Capital intangível

"Quatro girassóis cortados",1887, Vincent Van Gogh. Apesar de seus famosos girassóis serem numerosos, ainda existem quadros perdidos feitos por Gogh retratando essas majestosas flores, vale ressaltar que milhões serão dados para quem os achar. Historiadores contam que o artista trocou dois deles com um acadêmico por um quadro que hoje não vale nem um terço de um de seus girassóis.

“Quatro girassóis cortados”,1887, Vincent Van Gogh. Apesar de seus famosos girassóis serem numerosos, ainda existem quadros perdidos feitos por Gogh retratando essas majestosas flores, vale ressaltar que milhões serão dados para quem os achar. Historiadores contam que o artista trocou dois deles com um acadêmico por um quadro que hoje não vale nem um terço de um de seus girassóis.

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Costumamos ouvir na mídia e nos livros que certo pintor de séculos ou décadas atrás está com obras expostas em um determinado museu, de um lugar x e com um preço que pareça em primeira vista absurdo para nós. Impressionava-me porque em vários casos aquele mesmo pintor havia gratuitamente cedido suas obras quando vivo para uma instituição, e após sua morte os valores subiam, e até os que pouco valiam passam a ter valor oneroso. O que eu não entendia é que a prova material das técnicas e instrumentos de um artista estavam documentadas no objeto, entalhadas nele, seu tipo de pincel, os pigmentos que utilizava e até as formas dos acabamentos das obras são marcas e pistas de uma cultura, ou seja, a evidencia material de um quadro representa uma forma de se viver em determinado tempo e lugar.

Os desenhos pré-históricos da caverna de Lascaux na França; analises mostram que usavam lanças afiadas e jogavam com força no local do desenho, uma forma de antecipação da caça e treinamento, uma amostra de criatividade utilitária.

Desenhos pré-históricos, Caverna de Lascaux, França. Análises mostram que os homens antigos usavam lanças afiadas e as jogavam com força no local do desenho como uma forma de antecipação da caça e treinamento, eis aqui uma amostra da criatividade utilitária.

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Será que tem como quantificar em valor de dinheiro um tempo? Existe alguma forma de dar uma cotação financeira para uma época? Há alguma “janelinha temporal” que nos mostra um pouco do tempo que não mais podemos viver porque ele já passou? Bem, essa janela existe, e ela é a arte, o objeto usado por “alguém qualquer”, em um lugar que só deixou sua marca ali naquele artefato. O valor dessa “janela” é a vigência da chamada cultura imaterial: que compreende-a em Arqueologia a todo valor atribuído a um artefato (objeto fabricado por técnica especifica) que não está contido em sua matéria prima e nem visualmente, é todo valor cultural implícito no objeto, é subjetivo e marca um tempo que não voltará jamais.

Sabendo disso, o icônico holandês Han Van Meegeren (1889-1947) utilizou de sua sagacidade para desafiar a Alemanha nazista. Meegeren decidiu se especializar em artes plásticas sob influência do professor Bartus Korteling (1853-1930), a quem se interessava por um pintor em particular chamado Johannes Vermeer (1632-1675), considerado um dos maiores artistas holandeses. Não demorou muito para Meegeren fazer fortuna copiando quadros através de técnicas de envelhecimento sintético, assim ele podia genialmente enganar até mesmo os melhores especialistas em arte da Alemanha. Explica-se; o copista pintava um quadro utilizando a técnica de um pintor que morrera séculos atrás e assinava como tal, depois inventava uma trama cuja obra teria sido “achada” acidentalmente (por ser especialista no pintor, era natural que achassem ser ele o seu melhor “caçador”).

Foto tirada durante processo de acusação a Meegeren. Consta que mais de 14 obras foram vendidas por um preço 20 vezes maior que as obras dele próprio; foi tão habilidoso que até hoje algumas obras de Vermeer estão sob suspeitas de não o serem de fato.

Foto tirada durante processo de acusação a Meegeren. Consta que mais de 14 obras foram vendidas por um preço 20 vezes maior que as obras dele próprio; foi tão habilidoso que até hoje algumas obras de Vermeer estão sob suspeitas de não o serem de fato.

Contudo após a Segunda Guerra Mundial Meegeren foi investigado. “Como teria conseguido as obras?”, perguntavam as autoridades. Pelo fato de ter vendido quadros aos nazistas, seu infortúnio não se tratava de uma simples investigação, mas também um crime de guerra. A genialidade do copista seria também como sua defesa, logo ele pensou numa forma de escapar das acusações e da pena de morte, a citar: teria que provar como falsificou as obras. Para defender-se, Meegeren pintou um novo quadro de Vermeer diante do júri. E assim o fez na prisão utilizando a técnica e instrumentos típicos de um pintor de séculos atrás já em seu tempo, assim, mostrando como os envelhecera, provou sua habilidade diante de fotógrafos, jornalistas e um júri.

Seja por fãs ou por pessoas que o detestam por acha-lo um grande vilão da arte, até hoje Meegeren é conhecido como “O mestre falsário”.

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(1) Esquerda – “Jesus entre doutores”, quadro pintado por Meegeren em público para provar sua falsificação. (2) Direita – “Garota com brinco de pérolas”, 1665, Johannes Vermeer, uma das obras sob suspeita de ser mais um “fake” de Meegeren.

Meergeren se tornou uma vergonha para os nazistas e holandeses de sua época pois sabia que um objeto fabricado para certo fim qualquer, num determinado tempo da história, marca uma forma de se viver, um povo e uma cultura, que em sua maioria não existe mais. Não há valor certo a se dar, pois tal artista, caçador ou fotografo já falecido, não pode refazer ou ressuscitar pra repetir ou explicar suas obras. Por isso qualquer bilhão a ser leiloado ainda será uma pechincha, e se a obra não pesar no bolso dos colecionadores e esse mesmo não passar por um processo legal e burocrático, talvez não dê o determinado “valor” àquela obra, que é imaterial por si só, ou melhor, não é apenas uma arte pela arte, mas também um documento que pode ser utilizado por estudantes e curiosos do presente e do futuro, que poderão detestar ou se fascinar com determinada civilização ou povo; são formas mais “baratas” de se viajar no tempo. Tanto os quadros de Vermeer como os de Meergeren têm sutis marcos de suas épocas e histórias, quer sociedades posteriores façam deles “vilões” ou “heróis”.

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Categoria: Artes e Letras, Música e Pintura

Bruno Barreto Cordeiro Silva

Sobre o(a) Autor(a) ()

Atualmente sou "apenas" um curioso, mas já estudei Ciências Biológicas e Arqueologia na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Me interesso pelas mais diversas áreas do conhecimento, em todas elas tento despertar o espírito filosófico que possuo. Eternamente enamorado pela vida em todos seus níveis, pretendo defendê-la enquanto puder. É por não acreditar na barganha do conhecimento que aqui pretendo compartilha-lo como posso. Creio na infinitude do Universo, mas só até encontrar seu "muro". Confio que as coisas do coração contém os reais significados da existência. Busco respostas, mesmo que essa busca me leve a encontrar ainda mais perguntas.

Comentários (1)

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  1. Pra quem se interessou pela história de Meegeren, tem um livro que é considerado uma das melhores biografias do mesmo:”Eu fui vermeer”, de Frank Wynne.

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