Sentidos e aspectos literários das Enéadas de Plotino

On the Life of Plotinus & The Six Enneads.

On the Life of Plotinus & The Six Enneads.

Estudar um filósofo com excelência exige uma hermenêutica de sentidos e aspectos literários de seus escritos (e/ou de seus discípulos), não à toa, portanto, muitos bons filósofos foram filólogos (philologia, do grego φίλοςphilos-amor e λόγος-logos-palavra/razão). Maria Molder, professora da FCSH-UNL, é um exemplo de quem defende que a filosofia e a filologia se aproximam, ou por outra, entram numa relação de funcionalidade onde a filosofia é praticada como disciplina crítico-filológica. Ora, tendo isso em vista, podemos perceber a importância em atentar-se, quando se estuda um filósofo, à sua escrita e ao que a circunda. Em Plotino, especialmente, por se tratar de um filósofo conhecido como “um caso à parte na literatura grega”, isso se faz ainda mais elementar.

Em suas Enéadas, dialética, exegese, alegoria e argumentação técnica aparecem unidas umas às outras, inseparáveis de forma tão elíptica que até mesmo Longino, um intelectual da língua grega e contemporâneo ao filósofo, tem “certeza de que faltam palavras no livro que lê” já quando este está completo. Se isso acontecia até mesmo tais homens, originais de seu tempo, imagine com nós, leitores de séculos e séculos posteriores a eles?! Ora, se isso ocorre, o que certamente nos fomenta dificuldades laboriosas, há uma razão, e ela precisa ser investigada.

O juízo de que Plotino escreve um mau grego (…) só é correto se considerarem-se as regras dos gramáticos acadêmicos como a única autoridade. Plotino escreve um grego singular, mas nunca deliberadamente obscuro. As sérias dificuldades para a compreensão não estão em uma maneira pouco clara de expressão, mas na abstração do pensamento. Em vez de muitas liberdades, a linguagem de Plotino segue as leis da gramática grega e absolutamente não é elocução tartamudeada de um místico. É antes um esforço renovado e inteligente de expressar o inexprimível, em que todos os recursos da língua grega são empregados. Estes, entretanto, nunca se tornam um fim em si mesmos, mas são acionados apenas para clarificar o processo do pensamento filosófico. Plotino está convicto de que a majestade do mundo que transcende nossos sentidos, e principalmente a bondade do Uno, jamais pode ser exprimida em palavras: mas, se alguém alguma vez pôde encontrar palavras adequadas àquele mundo, Plotino obteve sucesso em fazê-lo.

(H.-R Schwyzer, “Platinas”, in Paulys Realencyclopãdie, XXI, cal. 530,41-66 (apud Armsh’ong, 1967, pp. 219-220))

Pois bem, talvez o prelúdio para compreender as dificuldades na leitura de cada uma das Enéadas seja o fato de ser difícil a própria escrita das mesmas. Pelas convicções filosóficas de Plotino, uma vez que o uno e o intelecto são realidades superiores e anteriores à discursividade racional, a verdade é inefável e por isso exige a quem fala sobre ela o emprego de imagens a serem intuídas – pois nenhum termo filosófico é completamente satisfatório por si só (Armstrong, 1967, p. 221). Plotino, acreditando assim que a linguagem é precária para tratar do “ser” e do “intelecto”, está convicto de que nenhuma linguagem, “seja ela ‘filosófica’ e abstrata, seja ‘poética’ e concreta, é minimamente adequada” (Baracat, 2006, p. 44).

Sempre imaginei o que Plotino diria, se porventura nos encontrássemos. Estou certo de que ele se comportaria como um perfeito cavalheiro, mas creio que jamais entenderia quão desnecessariamente difícil ele se fez, e provavelmente se sentiria desconfortável com algumas de nossas traduções.

(MacKenna, 1936, carta 38)

Sua linguagem aparece como “uma imagem do pensamento, uma exteriorização e materialização deste no ar, sob a forma de sons” (O’Meara, 1990, p. 154), uma vez que, conforme suas próprias palavras, “o discurso vocal é uma imitação do que está na alma, e assim também é o que está na alma, uma imitação do que está em outro. Como o discurso pronunciado está dividido, se comparado com o da alma, assim também o que está na alma, se comparado com o anterior a ele, do qual é intérprete” (I, 2, 3). Ora, “o lógos proferido é uma imitação (mímema) do lógos que está na alma, que, por sua vez, é uma imitação do lógos anterior, ou seja, das formas inteligíveis do Intelecto. Assim, enquanto as formas inteligíveis seriam o lógos do Intelecto, o pensamento discursivo seria o lógos da alma e a linguagem seria o lógos que se manifesta, como som, no sensível” (Bernardo Brandão, Kriterion vol.55 no.130 Belo Horizonte Dec. 2014).

Por isso, o discurso filosófico é considerado por Plotino, tal como para Górgias no “Elogio de Helena”, como uma espécie de encantamento. A esse respeito, existem algumas interessantes considerações em V, 3, 17. Depois de argumentar pela necessidade de um princípio absolutamente simples, anterior ao Intelecto, e notando que, após toda a discussão filosófica, a alma ainda está como que em dores de parto (odínon), Plotino fala da necessidade de um encantamento (epodé) para elas. E afirma que, talvez, esse encantamento possa surgir das coisas que já foram ditas, se cantadas muitas vezes (V, 3, 17, 17-20). O verbo que Plotino emprega aqui, epaeído, é particularmente indicativo, pois significa literalmente cantar um encantamento. Se as coisas já ditas são o próprio texto de V, 3 e se ele deve ser cantado várias vezes para auxiliar a alma em trabalho de parto, podemos concluir que, para Plotino, o discurso filosófico pode se tornar uma espécie de encantamento que, ao ser meditado com frequência, revela seu poder. Mas em quem esse encantamento pode funcionar? Naquele que se elevou no caminho da virtude, que se purificou e consegue aquietar as potências inferiores de sua alma. Para esses, aos quais basta apenas olhar, como Plotino afirma em I, 6, 9, o discurso é um guia adequado. Para aquele que não se purificou, “fora da virtude verdadeira, falar deus é dizer um nome” (II, 9, 15, 29-40 – ἄνευ δὲ ἀρετῆς ἀληθινῆς θεὸς λεγόμενος ὄνομά ἐστιν).

(Idem)

Isto posto, de forma mais técnica, podemos falar que Plotino escrevia pela “diatribe”, uma espécie de sermão cujos enunciados revelavam uma certa indiferença pelas coisas do mundo sensível, gênero literário bastante comum nos primeiros séculos da era cristã. Na Grécia antiga, porém, e em sentido mais amplo, a diatribe costumava ser uma dissertação crítica pela qual os filósofos faziam um apelo constante ao leitor e ouvinte. Assim como um sermão, os escritos de Plotino, portanto, em sua maioria, são variações sobre um mesmo tema e não apresentam resposta definitiva para nenhuma das muitas questões levantadas. As interrogações são abundantes de maneira tal que, por se tratarem de objeções mentais possivelmente propostas por seus alunos, muitos tradutores transpassam as Enéadas em forma de diálogos, uma predileção arriscada, pois pode passar ao leitor que não possui o texto original (em grego) a ideia de que Plotino compôs seus escritos como se houvesse um dramatis personae, o que é contrário à sua intenção inicial.

Outros aspectos específicos de seus tratados são as divisões das Enéadas, geralmente delimitadas em dois grupos, a saber: os “escolares”, que pressupõem leitores a par de suas discussões orais, tais como IV. 7 [2], Ill. 1 [3], IV. 2 [4], V.9 [5], IV. 9 [8], li. 2 [14], 11. 6 [17], V. 7 [18], 11. 5 [25], I. 5 [36], li. 7 [37], IV. 6 [41], e os para fora da Escola de Plotino, como I. 6 [1], IV. 8 [6], V. 1 [10], III. 8 [30], VI. 1 [42], III. 7 [45], III. 2 [47J e I. 8 [51]. Eles não se constituem com base num plano expositivo porque se indica que Plotino não tinha pretensão de construir um sistema filosófico, pelo contrário, considerando que Platão já havia encontrado a verdade, restaria aos neoplatônicos uma exegese de suas afirmações; diz Plotino que “nossas teorias não são novidade, nem são de hoje, mas foram enunciadas há muito tempo, não explicitamente, e essas nossas teorias de agora são a exegese daquelas, cuja antiguidade nos é atestada pelos escritos do próprio Platão” (V. 1 [10]8. 10-14.). Contudo, apesar de se declarar um mero intérprete do seu filósofo-mestre, o pensamento plotiniano “encontra respostas platônicas, mas não as respostas de Platão” (JÚNIOR, Baracat, 2006, p. 38).

As Enéadas, conforme testemunha Porfírio, foram escritas por Plotino como se copiasse de um livro: “após refletir sobre um assunto e compor um escrito mental, redigia de um só golpe”. Ele tinha vista fraca e por isso jamais relia o que escrevia. “Quando era preciso interromper a composição de um escrito, para atender as demandas de uma conversação cotidiana, a atividade intelectual de Plotino jamais cessava e, após o término do encontro, recomeçava a escrever a partir do mesmo ponto em que havia parado, sem reler o que já havia escrito. O grego de Plotino é estranho e nem sempre está em conformidade com os padrões gramaticais”.

Atentemo-nos, então, além da boa vontade, com a diligência e o amor à sabedoria, nada mais digno e justo ao se estudar o homem que, conforme seu próprio relato, esforçou-se “para elevar o divino que há em nós ao divino que há no universo” (V.P. 2. 23-31).

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Categoria: Artes e Letras, Filosofia Antiga, Filosofia da Linguagem, Línguas Clássicas, Literatura e Cinema, Misticismo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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