Maturidade de julgamento moral e características de personalidade

Através da tese de Joana Sueli de Lazari, tive conhecimento de que já nos anos 70 se pensava sobre as Relações entre maturidade de julgamento moral e características de personalidade. A pesquisadora investigou “a existência da relação entre determinadas características de personalidade e grau de maturidade para fazer julgamento moral” (Arq. bras. Psic., Rio de Janeiro, 31 4: 61-66, out./dez 1979), muito embora tenha concluído, de acordo com o quadro de referência do seu estudo, “que a habilidade para fazer julgamentos morais de elevados níveis não parece depender de específicas características de personalidade”.

Dentre os fundamentadores teóricos de Lazari encontra-se Hogan (1970), conhecido por suas inovações nos testes de personalidade. Segundo ele, há dois pontos de vista que orientam o posicionamento pessoal em relação às atitudes morais e sociais: a “Ética da consciência pessoal (com grande ênfase sobre a noção pessoal e intuitiva de certo e errado)” e a “Ética da responsabilidade social (vista como um instrumento racional para a realização do bem comum)”. Partindo de seus pressupostos, “os julgamentos morais de uma pessoa são intimamente relacionados com a própria estrutura de personalidade”.

Raymond Bernard Cattell, 1905-1998.

Raymond Bernard Cattell, 1905-1998.

Contudo, existem outras figuras destacadas na ênfase da estrutura da personalidade dos indíviduos, entre elas Henry Murray, Hans Eysenck, Gordon Alport e Raymon Cattell, que se preocuparam prioritariamente com a busca de um conjunto sistemático de definições possíveis para caracterizar a personalidade. Dentre os autores de tendência estruturalista, o mais dependente do método empírico e do emprego da análise fatorial foi Raymond Cattell, quem limitou-se a definir a personalidade como sendo tudo “aquilo que permite uma predição do que uma pessoa fará em uma dada situação […] e está relacionada a todos os comportamentos do indivíduo, tanto os manifestos, quanto os que acontecem sob a pele”  (Campbell, Hall & Lindzey, 2000, p. 258, apud Costa. Escala de Personalidade de Comrey – manual.). Segundo o pesquisador, a origem dos comportamentos é o resultado da interação simultânea de três traços dinâmicos: Atitudes, Sentimentos e Ergs (um impulsor inato e modificável do comportamento).

Voltando-nos novamente à pesquisa de Lazari, partimos da seguinte hipótese: “Haveria alguma relação entre maturidade para fazer julgamentos morais e certas características de personalidade?”. Para responder essa pergunta, a pesquisadora partiu da investigação das características de personalidade conforme medidas pela Escala de Personalidade de Comrey (Comrey Personality Scale), um inventário de personalidade baseado no método da autodescrição para identificação dos principais fatores de constituição do indivíduo. Ele foi introduzido pela primeira vez no Brasil em 1973 a fim de esboçar uma padronização nacional de características da personalidade a partir da avaliação de oito das suas dimensões: Confiança vs. Atitude Defensiva (Escala T), Ordem vs. Falta de Compulsão (Escala O), Conformidade Social vs. Rebeldia (Escala C), Atividade vs. Passividade (Escala A) Estabilidade Emocional vs. Neuroticismo (Escala S), Extroversão vs. Introversão (Escala E), Masculinidade vs. Feminilidade (Escala M) e Empatia vs. Egocentrismo (Escala P).

Escala T – Confiança x Atitude Defensiva

Os indivíduos que apresentam alto escore nesse fator de personalidade descreveram-se como sendo pessoas que acreditam mais na honestidade básica, fidedignidade e boas intenções dos outros. Acreditam que lhe desejam o bem e possuem fé na natureza humana. Os indivíduos que possuem escores baixos em T são defensivos, desconfiados, retraídos e possuem uma opinião inicialmente negativa do valor do homem em geral.

Escala O – Ordem x Falta de Compulsão

Os indivíduos com altos escores neste fator disseram que se preocupam com limpeza e ordem. São cautelosos, meticulosos e apreciam a rotina. Os Indivíduos com escores baixos inclinam-se a serem descuidados, relaxados, não sistemáticos em seu estilo de vida, imprudentes e, por vezes, pouco asseados.

Escala C – Conformidade x Inconformidade Social

Os indivíduos com altos escores nesse fator descreveram como capazes de aceitar a sociedade como ela é, respeitando e acreditando no cumprimento das leis, buscando a aprovação da sociedade e ressentindo-se com o não conformismo dos outros. Os indivíduos com escores baixos, inclinam-se a contestar as leis e as instituições sociais, ressentem-se de controles, não aceitam o conformismo em outros e são, eles próprios, não conformistas.

Escala A – Atividade x Falta de Energia

Os indivíduos com escores altos nesse fator descreveram-se como sendo pessoas que gostam de atividades e exercícios físicos, Possuem grande energia e perseverança, esforçando-se para atingirem o máximo de suas capacidades. Os opostos, com escores baixos em A, inclinam-se à inatividade física, faltando-lhes vigor e energia. Cansam-se rapidamente e quase não têm motivação para se superarem.

Escala S -• Estabilidade x Instabilidade Emocional

Os indivíduos com escores altos nesse fator disseram que são felizes, calmos, otimistas, de humor estável e confiantes em si mesmos. Já aqueles que obtiveram uma pontuação baixa nessa escala, descreveram-se como sendo agitados, pessimistas, com sentimentos de inferioridade, por vezes deprimidos e reagindo com frequentes oscilações de humor.

Escala E – Extroversão x Introversão

Os indivíduos com escores altos nesse fator descreveram-se como pessoas expansivas, sociáveis, acessíveis, com facilidade de contato com desconhecidos e com facilidade para falar em grupos. Os indivíduos com escores baixos, são reservados, reclusos, tímidos, com dificuldade para estabelecer contato com outros e receiam ser o foco da atenção em situações públicas.

Escala M – Masculinidade x Feminilidade

Os indivíduos com escores altos nesse fator disseram ser “fortes”, teimosos e durões, que não se impressionam com cenas violentas, suportam vulgaridades e que não choram facilmente, nem demonstrem interesse em histórias românticas e de amor (são as características ditas associadas ao estereótipo social de masculinidade). Aqueles com escores baixos, descreveram-se com facilidade para chorar, perturbam-se com a visão de insetos e répteis e demonstram interesses em histórias românticas (essa escala não visa a identificações de hétero ou homossexualidade, como parece indicar o seu título).

Escala P – Empatia (Altruísmo) x Egocentrismo

Os indivíduos com escores altos nesse fator descreveram-se como sendo pessoas empáticas (tendência para sentir o que sentiria outra pessoa caso estivesse na situação experimentada por ela), prestativas, generosas e altruístas, Indivíduos com escores baixos tendem a se ocuparem mais de si mesmos e de seus próprios objetivos.

Lawrence Kohlberg, 1927-1987.

Lawrence Kohlberg, 1927-1987.

Na pesquisa de Lazari “a correlação entre maturidade de julgamento moral (MMS) e fator T (confiança x atitude defensiva) foi negativa e não significativa; entre MMS e fatores C (conformidade social x rebeldia) e P (empatia x egocentrismo) foram positivas mas pouco significativas. Também negativas as correlações entre MMS e os fatores A (atividade x falta de energia), S (estabilidade emocional x neuroticismo) e M (masculinidade x feminilidade), sugerindo que podem ser feitos julgamentos morais a nível elevado, independentemente de certas características de personalidade, como: atividade, otimismo, bom humor, confiança, temperamento frio e realista. Porém as outras correlações, ainda que baixas, foram estatisticamente significativas, sugerindo, por exemplo, que escores de MMS mais altos tendem a pertencer a pessoas que procuram aprovação social, são respeitadoras da lei, interagem facilmente, procuram fazer novos amigos, são prestativas, generosas e simpáticas. Tais dados, ainda que em pequeno número, sugerem outras análises posteriores. Nota-se que as características de personalidade apresentadas pela Escala de Personalidade de Cornrey (CPS), indicativas de pessoa bem ajustada, correspondem apenas ao terceiro e quarto estágio de pensamento moral da escala de Kohlberg”.

Para Kohlberg (1992), o desenvolvimento do juízo moral ocorre por meio de estágios, que formam uma seqüência invariante, progressiva e universal, percorrendo três níveis e seis estágios. No primeiro nível moral – o pré-convencional (Estágios1 e 2) -, a criança percebe a existência das regras, do bem e do mal; no entanto, não as compreende como formas de manter as normas sociais convencionais. Para ela, o valor moral está, ainda, localizado em acontecimentos externos e baseado no poder físico de quem estipula a regra moral. O nível convencional (Estágios 3 e 4) é representado por uma quantidade significativa de adolescentes e adultos da sociedade contemporânea. O termo “convencional” significa conformidade e manutenção das normas mediante a identificação do indivíduo com a ordem social ajustada, a fim de preservar a lealdade para com a família, o grupo ou a nação. Passível de ser alcançado apenas por uma minoria de adultos, está o nível pós-convencional (Estágios 5 e 6). Nessa fase, a lei é legitimada quando cumpre seu papel de garantir a proteção dos direitos de todos; no entanto, sob o ponto de vista do indivíduo que se encontra nessa fase, ela nem sempre o faz, podendo entrar em conflito com algum aspecto moral. Dessa forma, as decisões morais corretas vão além do âmbito sociolegal, pautando-se na consciência de direitos baseados em princípios éticos universais.

(SHIMIZU, Alessandra de Morais. Os Instrumentos de Medida de Julgamento Moral Elaborados com Base na Teoria do Desenvolvimento Moral de Kohlberg. Revista Científica Eletrônica de Psicologia, Ano III, Número 04, maio de 2005 – Semestral – ISSN 1806-0625)

Mais que respostas, o fechamento da pesquisa de Lazari trouxe-nos perguntas: “Seriam os estágios de Kohlberg característicos de pessoas bem ajustadas, com alto nível cognitivo e ampla visão da sociedade, como sugerem os estágios 5 e 6? Ou seriam as características de personalidade de Comrey representativas do que se entende por ‘pessoa bem ajustada’ do ponto de vista de si própria e da sociedade? Ou, ainda, os escores obtidos não foram tão elevados que não permitissem correlações mais altas e mais significativas?”.

Pensemos!

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Categoria: Direito, Ética e Cidadania, Psicologia e Neurociência

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. O texto é perfeito, pois dá uma ideia ampla e bem construída de um tema polêmico nas neurociências até hoje, e creio que será ainda por muito tempo, que é a personalidade. As diferentes escolas de Psicologia e de Neurociência têm inúmeras ideias sobre a questão. Apesar da forma amadora, sempre li sobre, ainda assim não conhecia a presente pesquisa.

    Quanto à associação da maturidade com características de personalidade, não só vejo uma correlação muito lógica como um tema interessante e importantíssimo. Esses dois fatores da psicologia sempre desembocam em mudanças de estruturas sociais burocráticas (um exemplo disso é o sistema carcerário, afetado praticamente de forma direta por pesquisas como essa).

    E quanto às perguntas finais, acho que a pesquisa da autora traz outras muitas mesmo rssrsr (as melhores investigações sempre trazem). Mas creio que é preciso se repetir e atualizar a maioria das pesquisas e teorias sobre a moral e a personalidade.

    Na minha opinião, apesar de algumas ideias serem raramente usadas a Escala de Comrey, acredito que seja uma das mais completas em relação a personalidade, porque pode ser associada muito à consciência e, especificamente, à consciência emocional (apesar da ultima ser uma abordagem nova).

    Também de acordo com as atuais pesquisas sobre consciência, valores éticos e morais e personalidade, Kohlberg talvez não tenha tido sorte nas suas ideias, que podem mais ser associadas a valores sociais construídos institucionalmente.

    Até uma das recentes pesquisas realizada em nosso estado vai de encontro com suas ideias referentes à criança, mais especificamente mostra um comportamento moral e ético em bebês( que se esperava de acordo com que se sabia anteriormente pelas teorias “mais psicossociais” que não houvesse indícios de traços de consciência moral)..Enfim, é um assunto que nunca acaba (para a alegria dos curiosos e tristeza daqueles que querem delimitar o ser humano em uma caixinha de valores).

    Muito bom o texto, muito interessante.

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