O mito de Herácles

“Héracles não é com certeza uma criação grega que expresse os ideais do espírito dórico. As suas origens escondem-se nos alvores do tempo e o seu carácter de figura pan-helénica recua pelo menos até aos tempos micénicos”, comenta  Burkert (W., 1993, 405-406).

Héracles representado numa cratera grega do século V a.C., portando o seu arco, a sua clave e a pele do leão de Neméia. Detalhe de Nióbidas, Museu do Louvre, Paris.

Héracles representado numa cratera grega do século V a.C., portando o seu arco, a sua clave e a pele do leão de Neméia. Detalhe de Nióbidas, Museu do Louvre, Paris.

Ora, apesar de não ser propriamente o herói típico dos poemas homéricos, “pois a epopeia homérica narra, sobretudo, a luta entre os heróis intervenientes na Guerra de Tróia e as peripécias do regresso de um desses heróis, Ulisses” (Carlos Ferreira Santos, Máthesis 7 1998 9-32), Herácles, senão o maior dentre todos os heróis gregos, foi o mais popular da Grécia. Filho de Zeus, o pai dos deuses e dos homens, e da moça-mortal Alcmena, este herói prestou grandes serviços aos homens. Livrando-os de monstros antes invencíveis, conquistou tanto cidades quanto reis. De força colossal e estatura fora do comum, o semideus chegou, vestido de pele de leão, a vencer os próprios deuses armando-se apenas com clava e arco e flechas. Não foi a toa, portanto, que o povo grego continuamente celebrou os feitos Herácles, dentre eles seus 12 trabalhos (ἆθλοι), suas proezas (πράξεις) e façanhas paralelas (πάρεργα).

Ademais, se é verdade que os bons mitos têm um curioso início, o do semideus Herácles nos revela também seu fascínio. Conta-se que Alcmena, sendo a boa moça que era, dificilmente teria amado outro senão seu marido Anfitrião, por isso foi preciso que Zeus, enquanto Anfitrião viajava a fim de combater os inimigos de Tebas, assumisse a forma do esposo. Ludibriada, Alcmena se uniu ao deus e quando percebeu ter sido enganada, este já havia partido e em sua porta estava o verdadeiro Anfitrião. As lágrimas caíram de seu rosto e com semblante de espanto contou a traição involuntária ao marido. Embora contrariado, ele se uniu à esposa. Alcmena passou então a carregar no ventre dois filhos; o primeiro, filho do deus dos raios, o segundo, filho do homem seu esposo.

Contudo, se a mulher tinha se deixado enganar pela transformação de Zeus, Hera, esposa dele, sabia estar sendo traída. Vingativa, a deusa esperou o nascimento dos bebês para punir a infidelidade do marido. Quando vieram ao mundo, as virtudes de um e as imperfeições do outro se tornaram tão abruptas que surpreenderam Hera. Ora, a deusa pôs duas cobras enormes na cama dos gêmeos e teve uma sobressalto: Íficles derramou-se em lágrimas, mas o pequeno Herácles, sem manifestar nenhum temor, agarrou os dois répteis e os apertou com toda a força.

Somente aí, convencido de que Herácles era, de fato, filho de um deus, Anfitrião providenciou-lhe uma refinada educação: luta, armas, condução de carros de guerra, música e canto. O garoto ia bem em todas as matérias, exceto na música. Pela inabilidade da criança, Lino, o professor musical, tentou dar uma surra nele. Mas Herácles matou-lhe com sua própria lira. Se positivamente sua força se sobressaía, penosamente nem sempre lhe era possível controlá-la. Anfitrião, preocupado com a petulância do poderoso filho adotivo, mandou-o para os campos. Assim, entre prados e bosques, Herácles aprendeu a manejar o arco e as armas. Por passar o dia inteiro caçando, o garoto se tornara um arqueiro hábil e um lutador inigualável, sequer hesitava em enfrentar os mais poderosos e mais rápidos animais.

Hércules na Encruzilhada

Hércules na encruzilhada, Albrecht Dürer, cerca de 1496, Birmingham Museums and Art Gallery, Inglaterra. Há algumas divergências em torno desta imagem, mas é usualmente aceito ela representa o momento em que Hércules deve escolher entre as figuras femininas que personificam o Prazer, onde Dürer o representa deitado no colo da luxuria (retratado como um sátiro) e a Virtude, espancando-a.

Certo dia, quando passeava pelo monte Citéron, duas mulheres o pararam. Uma se chamava Prazer, a outra, Virtude. Cada uma lhe propôs uma trilha diferente: uma lhe ofereceu a facilidade de uma vida consagrada às distrações, outra, um caminho mais penoso, semeado de provas, mas destinado à glória maior. Provando preferir os combates ao lazer, o herói escolheu seguir a que falara por último e logo enfrentou seu primeiro desafio. Cruzou com uma tropa de homens que, se não por seus feitos, teriam despojado sua cidade natal. Sozinho, apenas com a ajuda de uma espada, Herácles venceu os soldados inimigos. Quando o rei de Tebas soube do acontecimento, recompensou-lhe dando a mão da sua filha Mégara, com quem Herácles viria a ter vários filhos, em casamento.

Hera, que o perseguia com ódio, encontrou naquele momento a vingança perfeita. Ordenou que o demônio da loucura o espetasse com seu aguilhão. Desatinado e com um arco na mão, Herácles matou os seus filhos. Intervindo na infeliz situação, Atena acertou um golpe no peito de Herácles fazendo-o mergulhar num sono profundo. Quando lúcido e desperto, o herói deixou o palácio e sua esposa. Desnorteado, consultou o oráculo de Delfos que lhe disse: “Você deverá servir ao seu primo, rei de Tirinto, durante doze anos para se purificar dessa nódoa”. Assim Herácles fez ao rei doze trabalhos. Os seis primeiros foram realizados na própria Grécia, mais exatamente no Peloponeso; os seis últimos levaram o herói ao estrangeiro e alguns deles a lugares muito distantes e puramente míticos. Embora constantemente fosse perseguido pelo ódio de Hera, contou com o constante apoio de Atena, sua meio-irmã e incansável defensora, e Iolau, filho de seu meio-irmão Íficles.

 Hércules e a hidra, 1475

Hércules e a hidra, Antonio delPollaiuolo, 1475, Galeria Uffizi, Florença.

Em seus primeiros trabalhos, Herácles (1) estrangulou até a morte um leão gigantesco, (2) junto de Iolau derrotou uma Hidra (serpente de nove cabeças), (3) capturou um javali que aterrorizava as vizinhanças do monte de Erimanto, (4) encarcerou uma corça cerinéia de chifres de ouro e pés de bronze, (5) com a ajuda de Atena espantou as aves do estínfale. Assim a região inteira passou a aclamar o herói. Cheio de inveja, Euristeu decidiu submetê-lo a trabalhos menos gloriosos: (6) lavou num só dia, usando a água de dois rios cujos cursos desviou com sua força, um estábulo, (7) dominou um touro pertencente ao rei de Creta, (8) capturou as éguas de Diomedes, (9) a mando do rei, convenceu Hipólita a lhe entregar um belo cinto, (10) entregou os bois de Gérion a Euristeus, (11) vagou o mundo atrás de pomos de ouro e por fim (12) foi até o Hades. Lá havia Cérbero, um cão de três cabeças e cauda em forma de serpente, que guardava a entrada do mundo subterrâneo, permitindo a entrada de todos, mas não deixando ninguém sair. Herácles o capturou e, após mostrar Cérbero a Euristeus, devolveu o cão guardião ao mundo dos mortos.

Hércules e Nesso, de Giambologna. Loggia dei Lanzi, Florença

Hércules e Nesso, de Giambologna. Loggia dei Lanzi, Florença

Seu fim foi caracteristicamente dramático. Teve a morte provocada por uma mulher. Enquanto Herácles estava no Hades, encontrou com a sombra de Meleagro, um jovem guerreiro que o comoveu com sua morte. Havia deixado em vida uma irmã, Dejanira, que após sua morte passou a morar sozinha. De bom coração, Herácles prometeu casar com ela, e assim o fez quando saiu do mundo dos mortos. Tomando Dejanira como sua esposa, atravessava ao seu lado um rio. Se estivesse sozinho, teria passado sem dificuldades, mas teve que procurar uma outra passagem para a companheira. Maliciosamente, surgiu um centauro, Nesso, que lhes ofereceu ajuda. Herácles transpunha o rio a nado enquanto Nesso levava Dejanira no dorso, foi quando ele tentou violentar a jovem. Héracles ouviu seus gritos e acertou no centauro uma flecha envenenada com o sangue da hidra de Lerna. Foi quando Nesso disse a Dejanira: “Perdoe-me, e em troca do seu perdão eu lhe darei um conselho. Pegue um pouco do meu sangue e o conserve preciosamente: vai servir de filtro do amor para animar o ardor do seu marido. Quando ele parecer menos amoroso, ofereça-lhe uma roupa que você terá embebido do meu sangue, e seu esposo voltará a ser o amante dos primeiros dias”.

A Morte de Hercules, Francisco de Zurbaran, 1634, Meseo del prado, Espanha.

A Morte de Hercules, Francisco de Zurbaran, 1634, Meseo del prado, Espanha.

Inocente, Dejanira sequer desconfiou que esse presente pudesse conter veneno. Anos mais tarde, espalhavam-se os boatos de que Héracles havia se apaixonado por uma princesa, Íole. Dejanira logo lhe enviou uma túnica assim como falara Nesso. O herói gostou do presente e, ao vesti-lo, o tecido se inflamou em contato com sua pele. Ardendo em chamas, seu sofrimento era comovente e contínuo. Os deuses, que assistiam a esse triste fim, decidiram recompensar a coragem excepcional do herói: receberam-no a seu lado no Olimpo e fizeram dele uma divindade.

O homem [Herácles] havia morrido, mas o deus vivia nos céus“, narra o escritor .


Procedências

A figura de Hércules foi moldada primeiramente pelo mito, por um conglomerado de contos populares em que a grande poesia só interveio de modo secundário: não existe qualquer poesia grega dedicada exclusivamente a Hércules. Só mais tarde, os poetas analisaram o fenômeno Hércules, envolvendo assim o mito numa atmosfera trágica, heroica e humana, em contraste com a sua tendência própria que transcende despreocupadamente o humano.

(Walter Burkert, Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993. 405-406)

A maioria das referências textuais antigas sobre a lenda de Héracles se perderam. Dentre as que restaram, encontramos breves alusões na Ilíada (v.g. Il. 5.392-404, 8.362-9, 19.95-133) de Homero (928 a.C. a 898 a.C.) e na Teogonia (v.g. 289-94, 526-34de Hesíodo (Século VIII a.C.).

Outras versões

Sófocles e Eurípides

Sófocles e Eurípides descreveram um momento específico da vida de Herácles nas tragédias. Enquanto Sófocles representou a preparação para a morte, nas Trachiniae, Eurípides narrou seu momento de loucura. Para Carlos Santos, “Eurípides terá procurado apresentar um Héracles modernizado pelos valores do homem do século V a.C., moldado pela virtude e pela razão, enquanto que o herói de Sófocles se move num mundo onde domina a força física, com valores semelhantes aos da sociedade homérica” (Coimbra: diss. de Mestrado em Literaturas Clássicas apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1996).

Iconografia
O nascimento da Via Láctea, 1636.

O nascimento da Via Láctea, 1636.

Também os documentos iconográficos fornecem muitas informações sobre Héracles, muitas vezes representando episódios não relatados pelas fontes literárias. A pintura de barroca de Peter Paul Rubens, por exemplo, mostra que, antes mesmo de Herácles nascer, Zeus previra uma vida repleta de glórias para o seu filho. O deus desejava conquistar a imortalidade herói, o que poderia ser garantido somente se ao menos uma vez o bebê fosse amamentado pelo leite divino de sua esposa. Contudo, conforme narrado anteriormente, Hera tinha ódio do pequeno bastardo e certamente recusaria o pedido. Tal impasse não era suficiente para impedir Zeus. Enquanto Hera dormia, o deus pediu a Hermes que levasse o bebê Héracles junto à esposa para sugar seu leite. Assim é feito, mas de tão forte que ele mama, Hera acorda com muita dor e empurra o bebê adversamente. Um jorro de leite sai de seu seio e mancha os céus, formando o caminho de estrelas que deu origem ao que hoje se chama de Via Láctea.

Cinema e literatura contemporânea
Romance da escritora britânica Agatha Christie e animação dos estúdios Disney, ambas inspiradas em Herácles.

Romance da escritora britânica Agatha Christie e animação dos estúdios Disney, ambas inspiradas em Herácles.

Na atualidade, o herói chegou a influenciar filmes e escritos. Se, em 1997, a Walt Disney Pictures lançou a animação Hercules, muito antes, em 1947, a novelista inglesa Agatha Christie já havia se inspirado em seus doze trabalhos para compor doze contos policiais (The Labours of Hercules).

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Mitologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

Trackback URL | Feed RSS dos Comentários

  1. Lívia disse:

    Um amigo meu uma vez me disse: analisem o que há por trás dos filmes infantis e o verão com outros olhos rsrs verdade! vou rever o Hércules depois dessa matéria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas