O pluralismo de Empédocles

empedoclesApresentar o pluralismo de Empédocles é uma aplicação bastante oportuna por abrir espaço a um pensador pouco lembrado na História da Filosofia. Mas é também um desafio porquanto não se sabe quão profundamente o leitor conhece acerca do empedoclismo quanto se pressupõe saber sobre a história que lhe antecede e é usualmente mais conhecida. Desse modo, tendo em vista que o pluralismo empedoclista é pouco difundido, um preâmbulo para esta investigação parece surgir primeiramente na filosofia eleática, sua precursora mais renomada. Será descomplicado para muitos lembrar dos feitos de Parmênides, filósofo natural de Eleia, quando disse, a título de exemplo, que “o ser é, e o não ser não é” ou mesmo que “o ser é imóvel”. Tomemos as heranças eleáticas, contudo, como problemáticas uma vez que se factualmente Parmênides tivesse demonstrado o monismo de forma irrefutável por qual razão Empédocles teria rompido com a tradição e iniciado o pluralismo?

É bem verdade que no empedoclismo, assim como no poema parmenídico, aquilo que se chama de “nascimento” e “morte” é um engano, mas dessa vez há uma novidade, ou melhor, um processo de “mistura” e “dissolução” que não mais se relaciona com uma única substância imutável, permanente e eterna, e sim com quatro raízes, a saber, “Zeus [fogo] resplandecente, Hera [ar] doadora da vida, Edoneu [terra] e Nestis [água], que com suas lágrimas inunda as fontes dos mortais” (Fragmento 6). Neste sentido Empédocles parece ter uma ideia originária: um quarteto de elementos incluindo pela primeira vez a terra onde neles e somente por eles os atributos do ser parmenídico subsistem. Esse é o principal motivo pelo qual Empédocles se distancia dos eleatas tendo em vista que seria impossível, em virtude do movimento e da pluralidade das coisas, que as características desse Ser fossem relativas à uma única substância. É preciso, de outro modo, que exista um pluralismo (as quatro raízes) absorto numa instransformalidade e inalterabilidade qualitativa. Antes dele só era possível se pensar numa ou noutra dessas raízes como arché, razão pela qual, como conseqüência do poema de Parmênides e de Tales, por exemplo, duas inquietações foram lançadas: “como se explicam as mudanças que vemos nas coisas?” e “como se dá a passagem do universal para o particular?”. Empédocles, em meio à mudança da problemática grega, antes questionando o repouso e naquele momento o movimento, busca solucioná-la alegando que os elementos são qualitativamente imutáveis e somente por eles as raízes se unem e se separam ora pelo Amor ora pela Discórdia. Foi, portanto, em virtude da experiência eleática que o pluralismo de Empédocles teve alicerce para surgir enquanto uma tentativa de superar o imobilismo.

É por isso que se pode elogiar o empedoclismo não apenas como um modo para compreender os pluralistas que lhe sucedem, tal como Leucipo e Demócrito, mas também devido à filosofia que lhe é própria, ou seja, ao raciocínio em prol do movimento e das sensações. Não deixemos, portanto, os elogios aos versos de Empédocles se expiarem com Lucrécio, a quem lhe trouxe, após salientar Epicuro, honras muitíssimo calorosas. Qual a razão de pôr em segundo plano a filosofia dum homem considerado um deus pelos gregos?[1] Não que devamos ceder nossos raciocínios às figurações míticas que dizem ser a humanidade de Empédocles também uma divindade. Outrossim, devemos considerá-la, após purificadas as fábulas diante de suas radicalizações figurativas, como um incentivo de reflexões vastas. Além do próprio Lucrécio, seu supracitado grande admirador, deixemos-nos, nós mesmos, a reconhecer o seu sui generis pensamento.

Assim, pela vontade de conhecer a Grécia Antiga aquém das supostas hierarquias histórico-filosóficas, lembremos-nos: elogios também se fazem de forma racional. Neste caso, elogiar, diante de um filósofo tão pouco estudado nas universidades de nosso tempo, é apresentá-lo enquanto um pensador digno de lembrança. Nesta apresentação, entretanto,seja em virtude do curto tempo seja em razão do estrito cunho filosófico, faz-se necessário deixar de lado especulações sobre sua vida usual. Por ora não é oportuno destrinchar sua biografia emblemática, a exemplo do suicídio do filósofo que atirou-se na cratera do vulcão Etna a fim de provar ser ele mesmo um deus ou analogamente a sua ligação com a medicina, tão propícia ao pensar do corpo e das sensações não mais por ordem inculta, e sim enquanto uma abertura ao conhecimento. Se faz, pois, necessário deixar as fabulações acerca de sua vida como homem para elogiar seu pensamento como filósofo.

Em virtude disso avancemos não mais por Lucrécio, tomemos a doxografia de Simplício (DK 31 a 7), quem nos conta, acerca de Empédocles de Agrigento, ter ele nascido “não muito depois de Anaxágoras, e foi um émulo e discípulo de Parménides, e sobretudo dos Pitagóricos“. Agora, reconhecendo o comum acordo de que Anaxágoras nasceu por volta de 500 a.C., possivelmente pensemos ter vivido Empédocles entre 495-435 a.C.. Se preliminarmente falei ter sido seu interesse pela ciência médica (Tratado da Medicina), engrandecemos a fronteira de sua filosofia para além da homeopatia. Empédocles era orador tal a ponto de Aristóteles (DK 29 a 10) o considerar inventor da retórica. Sapientemente o então pluralista compunha em 5mil versos, dos quais uma pequena fração nos restou, as obras Da Natureza e Purificações, muito embora seja provável não ter sido ele mesmo quem lhes deu esses títulos. Ainda que desencontrados por totalidade, seus remanescentes fragmentos são os mais extensos dentre os dos demais Pré-Socráticos conforme aponta Kirk, Raven e Schofield.

Lendo-os, e lembrando o que foi dito no início desta apresentação, isto é, que Empédocles foi um discípulo de Parmênides e sua consequente relação com o pensamento jônico e eleata, fica perceptível as alusões e reproduções dos versos parmenídicos em sua poesia que reconhece indiretamente ser o legado de seu mestre um desafio epistemológico radical à cosmologia, conforme mostrei introdutoriamente. Também ressaltei como a posição empedoclista de discípulo não o prendeu ao pensamento parmenídico. Assim sendo, seus escritos vão além de Parmênides contendo temáticas evidentemente não-parmenidianas, a exemplo disso está o estilo de Hesíodo nas Purificações ou mesmo a utilização da técnica homérica em repetir versos e hemistíquios ou se utilizar do símile e da metáfora demasiada.

Num enredo clássico, mantendo a tradição de legitimar a poética pela divindade, Empédocles inicia seu poema invocando a Musa aos ecos dos versos de Parmênides. Assim, antes de entrar na mais fundamental temática pré-socrática da arché, Empédocles, apesar de lamentar a compreensão limitada das coisas que a maioria dos homens alcança pelos sentidos, promete uma utilização sapiente de toda a  evidência sensorial que lhe for possível enquanto mortal fazendo ser dito que (Fragmento 2): “Reduzidos são os poderes que se encontram espalhados pelo corpo, e muitas são as mazelas que nele se declaram e que embotam o pensamento. Os homens contemplam na sua vida apenas uma pequena parcela dela, depois, rápidos em morrer, são arrebatados e voam para longe como fumo, persuadidos unicamente daquilo que a cada um por acaso aconteceu, enquanto são levados em todas as direções: quem, pois, se gaba de ter encontrado o todo? Assim, nem estas coisas são para ser vistas ou ouvidas pelos homens, nem apreendidas pelo pensamento. Tu, pois, já que para aqui te voltaste, aprenderás: não mais além pode ir o entendimento humano”. E mais (Fragmento 3): “Observa com todas as tuas faculdades como cada coisa é clara, sem confiar mais na vista que no ouvido, nem no ouvido ruidoso acima dos esclarecimentos da língua, nem recuses crédito a nenhum dos outros membros, por qualquer caminho há uma passagem para a compreensão, mas apreende cada coisa por onde ela é clara”. Vemos aqui limiares para um método epistemológico, a saber, conhecer cada coisa pelo caminho que lhe é mais próprio.

Mas se os homens mortais têm por vezes falsas opiniões é porque, segundo o empedoclismo, a razão que lhes cabe foi guiada por um desequilíbrio, ou melhor,  por uma disposição perplexa entre os elementos mal distribuídos. Por conseguinte, o sábio é aquele que tem as quatro raízes perfeitamente equilibradas – e se seu corpo funcionar corretamente ele não determinará negativamente o entendimento. Assim, para Empédocles, as emoções, os objetos do pensamento ou mesmo os dinamismos, a saber, os modos de sentir, de querer ou de pensar, dependem do estado do corpo (Zaborowski, 2008, p.76) de modo que no fragmento B105 lemos: “[o coração] nutrido nos mares de sangue que flui e reflui, é a sede principal do que nomeamos o pensamento. Pois, o sangue circulando nos homens na região do coração, é isso o pensamento”. “Para Empédocles, explica Aristóteles, mudar nosso estado físico, é mudar nosso pensamento” (1009b17-18). Segundo Conche, o termo “pensamento” desse fragmento não deve ser entendido como inteligência, mas em um sentido mais amplo: “não se trata somente, portanto, da representação do mundo que nos oferece a percepção sensorial, mas de tudo o que vem ao espírito em consequência do estado do corpo, quer se trate de humores e do temperamento, de estados de necessidade ou de hábitos. Como variam a “disposição dos órgãos do corpo”, assim variam o curso dos pensamentos, a disposição do espírito”(1996, p.247). O conhecimento, portanto, se dá “quando o amor ultrapassa os limites da Discórdia” e “transpassa até o fundo das coisas capturando a natureza verdadeira” (Bollack, 1965; p.268).

O homem diferencia-se, primeiramente, pela distinção do seu pensamento. Mas antes que se creia que Empédocles recorre ao argumento predominante na história da filosofia de que o homem é o único ente que pensa e conhece, deve-se advertir que o filósofo de Agrigento identifica o pensar e o conhecer em todos os entes. Tanto o modo como a amplitude do pensamento de cada ente são determinados pelas proporções específicas que constituem a sua composição particular: o quanto de fogo, terra, ar e água que se combina para formar um ente define também as possibilidades e características do seu pensamento. E o homem, novamente, não será exceção. Os entes diferenciam-se quanto ao pensar exatamente do mesmo modo pelo que se diferenciam em sua constituição phýsica, o que permite a Empédocles estabelecer uma hierarquia entre eles, para a qual o modo e propriedade de cada pensar, assim como as suas possibilidades de conhecimento e sabedoria, vêm a ser o critério. Isto significa, de imediato, que o ἦθος (êthos) do homem deixa-se delimitar em torno à questão do saber.

(Mito e Filosofia em Empédocles: A redenção pelo saber. Alexandre Costa. Anais de Filosofia Clássica, vol. VI nº 11. 2012, ISSN 1982-5323)

Falando agora do ciclo da mudança, Empédocles diz (Fragmento 17, 1-13) que “Dupla é a formação das coisas mortais e dupla a sua destruição; pois uma é gerada e destruída pela junção de todas as coisas, a outra é criada e desaparece, quando uma vez mais as coisas se separam. E estas coisas nunca param de mudar continuamente, ora convergindo num todo graças ao Amor, ora separando-se de novo por ação do ódio da Discórdia. Assim, tal como elas aprenderam a tornar-se numa só a partir de muitas, e de novo, quando uma se separam, geram muitas, assim elas nascem e a sua vida não é estável; mas, na medida em que jamais cessam o seu contínuo intercâmbio, assim existem sempre imutáveis no ciclo”.

Dessa maneira, há no ser uma mudança local mas também uma estabilidade global (Barnes, The Presocratic Philosophers, II, 13). Se por um lado uma unidade se forma sempre de uma pluralidade, uma pluralidade se forma a partir de uma unidade. O que brota pode não ser estável, contudo, em virtude da incessante alternância entre unidade e pluralidade, as coisas permanecem imutáveis. Este processo dual se repete incessantemente a partir da ação alternada entre o Amor e a Discórdia. Contudo, Empédocles não se dedica especificamente a esta doutrina especificamente, o que leva alguns comentadores a preferir interpretá-la como uma apresentação da “hipótese cujo objetivo é reconciliar noções aparentemente contraditórias de que nascimento, morte e mudança em geral existem, e que, no entanto, como sustentou Parmênides, o ser é imutável e permanente ou eterno” (Kirk, Raven e Schofield, Os Filósofos Pré-Socráticos, Cap. X).

Assim, segundo Empédocles, igualmente o fogo, a água, a terra e o ar, “todos estes são iguais e da mesma idade, mas cada um tem uma diferente prerrogativa e cada um o seu próprio caráter, e cada um prevalece á vez, quando chega o seu momento próprio. E sem eles nada mais nasce nem cessa de existir” (Fragmento 17, verso 14) e “só eles é que existem, mas correndo uns através dos outros, se convertem em coisas diferentes em diferentes ocasiões e, contudo, são continuamente e sempre os mesmos” (Idem).

Sendo eternamente o que se é, Empédocles, conforme foi introduzido no início do texto, ataca a linguagem que se expressa por “nascimento” e “morte” porquanto tais expressões são “apenas uma mistura e troca das substâncias misturadas” (Fragmento 8). Loucos, conta-nos (Fragmento 11 e 12), os que têm pensamentos de curto alcance e esperam que nasça o que antes não existia ou que algo possa morrer e ser totalmente destruído, pois “impossível é que algo nasça do que não existe, e é inexequível e inaudito que o que existe possa ser completamente destruído, pois onde quer que alguém o coloque, aí, por certo, sempre se há-de encontrar”. A verdadeira existência, portanto, se prolonga para antes do nascimento e para além da morte; quando o Amor une completamente as quatro raízes em toda a sua extensão, daí se origina a Esfera que é “igual em si mesma” (Fragmento 29). A ela Empédocles canta hinos como a deus provavelmente influenciado pela crítica contra os deuses antropomorfísticos feita por Xenófanes e moldada aos versos de Parmênides, porém com uma diferença em relação à esfera desse último pensador. Segundo Empédocles, o conceito de perfeição parmenídico está correto, mas erroneamente representado como condição geral da existência. Isto porque aqui o domínio do Amor se enfraquece, e no pólo oposto do ciclo surge a Discórdia, que retira  Amor do centro do vórtice cósmico. É este vórtice que separa as quatro raízes, que antes originava as quatro massas do mundo. Assim a estrutura básica do universo  oscila em sua fase atual as crises do Amor e da Discórdia. Por isso, não devemos considerar um movimento casual e caótico uma vez que os fenômenos são cósmicos, isto é, perfeitamente organizados.


[1] Peculiarmente, Empédocles se considerava um deus, pois para ele o homem “feliz e bem-aventurado” será “um deus em vez de um mortal” (Inscriptiones Graecae XIV, 641, DK 1 b 18). Em virtude disso, a partir de dados meramente historiográficos, se poderia pensar que Empédocles se suicidou em ambição metafísica de união com a totalidade. Quem bem analisa seu feito é Friedrich Holderlin, poeta lírico e romancista alemão, na obra A Morte de Empédocles caracterizando-a como uma “catarse do especulativo” falha.

Categoria: Epistemologia, Filosofia, Filosofia Antiga, Filosofia da Natureza, Filosofia Pré-Socrática

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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