psicologia e Neurociência

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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