Hilemorfismo: a constituição do ser vivo em Aristóteles

AristótelesÉ inverossímil entender a Física e a Metafísica aristotélica de modo fracionário uma vez que uma e outra estão intimamente conectadas. Para Aristóteles, Metafísica é a ciência teorética que indaga pelas causas e princípios primeiros, sendo, em contrapartida, a Física aquela que, também dentre as ciências livres, tem como primeiro agente de averiguação as substâncias móveis, entendendo-as não só como objetos (e.g. a carne, o osso, o homem), mas estando efetivamente conexas à a matéria e ao movimento. Por conseguinte, tanto na Física como na Metafísica a noção de causa assume papel central de modo que a interdependência entre o eidos e o ente é resgatada, por consequência, “Metafísica” significa “obra que se deve ler depois da Física” (B. Dumoulin, p. 54). Vale ressaltar que a Europa recebeu a filosofia aristotélica pela teologia cristã e acabou por embaralhar o “Aristóteles por Aristóteles” e o chamado “Aristóteles cristão”, razão esta que fez Heidegger escavar a textualidade medieval e europeia até enfim conseguir arrancar Aristóteles ao aristotelismo (F. Belo, 2005) e com isso restituir a Física como prévia e essencial à compreensão da Metafísica, essa última, sem demora, não mais entendida como aquela “além da física” mas sim “ao lado da física”.

O exame comparativo dessas duas disciplinas (Física e Metafísica) ficou conhecido pela expressão “hilemorfismo” (de hyle (matéria) + morphe (forma)). Seu estudo consiste num tipo de inteligibilidade pelo qual os entes e o paradigma das substâncias (ousiai) naturais são examinados. Aristóteles percebeu que os seres vivos não só se apresentam como exemplos de entidades mas conjuntamente exibem uma consistente unidade interna. E por isso a matéria por si só é incapaz de explicar a ocorrência de suas atividades e seus processos orgânicos. Assim, tanto as disposições materiais quanto as demais propriedades dos entes só são alcançadas pela noção de forma. Mas, do mesmo modo, somente a forma e a matéria não abarcam a complexidade dos seres, é preciso também da noção do telos (finalidade), onde a forma é responsável pelo movimento e acabamento de cada ser natural segundo o conjunto de suas atividades e propriedades materiais necessárias. A matéria, por outro lado, serve como suporte constituinte para esse processo. Tanto ela quanto a forma tendem ao fim que é próprio a cada ente, por exemplo, em relação à semente, o telos seria a árvore, ao feto, o homem adulto etc.

Foi assim que Aristóteles, a fim de definir as condições de inteligibilidade da constituição e da transformação dos objetos físicos, prosseguiu na investigação do movimento definindo, na Metafísica, as quatro causas das coisas, a saber: I) o substrato do qual as coisas são feitas (a causa material originalmente destituída de determinações); II) a causa formal que determina a coisa e o que ela é; III) a causa eficiente e IV) a causa final – a título de exemplo imaginemos uma cadeira, sua causa eficiente é o trabalho do artesão que a produziu e sua causa final o fim para o qual foi produzida, ou seja, para alguém se sentar. Em contrapartida, em alusão ao Ser, Aristóteles denominou I) o Ser como categorias (os modos do Ser, isto é, a substância, qualidade, quantidade, relação, ação, paixão, lugar, tempo, estado e hábito), II) o Ser como ato e potência, III) o Ser como acidente (manifestação do que era fortuito e casual, não diz respeito à essência e nem é objeto da ciência) e IV) o Ser como verdadeiro (adequação entre o discurso sobre o Ser e a realidade do Ser, sendo, portanto, do âmbito da lógica). Prosseguindo sua investigação, o filósofo percebeu que o ser não é apenas o que já existe em ato, é também o que pode ser, a virtualidade, a potência.

Em razão disso uma substância pode apontar num dado momento certas características, e, noutra ocasião, características outras – é exatamente essa passagem (atualização) da potência ao ato que constitui, segundo a teoria aristotélica, o movimento, o devir, a mudança. Esse movimento, é importante sublinhar, não só é espacial. Aristóteles o entende em quatro sentidos: I) o movimento segundo a quantidade, ou seja, o amento e a diminuição); II) o movimento segundo a qualidade, ou seja, a alteração; III) o movimento segundo o lugar, ou seja, a translação, seja da direita para a esquerda, de frente para trás, ou de cima para baixo e IV) o movimento segundo a substância, ou seja, a geração e a corrupção, a mudança de forma, o nascimento e a morte. Substância, por sua vez, é a coisa que compõe o universo seja no sentido concreto (substância primeira), seja no sentido lógico (substância segunda – gênero e espécie). Ora, como para Aristóteles as substâncias primeiras são sínolos (sínteses indissolúveis de matéria e forma), a substância é sempre uma coisa concreta e jamais pode existir de forma exterior à realidade. E a matéria, uma vez que é também princípio constitutivo, é  essencial para a substância – ainda que seja uma potencialidade indeterminada – e a forma, igualmente essencial, só existe enquanto determinação da matéria.

Por isso tudo, Aristóteles, buscando identificar a natureza das coisas, orienta-se para um conceito inteiramente novo, o descrito hilemorfismo, que vai determinar o futuro da ciência física. Nele a matéria aparece como constituinte das coisas, mas não pode ser compreendida sem o contexto metafísico em que está inserida. De fato, na teoria aristotélica, as coisas têm o estatuto formal de substância, mas é impossível compreendê-las sem a sua materialidade.

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Categoria: Filosofia Antiga, Filosofia da Natureza, Metafísica e Ontologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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