Little Birds: Estupro ou assassinato?

littleFilosoficamente diversos princípios acerca da justiça podem ser levados em conta, podemos ponderar entre o mundo dos atos perfeitos ou uma ética emotivista e quiçá um meio termo entre um e outro, porém os acontecimentos da vida não parecem sustentar senão uma única escolha. Quando o curto tempo não dá espaço para a razão, uma decisão pode ser tomada instintivamente. Não nos deixemos, porém, levar pela antecipação, se possível prepare-se para sustentar seus próprios princípios morais na cena final de Little Birds.

Elgin James, escritor e diretor do filme, conta a história de Lily e Alison, duas melhores amigas que sofrem o desolamento numa cidade monótona. Enquanto Alison perdeu a mãe para o câncer, Lily sobrevela o suicídio de seu pai. Contudo, assim como a maior parte das boas (os más) paixões, a flama do amante pode mudar o enfado das garotas, e isso acontece quando o desajustado Jesse MacNamara beija Lily e a convida para visitá-lo em Los Angeles.

Persuadindo Alison a acompanhá-la, as amigas vão ao encontro do garoto testando os limites da própria liberdade. E quais seriam eles? Nos primórdios da aventura as transgressões pareciam pequenas, afinal, o que seria roubar comida de lanchonetes diante dos delituosos amigos de Jesse? Os delitos maiores começam quando estes batem num homem a fim de roubar seu dinheiro e logo se intensificam. O clímax para a cena final surge aqui, no agravamento das transgressões: Lily, impelida pelos garotos, concorda em ser inscrita num site de encontros como estratégia para roubar pervertidos. Enquanto o primeiro encontro os sustenta novos skates e divertimentos, no segundo a armadilha dos rapazes torna-se malograda.

estuproJohn, o rapaz com quem se encontrara, era um criminoso e logo percebe estar numa enrascada. Desequilibrado, consegue bater em Jesse e seus amigos até que eles fogem e deixam Lily na mão. Indefesa, ela se encontra sozinha diante de John. Pervertido, ele a violenta; coloca-a de costas, põe sua calcinha a mostra, cospe nas suas nádegas. Lily está horrorizada, e é nesta situação que surpreendentemente Alison a encontra. Uma arma está no local – e ao seu alcance. O que ela faz?

Uma das posições possíveis está em matar um homem a fim de impedir-lo de estuprar sua amiga, a outra está no seguinte dizer “É melhor sofrer o mal que fazer o mal”. O que você sustentaria? Talvez sem muito tempo para ponderar qualquer assertiva, Alison toma uma atitude – qual seria ela, sem spoiler, somente vendo o filme se pode saber. Aqui resta refletir o que se segue.

Cabe na posição da garota o certo ou o errado, o justo ou um injusto? Pensemos bem…

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Categoria: Artes e Letras, Cotidiano, Existência, Literatura e Cinema

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (5)

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  1. Nilo disse:

    A intenção e não o ato definem um ação como boa ou má.

  2. Leandro Moura Leandro Moura disse:

    Sinceramente, não acredito que exista uma resposta lógica pra isso. Cada caso é um caso.

    Se um sistema permite que tal situação aconteça, o próprio sistema está mal estabelecido pra começar. Julgar o que é certo e o que é errado em um estado de mal desenvolvimento é algo infrutífero, nos privando de olharmos para o que realmente importa: a remodelagem do sistema para que tal caso não aconteça.

    Se será estupro ou assassinato? Não há como prever. Isso depende até mesmo dos hormônios e capacidades físicas dos envolvidos. Só espero que nosso sistema social seja inteligente o suficiente pra não deixar esse tipo de situação acontecer.

  3. Ismar Dias disse:

    Preciso assistir esse filme, aparenta ser bem pesado.

  4. Ismar Dias disse:

    Não acho que defender-se seja fazer mal, no sentido da pergunta estipulada no texto; “mais vale sofrer o mal do que fazer o mal?”, nem a pau!

  5. Jorge disse:

    Há justiça em afastar o injusto? A justiça continua sendo justa quando pensada com dolo, com a vontade de destruir, mesmo que em legítima defesa?

    O quanto isto poderia se justificar, vendo que, no mundo material o injusto existiria, porquê ela estaria atentando contra direito fundamental para a boa existência em sociedade, o direito a vida e integridade, mas, o justificante seria a injusta agressão por parte do estuprador… sendo assim, a justiça pode ter conteúdo materialmente injusto e ao mesmo tempo, desfazer injustiça mantendo-se justa? Se ao menos fosse ela mesma quem estivesse sendo agredida, se faria mais fácil admitir a agressão, em uma busca mais profunda.

    Se por outro lado, por princípios morais próprios, ela se abster de atirar, estaria sendo injusta, por não querer atirar, para não sentir-se sendo materialmente injusta, enquanto permite a injustiça ao outro? Cabe análise acerca dos limites da justiça, se a mesma é própria ao homem, individualmente, ou se ela paira numa malha de relações humanas que, no contato entre as potencialidades subjetivas, se “materializa”… claro que ela não pensou ou pensaria nisto tudo, nem o é exigível, qualquer um não demoraria muito pensando, ou atiraria, ou não, mas é algo a se pensar bastante. Não assisti o filme!

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