Os caminhos do budismo: Do dhammapada ao Nirvana

bud

O dhammapada

O Dhammapada é um corpo da teoria ética e estética reconhecido como a expressão mais sucinta dos ensinamentos do Buda. Segundo o escrito, o caminho da sabedoria leva o homem não apenas à felicidade em sua vida, mas também à cessação do renascimento e da ignorância; enquanto isso a ignorância traz o sofrimento no agora e no futuro, aprisiona o homem num ciclo de vida e morte.

Assim o objetivo do Dhammapada é mostrar o caminho do sábio através da técnica do “sabor” (rasa), ou seja, por meio de uma composição artística que expressa os estados do espírito chamados de “bhava“, são eles: o amor, o humor, a tristeza, a raiva, a energia, o medo, o nojo e o espanto. Aquele os escuta os saboreia como uma experiência estética que remove a própria emoção expressa pelo Dhammapada, pois seus versos atuam de modo tal que o sabor da dor não é a dor ela mesma, mas a compaixão e assim num contínuo processo entre as demais emoções. Dentre todos esses sabores, porém, há um dominante: o do Dhamma que no sentido budista significa ‘mais do que a “justiça”’.

Dhp 1

Todas as ações são comandadas pela mente:
a mente é o senhor delas, a mente é quem as fabrica.
Aja ou fale com um estado mental corrompido
que o sofrimento virá em seguida da mesma forma
como a roda da carroça segue as pegadas do boi.

Dhp 2

Todas as ações são comandadas pela mente:
a mente é o senhor delas, a mente é quem as fabrica.
Aja ou fale com um estado mental claro com serena confiança
que a felicidade virá em seguida da mesma forma
que a sombra acompanha o seu objeto por toda a parte, sem nunca abandoná-lo.

Dhp 3

Quem abriga pensamentos de hostilidade como:
Ele me maltratou, ele me golpeou,
ele me derrotou, ele me roubou, –
para aqueles que abrigam pensamentos como esses
a raiva nunca será apaziguada.

Dhp 4

Quem não abriga pensamentos de hostilidade como:
Ele me maltratou, ele me golpeou,
ele me derrotou, ele me roubou, –
para aqueles que não abrigam pensamentos como esses
a raiva será apaziguada.

Dhp 5

Pois neste mundo a raiva
nunca é apaziguada com outras ações enraivecidas,
Ela é apaziguada pela não-raiva,
essa é uma lei imutável e atemporal.

Dhp 6

Há os que não percebem
que nós teremos um fim nesse mundo,
mas aqueles que percebem isso,
têm suas desavenças apaziguadas.

Dhp 7

Quem apenas a beleza contempla,
com os sentidos descontrolados,
que não sabe o que é moderação ao comer,
lânguido, indolente:
esse será subjugado por Mara,
como o vento que derruba uma árvore fraca.

Dhp 8

Quem o repulsivo contempla,
com os sentidos bem controlados,
que sabe o que é moderação ao comer,
convicto, diligente:
esse não será subjugado por Mara,
como o vento que não abala um rochedo.

Dhp 9

Aquele que veste o manto dos bhikkhus,
mas que ainda não é livre das impurezas,
imoderado e desonesto,
ele não é digno do manto dos bhikkhus.

Dhp 10

Mas aquele que se purificou das impurezas,
firmemente estabelecido na conduta virtuosa,
moderado e honesto,
ele é digno do manto dos bhikkhus.

Dhp 11

Aqueles que dão importância àquilo que não é importante
e que não dão importância àquilo que é importante,
sustentando pensamentos errôneos,
eles nunca alcançarão aquilo que é importante.

Dhp 12

Aqueles que dão importância àquilo que é importante,
e que não dão importância àquilo que não é importante,
sustentando pensamentos corretos,
eles alcançarão aquilo que é importante.

Dhp 13

Tal como a chuva penetra
em uma casa mal coberta,
a cobiça penetra
numa mente mal cultivada.

Dhp 14

Tal como a chuva nunca penetra
em uma casa bem coberta,
a cobiça nunca penetra
numa mente bem cultivada.

Dhp 15

Aqui ele se aflige e no futuro se afligirá,
de ambos os modos o malfeitor se aflige;
Ele se aflige e sofre,
ao ver suas próprias ações prejudiciais.

Dhp 16

Aqui ele se alegra, e no futuro se alegrará,
de ambas as formas o benfeitor se alegra;
Ele se alegra e se rejubila,
ao ver suas próprias ações benéficas.

Dhp 17

Aqui ele sofre e no futuro sofrerá,
de ambas as formas o malfeitor sofre;
“Eu fiz o mal”, com o remorso ele sofre,
e sofre ainda mais quando passa para os mundos inferiores.

Dhp 18

Aqui ele fica contente e no futuro ficará contente
de ambas as formas o benfeitor fica contente;
“Eu fiz o bem”, com serenidade ele fica contente,
e fica ainda mais contente quando passa para os mundos felizes.

Dhp 19

Embora alguém recite muitos dos ensinamentos,
o homem negligente que não pratica,
é como um vaqueiro contando as vacas de outros,
ele não se beneficia da vida santa.

Dhp 20

Embora alguém recite poucos dos ensinamentos,
mas coloque em prática o Dhamma,
que tenha abandonado a delusão, cobiça e raiva,
dotado de perfeita sabedoria, com a mente liberta,
não se apegando a nada desse mundo ou do próximo,
ele, de fato, se beneficia da vida santa.

Dhp 21

A diligência é o caminho para o Imortal,
a negligência é o caminho para a morte.
Os diligentes não morrem,
os negligentes já estão mortos.

Dhp 22

O sábio então, reconhecendo
essa excelência da diligência,
fica contente de estar entre os Nobres,
e na diligência se rejubila.

Dhp 23

Os sábios, sempre absortos em jhana,
perseverando, firmes no seu esforço:
eles experimentam Nibbana,
a libertação incomparável dos grilhões.

Dhp 24

Perseverante e plenamente atento,
praticando ações benéficas, considerado,
moderado, vivendo diligente com o Dhamma,
de tal pessoa se espalha uma boa reputação.

Dhp 25

Com energia e diligência,
com domínio e autocontrole,
façam os sábios uma ilha
que as enchentes não possam inundar.

Dhp 26

Os tolos e ignorantes
se entregam à negligência,
mas os sábios preservam a diligência
como o seu maior tesouro.

Dhp 27

Não se entregue à negligência!
Não se entregue aos prazeres sensuais!
Porque uma pessoa diligente e absorta nos jhanas
alcança êxtase abundante.

Dhp 28

Quando um sábio afasta
a negligência através da diligência,
tendo ascendido à torre da sabedoria,
inabalável e sem aflição,
ele examina os tolos, observa o povo se afligindo,
tal como um montês observa aqueles na planície.

Dhp 29

Entre os negligentes, diligente,
entre os adormecidos, bem desperto.
Tal como um corcel deixa para trás um pangaré,
o sábio avança rapidamente.

Dhp 30

A diligência é sempre elogiada,
a negligência sempre censurada.
Pela diligência Sakka se tornou
o rei dos devas.

Dhp 31

O bhikkhu que se deleita na diligência,
que teme a negligência,
avança como um incêndio,
queimando pequenos e grandes grilhões.

Dhp 32

O bhikkhu que se deleita na diligência,
que teme a negligência,
jamais decairá,
ele está próximo de Nibbana.

Dhp 33

Esta mente agitada, vacilante,
difícil de vigiar e controlar,
o sábio endireitará,
tal como o flecheiro faz com as flechas.

Dhp 34

Tal como um peixe tirado da água
e jogado na terra,
esta mente se debate
enquanto está abandonando o reino de Mara.

Dhp 35

A mente é difícil de ser controlada,
é sempre veloz, ela se inclina àquilo que deseja.
É bom o treinamento da mente,
uma mente bem domada traz felicidade.

Dhp 36

A mente é muito difícil de ser examinada,
é muito sutil, ela se inclina àquilo que deseja.
O sábio deve vigiar a mente,
pois uma mente vigiada traz felicidade.

Dhp 37

Indo longe, perambulando só,
sem forma e repousando numa caverna.
Aqueles que contêm a mente
com certeza se libertarão dos grilhões de Mara.

Dhp 38

Uma pessoa com a mente instável,
que não compreende o verdadeiro Dhamma,
que tem convicção hesitante:
a sabedoria não chega à sua plenitude.

Dhp 39

Alguém que tem uma mente não inundada (pela cobiça),
uma mente que não é abalada pelo ódio,
que abandonou o mal, e o bem também,
um Desperto, para ele não há medo.

Dhp 40

Percebendo que esse corpo é como um pote de barro,
fortalecendo essa mente tal como uma cidade fortificada,
combata Mara com a arma da sabedoria,
enquanto, sem apegos, proteja aquilo que já foi conquistado.

Dhp 41

Ah! Não demorará muito e este corpo
repousará sobre a terra.
Descartado, sem consciência,
inútil como um tronco podre.

Dhp 42

Qualquer dano que um inimigo faça a um inimigo,
ou aquele que odeia ao odiado,
a mente direcionada de forma inábil deveras
poderá causar a uma pessoa o maior dano.

Dhp 43

Aquilo que nem uma mãe, tampouco um pai,
nem qualquer outro ente querido pode fazer,
a mente direcionada de forma hábil deveras
poderá causar a uma pessoa o maior benefício.

Dhp 44

Quem irá compreender este mundo,
o mundo de Yama, e o mundo dos devas?
Quem irá examinar profundamente o bem exposto Dhamma
assim como quem é habilidoso escolhe uma flor?

Dhp 45

Um nobre aprendiz vai compreender este mundo,
o mundo de Yama e o mundo dos devas,
Um nobre aprendiz irá examinar profundamente o bem exposto Dhamma
assim como quem é habilidoso escolhe uma flor.

Dhp 46

Conhecendo este corpo como espuma,
despertando para sua natureza quimérica,
destruindo as flechas floridas de Mara,
vá para além da visão do Rei da Morte.

Dhp 47

Com a mente apegada aos prazeres sensuais,
colhendo apenas as flores do prazer,
de surpresa a morte o pegará e o arrastará,
tal como uma grande enchente faz com um vilarejo adormecido.

Dhp 48

Com os desejos insaciáveis,
colhendo apenas as flores do prazer,
com uma mente que se apega aos prazeres sensuais,
será subjugado pelo Senhor da Morte.

Dhp 49

Assim como uma abelha numa flor,
sem ferir a cor ou o aroma,
coleta o néctar e vai embora,
assim, nos vilarejos, perambula o sábio.

Dhp 50

Não procure os defeitos nos outros,
nem o que eles fizeram ou deixaram de fazer,
mas em você mesmo examine
coisas feitas e coisas que deixou de fazer.

Dhp 51

Assim como uma magnífica flor,
com cores radiantes, mas sem fragrância,
infrutíferas são as belas palavras
daquele que não as coloca em prática.

Dhp 52

Assim como uma magnífica flor,
com cores radiantes e com fragrância,
frutíferas são as belas palavras
daquele que as coloca em prática.

Dhp 53

Tal como de uma massa de flores,
muitas grinaldas podem ser feitas,
alguém nascido como humano
deveria fazer muitas ações benéficas.

Dhp 54

A fragrância de nenhuma flor vai contra o vento,
mesmo a do sândalo, do jasmim ou da lavanda.
Mas a fragrância dos virtuosos vai contra o vento.
A virtude dos bons permeia todas as direções.

Dhp 55

Sândalo ou lavanda,
lótus ou jasmim,
de todas essas muitas fragrâncias,
a fragrância da virtude é suprema.

Dhp 56

Fraca é esta fragrância
de lavanda e sândalo,
mas a fragrância dos virtuosos,
remonta sublime até o mundo dos devas.

Dhp 57

Aqueles com perfeita virtude,
que permanecem diligentes,
libertos através do Conhecimento Supremo:
Mara não é capaz de encontrar os seus rastros.

Dhp 58

Na beira de uma estrada,
numa fossa onde é jogado lixo
ali floresce uma flor de lótus
perfumada e agradável …

Dhp 59

… similarmente, em meio à escória dos seres,
entre os cegos mundanos,
o discípulo do Supremo Desperto
resplandece em sabedoria.

Dhp 60

Longa é a noite para o insone,
longa é a légua para o cansado,
longo é o samsara para os tolos,
que não conhecem o verdadeiro Dhamma.

Dhp 61

Se alguém não conseguir encontrar
uma companhia melhor ou igual,
então ele deveria, com determinação, seguir sozinho.
Não há companheirismo com os tolos.

Dhp 62

“Eu tenho filhos, eu tenho riquezas”,
pensando assim, o tolo se preocupa.
Se nem ele é dele mesmo,
como seriam dele filhos e riquezas?

Dhp 63

Consciente da sua própria tolice,
o tolo por isso é sábio.
Enquanto que o tolo, de fato tolo,
é o sábio presumido.

Dhp 64

Mesmo que por toda uma vida, o tolo
conviva com um sábio,
ele nunca compreenderá o Dhamma
tal como a colher não sente o sabor da sopa.

Dhp 65

Mesmo que por um breve momento, o perspicaz
conviva com um sábio,
ele rapidamente compreenderá o Dhamma
tal como a língua sente o sabor da sopa.

Dhp 66

Tolos de pouca sabedoria
são inimigos de si próprios,
já que vivem praticando ações prejudiciais,
que trarão frutos amargos.

Dhp 67

Não é bem feita a ação
da qual há remorso,
cujos resultados são sentidos
com o choro e o rosto marcado pelas lágrimas.

Dhp 68

Mas é bem feita a ação
da qual não há remorso,
cujos resultados são sentidos
com alegria e felicidade.

Dhp 69

Quando a ação prejudicial ainda não frutificou
o tolo pensa que ela é doce como o mel,
mas quando ela frutificar,
o tolo irá sofrer.

Dhp 70

Mês após mês, com a ponta do capim
o tolo ingere o seu alimento;
Ele não vale um dezesseis avos
daqueles que compreendem o Dhamma.

Dhp 71

Igual ao leite, é a ação prejudicial,
que tão lentamente azeda.
Mas latente permanece no tolo,
como as brasas cobertas por cinzas.

Dhp 72

Deveras em seu detrimento
o tolo obtém conhecimentos;
o seu bom caráter arruinado
as suas boas qualidades destruídas.

Dhp 73

Proeminência um tolo pode desejar:
precedência entre os bhikkhus,
autoridade nos monastérios
e honras de outras famílias.

Dhp 74

Que os leigos e bhikkhus pensem
‘Isso foi feito por mim,
em todas tarefas, grandes ou pequenas,
que eles sempre dependam de mim.’
Essa é a intenção do tolo;
inchadas a sua cobiça e presunção.

Dhp 75

Uma é a busca pelo ganho mundano,
outra o caminho que leva a Nibbana.
Claramente compreendendo isto,
o bhikkhu, discípulo do Buda,
não se lambuza com as oferendas recebidas,
entregando-se, ao invés disso, ao afastamento.

Dhp 76

Considere-o como um guia
que mostra o caminho para um tesouro,
o sábio que vendo os seus defeitos lhe censura.
Permaneça com tal sábio,
pois para aquele que permanece com tal sábio,
as coisas melhoram, não pioram.

Dhp 77

Que ele aconselhe, que ele alerte,
e o proteja de praticar ações prejudiciais.
Pelos virtuosos ele é bem visto,
pelos não virtuosos, não é.

Dhp 78

Não se associe com amigos prejudiciais;
não se associe com pessoas não virtuosas.
associe-se com amigos admiráveis;
associe-se com as pessoas verdadeiras.

Dhp 79

Quem bebe o Dhamma vive feliz,
com o coração puro e claro.
Quem é sábio sempre se deleita
no Dhamma proclamado pelos Nobres.

Dhp 80

Irrigadores governam as águas;
flecheiros modelam as flechas;
carpinteiros modelam a madeira;
os sábios dominam a si mesmos.

Dhp 81

Tal como um rochedo sólido
não se abala com o vento,
diante do elogio ou da crítica
os sábios nunca se movem.

Dhp 82

Tal como um lago profundo,
um lago tão claro e tranquilo,
ouvindo o Dhamma,
serenos, se tornam os sábios.

Dhp 83

A tudo os Nobres renunciam.
Em paz, sem tagarelar em busca da sensualidade.
Sejam tocados pela alegria ou pela tristeza,
os sábios não demonstram nenhuma oscilação.

Dhp 84

Nem para si mesmo, nem para os outros,
deve-se desejar filhos, tesouros, reinos,
ou sucessos obtidos por meios incorretos.
Agindo assim tal pessoa será virtuosa, sábia e íntegra.

Dhp 85

Poucos são os seres humanos
que cruzam até a outra margem.
O resto, a massa dos seres,
apenas correm para cá e para lá nesta margem.

Dhp 86

Mas aqueles que praticam o Dhamma
de acordo com o Dhamma perfeitamente ensinado,
esses irão cruzar o Reino da Morte
tão difícil de cruzar.

Dhp 87

Abandonando os dhammas escuros
que o sábio cultive os luminosos,
que ele abandone a vida em família pela vida santa,
um afastamento tão difícil de apreciar.

Dhp 88

Que eles desejem esse raro deleite,
renunciando aos prazeres sensuais, não possuindo nada.
Que esses sábios se purifiquem
de todas as impurezas da mente.

Dhp 89

Iluminados, com os fatores da iluminação
completamente desenvolvidos,
deleite, sem apego por nada,
renúncia:
sem impurezas, radiantes,
neste mundo realizaram Nibbana.

Dhp 90

Com a jornada terminada e livre de lamentações,
completamente libertos de todas as coisas,
naqueles que destruíram todos os grilhões
o fogo das paixões não é encontrado.

Dhp 91

Eles seguem com atenção plena,
não se deleitando com nenhuma morada,
assim como cisnes abandonando seu lago,
lar após lar eles deixam para trás.

Dhp 92

Aqueles que não acumulam,
com a completa compreensão do alimento,
sua permanência é a libertação
no vazio e sem sinais.
Tal como pássaros atravessando o espaço,
cujo rastro é difícil de traçar.

Dhp 93

Para aqueles cujas impurezas foram destruídas,
com a completa compreensão do alimento,
sua permanência é a libertação
no vazio e sem sinais.
Tal como pássaros atravessando o espaço,
cujo rastro é difícil de traçar.

Dhp 94

Aqueles com os sentidos pacificados,
tal como um corcel bem domado pelo treinador,
com o orgulho abandonado, livres das impurezas,
mesmo os devas os apreciam.

Dhp 95

Como a terra, sem ressentimentos;
como um Pilar de Indra, firme;
como um lago livre de lodo, puro;
não existe o samsara para alguém que é assim.

Dhp 96

Pacíficos são seus pensamentos,
pacíficas as suas palavras e as suas ações também,
liberto pelo conhecimento Supremo,
alguém assim realizou a paz suprema.

Dhp 97

Sem crenças, conhecendo Nibbana,
com as amarras finalmente cortadas,
que destruiu todas as causas e abandonou todos os desejos,
alguém assim é verdadeiramente Nobre.

Dhp 98

Seja nas cidades ou na floresta,
nos vales, ou nas colinas.
Onde quer que permaneçam os Arahants
o local é extremamente encantador.

Dhp 99

Encantadoras são as florestas,
onde as pessoas não se deleitam.
Mas aqueles Livres das Paixões ali se deleitam,
porque eles não buscam os prazeres sensuais.

Dhp 100

Melhor do que mil palavras
insignificantes,
é uma palavra com significado,
ao ouvi-la se obtém a paz.

Dhp 101

Melhor do que mil versos
insignificantes,
é um único verso com significado,
ao ouvi-lo se obtém a paz.

Dhp 102

Melhor do que recitar centenas de versos
insignificantes,
é recitar um único verso do Dhammma,
ao ouvi-lo se obtém a paz.

Dhp 103

Embora mil vezes mil homens,
possa alguém em batalhas conquistar,
ainda assim, maior conquistador é
aquele que conquista a si mesmo.

Dhp 104

Nobre é a conquista de si mesmo,
subjugar os outros não é nobre,
aquele que domou a si mesmo,
que vive sempre com a conduta contida,

Dhp 105

…Nem deva, nem gandhabba,
nem Mara junto com Brahma,
podem arruinar o triunfo
de alguém assim.

Dhp 106

Mês a mês, por uma centena de anos,
alguém pode fazer milhares de sacrifícios,
mas se apenas por um único momento,
ele homenagear os que purificaram as suas mentes,
tal homenagem seria muito melhor
do que um século de sacrifícios.

Dhp 107

Por uma centena de anos alguém pode se prostrar
ao fogo sagrado na floresta,
mas se apenas por um único momento,
ele homenagear os que purificaram as suas mentes,
tal homenagem seria muito melhor
do que um século de sacrifícios.

Dhp 108

Quaisquer donativos ou oblações que alguém,
buscando méritos, ofereça por todo um ano,
tudo isso não equivale nem a um quarto
de homenagear os homens retos (arahants).

Dhp 109

Alguém com natureza respeitosa,
que sempre honra e serve os anciãos,
quatro qualidades aumentam:
vida longa e beleza, felicidade e força.

Dhp 110

Embora viva cem anos
tolo, descontrolado,
melhor viver apenas um dia,
virtuoso, absorto em jhana.

Dhp 111

Embora viva cem anos
tolo, descontrolado,
melhor viver apenas um dia,
sábio, absorto em jhana.

Dhp 112

Embora viva cem anos
preguiçoso, sem esforço,
melhor viver apenas um dia,
com plena energia.

Dhp 113

Embora viva cem anos
sem ver o surgir e cessar dos fenômenos,
melhor viver apenas um dia,
vendo o surgir e cessar dos fenômenos.

Dhp 114

Embora viva cem anos
sem ver o Imortal,
melhor viver apenas um dia,
vendo o Imortal.

Dhp 115

Embora viva cem anos
sem ver o Supremo Dhamma,
melhor viver apenas um dia
vendo o Supremo Dhamma.

Dhp 116

Apresse em praticar o bem
e proteja sua mente do mal.
Para aquele que hesita em fazer o bem
sua mente se deleita com o mal.

Dhp 117

Se alguém praticar algum mal
que não o faça vez após vez.
Que nisso não encontre deleite:
sofrimento é acumulá-lo.

Dhp 118

Se alguém praticar algum bem
que ele o faça vez após vez.
Que nisso encontre deleite:
felicidade é acumulá-lo.

Dhp 119

Enquanto o mal não amadurece
os malfeitores podem ser bem afortunados,
mas quando o mal amadurecer
o malfeitor verá maus resultados.

Dhp 120

Enquanto o bem não amadurece
os benfeitores podem ser desafortunados,
mas quando o bem amadurecer
o benfeitor verá bons resultados.

Dhp 121

Não subestime o mal pensando:
“Ele não irá me atingir”.
Pois tal como gota a gota
se enche um pote,
também o tolo se enche do mal
pouco a pouco acumulado.

Dhp 122

Não subestime o bem pensando:
“Ele não irá me beneficiar”.
Pois tal como gota a gota
se enche um pote,
também o sábio se enche do bem
pouco a pouco acumulado.

Dhp 123

Tal como um rico comerciante com pequena caravana
evita um caminho perigoso,
igual a um homem que ama a vida evita o veneno,
deve-se evitar todo mal.

Dhp 124

Se na mão não há ferida
até mesmo veneno pode levar.
O veneno não afeta alguém sem feridas,
tal como o mal não afeta aqueles que não o praticam.

Dhp 125

Aquele que é rude com os puros,
imaculados e livres das impurezas,
sobre esse tolo o mal se volta
tal como poeira fina atirada contra o vento.

Dhp 126

Alguns nascem no ventre,
malvados no inferno,
aqueles no bom caminho vão para o paraíso,
enquanto que aqueles sem impurezas: Nibbana.

Dhp 127

Nem no céu, nem no meio do oceano,
nem habitando uma caverna numa montanha,
não há nenhum lugar nesse mundo
onde alguém possa permanecer e escapar de suas ações prejudiciais.

Dhp 128

Nem no céu, nem no meio do oceano,
nem habitando uma caverna numa montanha,
não há nenhum lugar nesse mundo
onde alguém possa permanecer e não ser subjugado pela morte.

Dhp 129

Todos tremem diante da punição,
todos temem a morte.
Colocando-se no lugar dos outros,
não mate, nem faça com que os outros matem.

Dhp 130

Todos tremem diante da punição,
a vida é preciosa para todos.
Colocando-se no lugar dos outros,
não mate, nem faça com que os outros matem.

Dhp 131

Quem pune ferindo
aqueles que buscam a felicidade,
ele mesmo buscando a felicidade,
não encontrará felicidade após a morte.

Dhp 132

Quem não pune ferindo
aqueles que buscam a felicidade,
ele mesmo buscando a felicidade,
encontrará felicidade após a morte.

Dhp 133

Não use a linguagem grosseira com ninguém,
tratados dessa forma eles podem revidar.
Sofrimento de fato é a linguagem raivosa,
a retaliação pode lhe ferir.

Dhp 134

Se como um gongo quebrado,
você permanecer em silêncio,
despojado do bate-boca,
você já realizou Nibbana

Dhp 135

Assim como um vaqueiro punindo
conduz o seu gado para pastar,
o envelhecimento e a morte expulsam
a vida de todos os seres vivos.

Dhp 136

Quando o tolo pratica ações prejudiciais
ele desconhece seus frutos,
e devido a essas ações o tolo sofre
como se fosse queimado pelo fogo.

Dhp 137

Quem pune os inimputáveis,
ou ofende os benévolos,
bem depressa cairá
em uma destas dez situações:

Dhp 138

Experimentar dores agudas,
ou ferimentos no corpo,
ou doenças graves,
ou loucura;

Dhp 139

problemas com o governo,
ou falsa acusação,
ou perda de parentes,
ou perda da riqueza;

Dhp 140

ou sua casa queima
em um grande incêndio,
após a dissolução do corpo,
no inferno tal tolo renascerá.

Dhp 141

Nem andar nu, nem ter cabelos emaranhados, nem sujeira,
nem jejum, nem dormir no chão,
nenhuma penitência sobre os calcanhares, nem se cobrir com cinzas e sujeira,
podem purificar um mortal ainda dominado pela dúvida.

Dhp 142

Mesmo que bem vestido, permanecendo em paz,
calmo, contido e estabelecido na vida santa,
abandonando a violência contra todos os seres:
ele de fato é um brâmane, um contemplativo, um bhikkhu.

Dhp 143

Onde nesse mundo é encontrado
alguém que é contido pela vergonha de cometer transgressões,
que teme a reprovação,
tal como um cavalo puro-sangue o chicote?

Dhp 144

Como um cavalo puro-sangue tocado pelo chicote,
seja ardente, tomado pela urgência espiritual,
pela fé, virtude e esforço também,
pela concentração, pela investigação dos fenômenos,
com atenção plena, consumado no verdadeiro conhecimento e conduta:
liberte-se dessa grande massa de sofrimento

Dhp 145

Irrigadores governam as águas;
flecheiros modelam as flechas;
carpinteiros modelam a madeira;
os de boa conduta dominam a si mesmos.

Dhp 146

Por que o riso, por que a alegria,
quando tudo está em chamas?
Envelopado na escuridão
por que não buscar pela luz?

Dhp 147

Observe este corpo
apreciado por muitos, maquiado com encanto.
Neste corpo nada é estável, nada é duradouro,
de fato é um aglomerado de feridas
escorado por muitos ossos
afligido pelas enfermidades.

Dhp 148

Este corpo é frágil, se desintegra com facilidade.
Deveras um antro de enfermidades.
Matéria pútrida ressuma dos seus orifícios.
A morte lhe dará um fim.

Dhp 149

No outono espalhados,
esses ossos pálidos
como cabaceiros-amargosos esbranquiçados,
tendo visto quem sentirá paixão.

Dhp 150

Esta cidade é feita de ossos
com reboco de carne e sangue,
abrigando a presunção e difamação,
velhice e morte.

Dhp 151

Até mesmo as carruagens reais decaem,
o corpo também decai,
mas o Dhamma dos nobres não decai
declarado por aqueles bem treinados.

Dhp 152

Um touro envelhece,
assim também um homem,
com pouco aprendizado:
a sua massa aumenta,
não a sua sabedoria.

Dhp 153

Incontáveis nascimentos, neste samsara
perambulei, buscando sem encontrar
o construtor desta casa:
renascer é sofrimento.

Dhp 154

Construtor desta casa você foi visto,
você nunca mais construirá uma casa,
todas as vigas cederam,
a estrutura foi demolida,
a mente superou o condicionado,
a cessação do desejo.

Dhp 155

Quem quando jovem
não viveu a vida santa nem enriqueceu
definha como garças envelhecidas
numa lagoa sem peixes.

Dhp 156

Quem quando jovem
não viveu a vida santa nem enriqueceu
definha como um arco sem flechas,
remoendo o passado.

Dhp 157

Com apreço por si mesmo,
um sábio se protege e resguarda
durante os três estágios da vida,
desenvolvendo a virtude como proteção.

Dhp 158

Estabeleça primeiro a si mesmo
na virtude apropriada.
Um sábio depois ensina os outros
assim não sendo objeto de crítica.

Dhp 159

Ao ensinar os outros
o bom exemplo é o que mais vale.
Bem controlado, ele consegue com que os outros se controlem,
o mais difícil é disciplinar a si mesmo.

Dhp 160

Cada um é o seu próprio refúgio,
quem mais poderia ser um refúgio?
Treinando bem a si mesmo
um refúgio difícil de ser obtido é conquistado.

Dhp 161

O mal é feito pela própria pessoa.
Nascido dela, por ela produzido.
As más ações moem a pessoa tola
tal como o diamante a gema mais dura.

Dhp 162

Desprovido de disciplina e virtude,
tal como uma árvore sufocada por uma trepadeira,
ele assim faz contra si mesmo
aquilo que os seus inimigos desejariam.

Dhp 163

Fácil é agir com o mal,
prejudicando a si mesmo.
Mas o que é bom, que traz benefício,
é difícil de ser feito.

Dhp 164

Os tolos que se apóaim
em idéias equivocadas e desdenham
os ensinamentos dos arahants,
ou dos nobres que vivem o Dhamma.
Iguais à fruta do bambu,
que frutifica para a auto-destruição.

Dhp 165

A própria pessoa faz o mal,
ela mesma se contamina,
ela mesma deixa o mal,
ela mesma se purifica.
Pureza, contaminação, dependem dela mesma,
ninguém pode purificar outrem.

Dhp 166

Não negligencie o bem maior
por conta de outrem, embora importante.
Saiba bem o que lhe traz benefício
e dedique-se a isso

Dhp 167

Não tenha uma conduta inferior
nem seja negligente.
Não adote idéias incorretas,
nem seja envolto pelo mundo.

Dhp 168

Desperte! Não seja negligente!
Mantenha a conduta correta, de acordo com o Dhamma.
Quem vive de acordo com o Dhamma
terá felicidade neste mundo e no próximo.

Dhp 169

Mantenha a conduta correta, de acordo com o Dhamma,
evite a conduta prejudicial.
Quem vive de acordo com o Dhamma
terá felicidade neste mundo e no próximo.

Dhp 170

Como uma bolha,
como uma miragem,
quem assim vê o mundo
não é visto pelo Senhor da morte.

Dhp 171

Venha, olhe para este mundo,
tal como uma rica carruagem real
onde os tolos naufragam,
mas quem vê, não tem apego.

Dhp 172

Tendo sido negligente
mas agora diligente
ilumine o mundo
como a lua liberta das nuvens.

Dhp 173

Quem substitui as ações ruins
com ações benéficas
ilumina o mundo
como a lua liberta das nuvens.

Dhp 174

Essa população do mundo está cega,
poucos são aqueles que enxergam.
Tal como os pássaros que se libertam da armadilha,
poucos são aqueles que renascem nos paraísos.

Dhp 175

Cisnes no caminho para o sol,
com poderes supra-humanos homens cruzam o espaço,
derrotando Mara com a sua horda
os sábios vão além do mundo.

Dhp 176

Quem diz mentiras,
desconsiderando o Dhamma,
desdenhando vidas futuras:
não há mal do qual seja incapaz.

Dhp 177

Os avaros não vão para os paraísos,
os ignorantes não elogiam a generosidade,
mas o sábio que se delicia em dar
desfrutará de felicidade na vida futura.

Dhp 178

Reinar absoluto sobre toda a terra,
renascer nos paraísos,
ser um monarca universal:
o fruto de entrar na correnteza supera tudo isso.

Dhp 179

Por quais rastros traçar o Buda
que não deixa rastros,
cujo alcance é ilimitado,
nenhuma das impurezas destruídas poderão lhe acossar.

Dhp 180

Por quais rastros traçar o Buda
que não deixa rastros,
cujo alcance é ilimitado,
que não mais possui o enredamento e o embaraço do desejo
que conduz ao devir.

Dhp 181

Dedicado aos jhanas,
deliciando-se na paz da renúncia,
com atenção plena, o perfeito Buda
até mesmo pelos devas é querido.

Dhp 182

Difícil é nascer como humano,
a vida para os mortais é difícil.
Difícil é encontrar o verdadeiro Dhamma,
raro o surgimento de um Buda.

Dhp 183

Evitar todo o mal,
cultivar o bem,
purificar a própria mente:
esse é o ensinamento do Buda.

Dhp 184

A paciência é a suprema ascese,
‘nibbana é supremo’ diz o Buda.
Não é um verdadeiro bhikkhu quem fere os outros,
nem um verdadeiro contemplativo quem prejudica os outros.

Dhp 185

Não buscando defeitos, nem causando dano,
contido pelo patimokkha,
moderado na alimentação,
permanecendo isolado,
dedicado à mente superior:
esse é o ensinamento do Buda.

Dhp 186

Mesmo que chovam moedas de ouro
os desejos sensuais não são saciados,
desejos sensuais são dukkha, proporcionam pouca alegria,
isso o sábio compreende.

Dhp 187

Mesmo os prazeres celestiais
não oferecem deleite,
o discípulo do perfeito Buda
apenas se delicia com o fim do desejo.

Dhp 188

Elas buscam muitos refúgios,
nas montanhas e florestas,
nos parques e santuários:
pessoas ameaçadas pelo medo.

Dhp 189

Esse não é o refúgio seguro,
não é o refúgio supremo,
esse não é o refúgio, ao qual se você for,
ganhará a libertação de todo sofrimento.

Dhp 190

Mas ao buscar refúgio
no Buda, Dhamma, e Sangha,
alguém vê com perfeita sabedoria
as quatro nobres verdades.

Dhp 191

Dukkha, a sua causa,
a sua cessação,
e o nobre caminho óctuplo,
o caminho para silenciar dukkha.

Dhp 192

Esse é o refúgio seguro,
esse é o refúgio supremo,
de todo dukkha alguém estará liberto
buscando esse refúgio.

Dhp 193

Difícil encontrar uma pessoa extraordinária,
que não nasce em qualquer lugar,
onde quer que essa pessoa sábia e nobre nasça
a sua família desfruta de felicidade.

Dhp 194

Afortunado é o nascimento de um Buda,
afortunado é o ensino do Dhamma,
afortunada é a harmonia da Sangha
e afortunada é a sua busca espiritual.

Dhp 195

Quem venera os veneráveis
Buda e os seus discípulos
superaram a proliferação,
abandonaram a tristeza e a lamentação.

Dhp 196

Aqueles que reverenciam
os pacificados e destemidos,
seu mérito não pode ser computado
por nenhuma medida.

Dhp 197

Amigáveis entre os hostis
felizes permanecemos.
Entre as pessoas enraivecidas
permanecemos livres da raiva.

Dhp 198

Amigáveis entre os aflitos
felizes permanecemos.
Entre as pessoas aflitas
permanecemos livres da aflição.

Dhp 199

Livres da cobiça entre os cobiçosos
felizes permanecemos.
Entre as pessoas cobiçosas
permanecemos livres da cobiça.

Dhp 200

Felizes permanecemos
nada possuindo.
Alimentando-nos de êxtase
iguais aos devas do Abhassara.

Dhp 201

A vitória gera hostilidade,
sofrimento nos derrotados.
Os pacificados permanecem felizes
abrindo mão da vitória e da derrota.

Dhp 202

Não há fogo como a paixão,
não há aflição como a raiva,
não há dukkha como os agregados,
não há felicidade superior à paz.

Dhp 203

Fome é a pior enfermidade,
formações são o pior dukkha,
tendo compreendido como as coisas na verdade são:
nibbana é a felicidade suprema.

Dhp 204

Saúde é o maior ganho,
contentamento é a maior riqueza,
alguém confiável é o melhor companheiro,
nibbana é a felicidade suprema.

Dhp 205

Tendo saboreado o isolamento
e provado o apaziguamento,
livre da dor, imaculado,
ele saboreia a alegria do Dhamma.

Dhp 206

Bom é ver os nobres,
sempre bom estar em sua companhia.
Não ter que lidar com os tolos
sempre traz felicidade.

Dhp 207

Deveras quem permanece com os tolos
sofre por muito tempo.
a companhia dos tolos é sempre dolorosa,
como uma parceria com um inimigo.
Mas a companhia dos sábios traz a felicidade,
como o encontro com um parente confiável.

Dhp 208

Portanto busque a companhia do nobre que é sábio, estudado,
sólido na virtude, determinado (por nibbana).
Alguém assim deve ser seguido,
tal como a Lua segue o caminho das estrelas.

Dhp 209

Entregando-se ao que deve ser evitado,
não se esforçando onde o esforço é devido,
abandonando o Caminho, em busca dos prazeres,
sente inveja daqueles que são dedicados.

Dhp 210

Não desfrute da companhia daqueles que são queridos,
nem daqueles que não são queridos,
não ver aqueles que são queridos,
ver aqueles que não são queridos,
é dukkha.

Dhp 211

Portanto nada tenha como querido,
pois a separação daquilo que é querido é dolorosa.
Não há amarras
em quem não tem nada amado,
nem desamado.

Dhp 212

Da afeição nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre da afeição
não entristece, como então temer?

Dhp 213

Do amor nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre do amor
não entristece, como então temer?

Dhp 214

Da paixão nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre da paixão
não entristece, como então temer?

Dhp 215

Do apego nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre do apego
não entristece, como então temer?

Dhp 216

Do desejo nasce a tristeza,
nasce o medo,
quem está livre do desejo
não entristece, como então temer?

Dhp 217

Perfeito em virtude e insight,
firme no Dhamma, conhecedor da verdade,
querido pelas pessoas
ao fazer aquilo que deve ser feito.

Dhp 218

Despertando o desejo por nibbana,
com a mente assim bem permeada,
desconectada dos prazeres sensuais,
é dito ser aquele que vai contra a corrente.

Dhp 219

Alguém por muito tempo ausente
ao chegar ileso das regiões distantes,
amigos e parentes
se alegram com o seu retorno.

Dhp 220

Do mesmo modo, tendo realizado méritos,
ao partir deste mundo para outro,
os méritos o receberão,
como parentes que recebem alguém querido.

Dhp 221

Abandonando a raiva e renunciando à presunção,
deixando de lado todos os obstáculos,
não há dukkha em quem nada possui,
desapego da mentalidade-materialidade (nome-forma).

Dhp 222

Quem contém a raiva que surge
igual a conter uma carroça em movimento,
esse eu digo ser um verdadeiro cocheiro,
os demais apenas seguram as rédeas.

Dhp 223

Conquiste a raiva com a não-raiva,
conquiste o mal com o bem,
com a generosidade conquiste a avareza,
conquiste a mentira com a verdade.

Dhp 24

Diga a verdade, não sinta raiva,
do pouco que tenha dê para quem precisa.
Por esses três caminhos
alguém chega à companhia dos devas.

Dhp 225

Os sábios inofensivos,
as ações com o corpo bem controladas,
realizam o estado imortal
libertos do sofrimento.

Dhp 226

Sempre vigilante,
treinando dia e noite,
decidido por nibbana,
as suas impurezas são destruídas.

Dhp 227

Este é um antigo ditado, Atula,
não apenas dito nos dias de hoje:
‘Quem permanece em silêncio é censurado,
censurados são os que falam demais,
e censurados são os que falam com moderação’ –
ninguém no mundo escapa da censura.

Dhp 228

Nunca houve, nunca haverá,
tampouco agora há,
alguém que seja sempre censurado,
ou alguém que seja sempre elogiado.

Dhp 229

Mas aqueles que são inteligentes, sábios,
tendo observado dia após dia,
elogiam aquele que tem conduta imaculada,
dotado de virtude e sabedoria,

Dhp 230

Quem ousaria censurá-lo
tão puro como o ouro refinado.
Ele é elogiado pelos devas,
Brahma também o elogia.

Dhp 231

Proteja-se das ações grosseiras,
com o corpo bem controlado,
tendo abandonado a conduta ruim,
treine naquilo que é bom.

Dhp 232

Proteja-se da linguagem grosseira,
com a linguagem bem controlada,
tendo abandonado a conduta verbal ruim,
treine naquilo que é bom.

Dhp 233

Proteja-se dos pensamentos grosseiros,
com os pensamentos bem controlados,
tendo abandonado a conduta mental ruim,
treine naquilo que é bom.

Dhp 234

Contidos no corpo são os sábios,
na linguagem também eles são contidos,
da mesma forma são contidos na mente,
são perfeitamente contidos.

Dhp 235

Você agora está como uma folha murcha.
Os mensageiros da morte o aguardam.
Estando no limiar da sua partida,
sem ter feito provisões para a jornada.

Dhp 236

Seja uma ilha para você mesmo,
esforçe-se com rapidez e torne-se sábio,
livre de impurezas e desapaixonado
você irá para o plano celestial dos nobres.

Dhp 237

A sua vida agora chegou ao fim,
você está a caminho do senhor da morte.
Ao longo do caminho não há descanso
provisões tampouco você dispõem.

Dhp 238

Seja uma ilha para você mesmo,
esforçe-se com rapidez e torne-se sábio,
livre de impurezas e desapaixonado
você não retornará para o nascimento e morte.

Dhp 239

Gradualmente, pouco a pouco,
momento a momento, o sábio
remove as suas impurezas,
tal como um prateiro remove as impurezas da prata.

Dhp 240

Tal como a ferrugem originada do ferro
devora ela mesma o ferro,
assim também as próprias ações
conduzem a um destino ruim.

Dhp 241

A não repetição é a impureza das escrituras,
o desleixo a impureza do lar,
o desalinho a impureza da beleza,
a negligência a impureza de quem quer ter controle.

Dhp 242

A conduta ruim é a impureza no homem,
a avareza a impureza no doador,
as impurezas são de fato ruins,
neste mundo ou no próximo.

Dhp 243

Pior de todas impurezas
é a ignorância, a pior de todas.
Abandonem essa impureza e assim
livrem-se das impurezas, bhikkhus!

Dhp 244

Fácil é a vida de um desavergonhado,
impudente como um corvo,
maledicente, presunçoso,
arrogante e corrompido.

Dhp 245

Mas difícil é a vida de quem é modesto
sempre em busca da purificação.
Desapegado, humilde,
vivendo imaculado e com discernimento.

Dhp 246

Quem no mundo destrói a vida,
diz palavras falsas,
toma aquilo que não é dado livremente,
comete adultério,

Dhp 247

ou tem o vício de bebidas embriagantes:
quem com abandono tem esse comportamento
extirpa a sua própria raiz
neste mesmo mundo.

Dhp 248

Portanto amigo lembre-se disto:
as ações ruins são difíceis de conter,
não permita que a cobiça e a raiva
o arrastem para o sofrimento prolongado.

Dhp 249

As pessoas dão com base na fé,
com claridade e serena confiança.
Descontente com as oferendas,
com a comida e bebida recebidas dos outros,
ele não irá desfrutar da concentração
durante o dia nem à noite.

Dhp 250

Mas quem extirpou, desenraizou,
destruiu o descontentamento da mente,
de fato irá desfrutar da concentração
durante o dia e à noite.

Dhp 251

Não há fogo igual à paixão,
nem agarramento igual à raiva,
sem igual é a rede da delusão,
nenhum rio igual ao desejo.

Dhp 252

Fáceis de serem vistos são os defeitos dos outros,
difíceis mesmo de ver são os nossos;
os defeitos dos outros são revelados
como no ato de separar a casca do grão,
mas os seus próprios defeitos você esconde
como o trapaceiro esconde a jogada perdida.

Dhp 253

Quem sempre busca defeitos nos outros,
constantemente criticando,
as suas impurezas se incrementam,
estando distante da destruição das impurezas.

Dhp 254

No céu não há nenhum caminho,
nenhum contemplativo do lado de fora,
as massas se deleitam com a proliferação,
os Tathagatas estão livres da proliferação.

Dhp 255

No céu não há nenhum caminho,
nenhum contemplativo do lado de fora,
aquilo que é condicionado não é eterno,
não há vacilação nos Budas.

Dhp 256

Não é justo
quem julga apressadamente.
Um sábio deve investigar
o certo e o errado.

Dhp 257

Quem não é arbitrário ao julgar os outros,
mas julga com imparcialidade
de acordo com o Dhamma,
esse sábio é um guardião do Dhamma, um justo.

Dhp 258

Não é falando muito
que alguém é sábio.
Livre da inimizade, seguro, destemido,
esse é o sábio.

Dhp 259

Não é por falar muito
que alguém é hábil no Dhamma;
mas mesmo tendo ouvido pouco,
diligente, realizando o Dhamma,
ele de fato é hábil no Dhamma.

Dhp 260

Apenas os cabelos grisalhos
não fazem um ancião,
isso é simplesmente velhice,
alguém que envelheceu em vão.

Dhp 261

Com a verdade, virtude, sem causar dano,
contido e controlado,
sábio e livre das impurezas,
esse de fato é um ancião.

Dhp 262

Não pela eloqüência
ou pela bela aparência
uma pessoa é bela,
se ela for invejosa, egoísta, enganadora.

Dhp 263

Mas belo é aquele
em quem essas qualidades foram completamente descartadas,
desenraizadas, totalmente destruídas,
um sábio purificado da raiva, de fato tem boa índole.

Dhp 264

Não é raspando a cabeça
que alguém indisciplinado e enganador
se torna um contemplativo.
Como pode alguém tomado
pelo desejo e cobiça ser um contemplativo?

Dhp 265

Quem subjuga o mal
pequeno ou grande
é chamado contemplativo,
porque superou todo o mal.

Dhp 266

Não é apenas mendigando comida
que ele se torna um bhikkhu.
Não é apenas pela aparência externa
que ele se torna um verdadeiro bhikkhu.

Dhp 267

Vivendo a vida santa,
transcendendo o meritório e o demeritório,
tendo compreendido o mundo,
ele de fato é um bhikkhu.

Dhp 268

Não é através do silêncio
que alguém tolo e confuso
se torna um sábio.
Mas aquele que é sábio, como se tivesse uma balança,
pesa e apenas adota aquilo que é bom.

Dhp 269

Por essa razão ele é um sábio.
Aquele que compreende ambos mundos
é assim chamado sábio.

Dhp 270

Ele não é um nobre
ao causar dano aos seres vivos.
Inofensivo,
ele é um nobre.

Dhp 271

Ele não é um nobre
ao causar dano aos seres vivos.
Inofensivo,
ele é um nobre.

Dhp 272

ou por pensar: ‘eu desfruto da felicidade da renúncia
que não é experimentada pelos mundanos’,
que vocês bhikkhus deveriam estar satisfeitos,
não tendo alcançado a destruição das impurezas.

Dhp 273

De todos caminhos, o caminho óctuplo é o melhor,
de todas verdades, as quatro nobres verdades é o melhor,
de todos estados, o desapego é o melhor,
de toda humanidade, aquele que vê é o melhor.

Dhp 274

Esse é o único caminho, não há um outro
para a purificação da visão.
Siga esse caminho
assim desorientando Mara.

Dhp 275

Seguindo esse caminho
será o fim de dukkha.
Tendo compreendido como remover a flecha
lhes ensinei o caminho.

Dhp 276

Os Tathagatas apenas ensinam o caminho,
vocês devem fazer o esforço.
Seguindo o caminho, meditadores com os jhanas,
se libertarão dos grilhões de Mara.

Dhp 277

‘Todas as formações são impermanentes’ –
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

Dhp 278

‘Todas as formações são insatisfatórias’ –
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

Dhp 279

‘Todos os dhammas são não-eu’ –
Quando alguém vê isso com discernimento
e se desencanta do sofrimento,
esse é o caminho para a purificação.

Dhp 280

Ocioso sem se esforçar quando deve,
embora jovem e vigoroso,
tomado pela preguiça e pensamentos inúteis,
não encontrará o caminho para a sabedoria.

Dhp 281

Vigiando a linguagem, com a mente bem controlada,
sem praticar ações inábeis com o corpo.
Assim alguém deve purificar esses três meios para realizar kamma
e conquistar o caminho declarado pelo Grande Sábio.

Dhp 282

Do empenho nasce a sabedoria,
sem empenho a sabedoria míngua:
conhecendo esses dois caminhos,
do progresso e do declínio,
que ele exorte a si mesmo
para que a sabedoria se incremente.

Dhp 283

Cortem a floresta mas não a árvore
visto que é da floresta que nasce o medo.
Tendo cortado a floresta
permaneçam livres da floresta.

Dhp 284

Enquanto a mais sutil das paixões
não for eliminada
a mente estará agrilhoada
tal como um bezerro à sua mãe.

Dhp 285

Elimine a afeição
tal como uma mão que colhe uma flor de lótus no outono.
Cultive este caminho para a paz, nibbana,
tal como ensinado pelo Abençoado.

Dhp 286

‘Aqui permanecerei durante as chuvas
aqui no inverno, aqui no verão.’
Assim pensa o tolo,
sem se dar conta do perigo (da morte).

Dhp 287

Com a mente tomada pelo apego
deleitando-se com os filhos e os rebanhos,
a morte o encontra e arrasta
tal como uma grande inundação arrasta um vilarejo sonolento.

Dhp 288

Quem é tomado pela morte
não tem a proteção de compatriotas.
Não tem ninguém para salvá-lo –
quer sejam filhos, pai, ou parentes.

Dhp 289

Tendo compreendido essa realidade
que o virtuoso e sábio
se apresse em abrir o caminho
que conduz a nibbana.

Dhp 290

Se, pela renúncia a uma felicidade inferior,
é possível alcançar uma felicidade superior,
que o homem sábio
abandone a inferior pela superior.

Dhp 291

Quem almeja a felicidade
impondo o sofrimento aos demais,
enredado pelos grilhões da raiva
não se liberta da raiva.

Dhp 292

Aquilo que deve ser feito não é feito,
é feito aquilo que não deve ser,
as impurezas proliferam
naqueles que são arrogantes e negligentes.

Dhp 293

Com determinação praticando a atenção plena no corpo,
sem fazer aquilo que não deve ser feito,
com atenção plena e plena consciência,
as impurezas cessam.

Dhp 294

Aniquilando a mãe, o pai,
e os dois reis guerreiros.
Destruindo um reino junto com o seu tesoureiro,
incólume segue o verdadeiro Brâmane.

Dhp 295

Aniquilando a mãe, o pai,
e os dois reis guerreiros,
bem como os cinco tigres,
incólume segue o verdadeiro Brâmane.

Dhp 296

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
contemplam as qualidades do Buda.

Dhp 297

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
contemplam as qualidades do Dhamma.

Dhp 298

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
contemplam as qualidades da Sangha.

Dhp 299

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
praticam a atenção plena no corpo.

Dhp 300

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
se deliciam com a inocuidade.

Dhp 301

Os discípulos de Gotama,
sempre despertos,
constantemente dia e noite
se deliciam com o cultivo da mente.

Dhp 302

Difícil seguir a vida santa, nela encontrar o deleite.
Difícil e sofrida é a vida em família.
Sofrimento é a companhia daqueles que são diferentes.
O sofrimento acompanha a perambulação no samsara.
Portanto, não perambule sem rumo
em busca do sofrimento.

Dhp 303

Quem possui fé e virtude,
boa reputação e riqueza,
onde quer que vá
é sempre respeitado.

Dhp 304

A bondade é vista à distância,
tal como as montanhas do Himalaia.
Mesmo próximos os malvados não são vistos,
tal como flechas lançadas na escuridão da noite.

Dhp 305

Só ao sentar, só ao deitar,
só ao caminhar,
só no esforço e na contenção,
deliciando-se só na floresta.

Dhp 306

O falso acusador vai para o inferno,
também aquele que nega o que tenha feito.
Ambos depois se tornam iguais,
pessoas vis no mundo além.

Dhp 307

Muitos impostores vestem o mando de cor ocre
embora com caráter ruim e descontrolados.
Devido às suas ações ruins
esses malfeitores renascem no inferno.

Dhp 308

Melhor que ele engula
uma bola de ferro incandescente
do que esse imoral descontrolado
se alimentar de comida esmolada.

Dhp 309

Quatro infortúnios acometem aquele
que comete o adultério:
demérito, sono ruim,
má reputação, renascimento no inferno.

Dhp 310

Demérito e um renascimento infeliz.
Breve o prazer de homens e mulheres amedrontados.
O rei decreta pesada punição:
portanto, que ninguém seja adúltero.

Dhp 311

Tal como o capim kusa se for pego incorretamente
só corta as mãos,
assim também a vida do contemplativo vivida incorretamente
arrasta-o ao inferno.

Dhp 312

Atos negligentes,
práticas corrompidas,
celibato duvidoso
– nada disso produz bons frutos.

Dhp 313

Se algo deve ser feito
que assim seja com determinação,
uma vida monástica negligente
apenas agita a poeira das paixões.

Dhp 314

Melhor não praticar uma ação prejudicial
pois uma ação condenável atormentará mais tarde.
Melhor praticar uma ação benéfica,
que praticada, não atormenta.

Dhp 315

Tal como uma cidade fronteiriça
protegida interna e externamente,
assim vocês devem se proteger.
Não negligenciem essa oportunidade,
pois quem perde essa oportunidade
lamenta tendo renascido num estado infeliz.

Dhp 316

Quem se envergonha onde não há vergonha,
mas onde há vergonha não se envergonha,
assim adotando idéias prejudiciais
os seres renascem no inferno.

Dhp 317

Quem vê perigo não há perigo,
mas onde há perigo não o vê,
assim adotando idéias prejudiciais
os seres renascem no inferno.

Dhp 318

Quem vê defeito onde não há defeito
mas onde há defeito não o vê,
assim adotando idéias prejudiciais
os seres renascem no inferno.

Dhp 319

Vendo o defeito como tal,
também sabendo onde não há defeito,
assim adotando idéias corretas
os seres renascem num destino feliz.

Dhp 320

Tal como um elefante num campo de batalha
resiste às flechas lançadas dos arcos,
assim também suportarei as ofensas.
Há muitos, deveras, que não são virtuosos.

Dhp 321

Um elefante treinado passa pela multidão.
O rei monta o animal treinado.
Superior entre os homens são os domesticados
que suportam as ofensas.

Dhp 322

Excelentes são as mulas bem treinadas,
os puros-sangues de Sindh, e um poderoso elefante,
melhor ainda é aquele domesticado.

Dhp 323

No entanto não é com essas montarias
que alguém segue o caminho não trilhado (nibbana).
Segue o caminho aquele com a mente
bem treinada e domesticada.

Dhp 324

Difícil de ser controlado o elefante Dhanapala no cio,
com o odor pungente escorrendo das têmporas.
Mantido no cativeiro ele não come nem um bocado
saudoso recordando-se da floresta.

Dhp 325

Estúpido e preguiçoso, glutão e dorminhoco,
chafurdando como um gordo porco doméstico,
repetidas vezes segue ao renascimento.

Dhp 326

Antes esta mente perambulava como desejava,
de acordo com os seus caprichos e prazeres.
Agora com sabedoria conterei a mente
tal como um domesticador controla um elefante no cio.

Dhp 327

Delicie-se sendo diligente!
Proteja bem a mente!
Livre-se do atoleiro de contaminações,
tal como o elefante se livra do lamaçal.

Dhp 328

Se para a prática você encontrar um amigo
prudente, virtuoso e sábio,
permaneça com ele com atenção plena e alegria,
superando todas as dificuldades.

Dhp 329

Se para a prática não for encontrado um amigo
prudente, virtuoso e sábio,
tal como um rei que deixa para trás a terra conquistada,
siga só, como um elefante solitário na floresta.

Dhp 330

Melhor é permanecer só
pois não há companheirismo com os tolos.
Sem fazer o mal, despreocupado,
permaneça só tal como o elefante na floresta.

Dhp 331

Felicidade é ter amigos quando surge a necessidade,
felicidade é o contentamento com pouco,
felicidade é o mérito no fim da vida,
felicidade é o abandono de todo sofrimento.

Dhp 332

Felicidade neste mundo é servir à mãe,
também felicidade é servir ao pai.
Neste mundo felicidade é servir aos monges,
também felicidade é servir aos Nobres.

Dhp 333

Felicidade é a virtude até o fim da vida,
e felicidade é a fé bem estabelecida,
Felicidade é a realização da sabedoria,
e felicidade é evitar o mal.

Dhp 334

Tal como uma furtiva trepadeira
o desejo cresce naquele que é negligente.
Assim ele segue saltando de vida em vida
tal como um macaco em busca de fruta na floresta.

Dhp 335

Se no mundo
esse desejo pegajoso e grosseiro o subjuga,
as tristezas crescerão
como o capim após a chuva.

Dhp 336

Se no mundo, você subjuga
esse desejo pegajoso e grosseiro, que é difícil de escapar,
as tristezas se esvairão,
como gotas de água num lótus.

Dhp 337

Todos aqui presentes, eu digo,
estejam bem!
Desenraizem o desejo
tal como alguém em busca da perfumada raiz de birana.
Não permitam ser esmagados repetidas vezes por Mara,
tal como as hastes do junco numa enxurrada.

Dhp 338

Tal como uma árvore, embora cortada,
brota outra vez se as raízes permanecerem intactas e fortes,
da mesma forma,
até que o desejo latente tenha sido desenraizado,
o sofrimento irá brotar repetidas vezes.

Dhp 339

Quando as trinta e seis torrentes (do desejo)
fluem com intensidade para os objetos do prazer,
essa pessoa deludida
é arrastada pelos pensamentos apaixonados.

Dhp 340

Por toda parte essas torrentes fluem
e a trepadeira (do desejo) brota e cresce.
Ao ver que a trepadeira brotou,
decepe a sua raiz com sabedoria.

Dhp 341

Nos seres impregnados pelo desejo
surgem os prazeres dos sentidos.
Com inclinação pelo prazer, em busca do deleite,
eles são aprisionados pelo nascimento e decrepitude.

Dhp 342

Seres aprisionados pelo desejo
são aterrorizados como um coelho apanhado no laço.
Presos por grilhões e apegos
o seu sofrimento persiste por muito tempo.

Dhp 343

Seres aprisionados pelo desejo
são aterrorizados como um coelho apanhado no laço.
Portanto um bhikkhu que almeja pelo desapego
deveria subjugar o desejo.

Dhp 344

Sem desejo (pela vida em família) encontra prazer na floresta (isto é, como um bhikkhu),
mas depois de livre, corre de volta para a vida em família.
Observem bem essa pessoa,
embora livre regressa para a escravidão.

Dhp 345

Um grilhão feito de cânhamo, madeira ou ferro
não é tão forte, assim diz um sábio,
quanto o desejo e paixão por
filhos, esposas, jóias e ornamentos.

Dhp 346

Esse é um forte grilhão, assim diz um sábio,
que puxa para baixo, embora flexível, difícil de ser removido.
O sábio disso também se desfaz.
Eliminando a paixão, renunciando ao mundo,
abandonando os prazeres sensuais.

Dhp 347

Enredado pela paixão
recairá na torrente (de samsara)
tal como uma aranha na sua própria teia.
Elimine a paixão, renuncie ao mundo,
abandone todo sofrimento.

Dhp 348

Abandone o passado, abandone o futuro,
abandone o presente, cruze para a outra margem.
Com a mente liberta de tudo
não regresse ao nascimento e decrepitude.

Dhp 349

Contemplando os sinais de beleza,
atormentado por pensamentos,
dominado pelas paixões,
o desejo apenas cresce,
assim de fato os grilhões são fortalecidos.

Dhp 350

Contemplando os aspectos repulsivos do corpo,
acalmando os pensamentos,
sempre com atenção plena,
o desejo terá um fim
assim de fato os grilhões serão rompidos.

Dhp 351

Tendo realizado o objetivo, destemido,
livre do desejo e das paixões,
arrancou o espinho da existência,
este é o seu último corpo.

Dhp 352

Livre do desejo e do apego,
hábil no verdadeiro significado
e conhecendo a correta seqüência dos ensinamentos,
sendo este o seu último corpo,
com profunda sabedoria, um homem superior.

Dhp 353

Eu sou aquele que transcendeu tudo, aquele que tudo conhece,
imaculado entre todas as coisas, renunciando a tudo,
libertado pela cessação do desejo. Tendo conhecido tudo isso
por mim mesmo, a quem devo apontar como mestre?

Dhp 354

Oferecer o Dhamma supera todas as demais oferendas.
O sabor do Dhamma supera todos os demais sabores.
O prazer do Dhamma supera todos os demais prazeres.
A libertação do desejo é o fim do sofrimento.

Dhp 355

As riquezas arruínam o tolo
mas não aquele em busca da outra margem,
desejando riquezas o tolo
arruína a si mesmo e aos outros.

Dhp 356

As ervas daninhas são a praga dos campos,
a cobiça é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre da cobiça
resulta em abundantes frutos.

Dhp 357

As ervas daninhas são a praga dos campos,
a raiva é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre da raiva
resulta em abundantes frutos.

Dhp 358

As ervas daninhas são a praga dos campos,
a delusão é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre da delusão
resulta em abundantes frutos.

Dhp 359

As ervas daninhas são a praga dos campos,
o desejo é a praga da humanidade.
Assim aquilo que é oferecido a quem está livre do desejo
resulta em abundantes frutos.

Dhp 360

Boa é a contenção no olho,
a contenção no ouvido é boa,
boa é a contenção no nariz,
a contenção na língua é boa.

Dhp 361

Boa é a contenção no corpo,
a contenção na linguagem é boa,
boa é a contenção na mente,
a contenção em tudo é boa.
O bhikkhu contido de todas as formas
está livre de dukkha.

Dhp 362

Com as mãos e os pés controlados
bem como a linguagem, com completo controle,
deliciando-se com a meditação, tranqüilo,
só, satisfeito, ele é chamado um bhikkhu.

Dhp 363

Um bhikkhu com a língua sob controle
fala com sabedoria, despretensioso,
capaz de explicar o fraseado e o significado,
doce como o mel é o seu discurso.

Dhp 364

O bhikkhu que permanece com o Dhamma,
pondera e se delicia com o Dhamma,
se recorda do Dhamma –
não decai do verdadeiro Dhamma.

Dhp 365

Sem desprezar o que recebeu
nem invejar o que outros receberam.
O bhikkhu que é invejoso
não realiza samadhi.

Dhp 366

Sem desprezar o que tenha recebido
mesmo que seja pouco,
com o modo de vida purificado, dedicado,
esse bhikkhu é elogiado pelos devas.

Dhp 367

Em quem não há a fabricação ‘meu’
em relação à mentalidade-materialidade,
que não se aflige pelo que não é,
deveras ele é chamado bhikkhu.

Dhp 368

O bhikkhu que permanece com amor-bondade,
dedicado aos ensinamentos do Buda,
realiza o estado de paz e felicidade,
o silenciar da condicionalidade.

Dhp 369

Oh bhikkhu esvazie esse barco!
Vazio seguirá com presteza.
Livre da cobiça e da raiva
nibbana será realizado.

Dhp 370

Corte cinco e abandone cinco,
cultive outros cinco,
um bhikkhu livre de cinco grilhões
é chamado aquele que cruzou a torrente.

Dhp 371

Medite bhikkhu! Não seja negligente!
Não permita que os prazeres dos sentidos rodopiem a mente!
Negligente devorará bolas de ferro incandescentes!
Ao arder não lamente, ‘Isso é dukkha’!

Dhp 372

Não existe concentração (jhana) sem sabedoria,
e não existe sabedoria sem concentração.
Aquele que tem ambos concentração e sabedoria,
está mais próximo de nibbana.

Dhp 373

O bhikkhu que busca um local isolado,
com a mente calma,
compreende o Dhamma com insight,
experimenta a felicidade transcendente.

Dhp 374

Vendo com clareza
o surgimento e cessação dos agregados
ele experimenta o êxtase e o contentamento.
É o imortal para aqueles que sabem.

Dhp 375

Controle dos sentidos, contentamento,
contenção pelas regras do Patimokkha,
Essa é a base para a vida santa
de um bhiikhu sábio.

Dhp 376

Bons amigos, nobres, energéticos e puros.
Gentil e com fina conduta.
assim pleno de contentamento
dará um fim a dukkha.

Dhp 377

Tal como o jasmim
que descarta as flores murchas,
assim também vocês bhikkhus
descartem a cobiça e a raiva.

Dhp 378

O bhikkhu com o corpo e a linguagem calmos,
com a mente calma e bem controlada,
tendo renunciado aos prazeres mundanos,
deveras é chamado de ‘pacificado’.

Dhp 379

Você mesmo exorte a si mesmo!
Você mesmo examine a si mesmo!
Com atenção plena protegendo a si mesmo
o bhikkhu sempre estará feliz.

Dhp 380

Seja o seu próprio protetor,
seja o seu próprio refúgio.
Assim controle a si mesmo
tal como um mercador a sua preciosa montaria.

Dhp 381

Pleno de contentamento e confiante
nos ensinamentos do Buda,
o bhikkhu realizará o estado de paz,
a felicidade da cessação do condicionado.

Dhp 382

Com certeza o jovem bhikkhu
que se empenha no ensinamento do Buda
ilumina todo o mundo
tal como a lua livre das nuvens.

Dhp 383

Brâmane, empenhe-se e destrua a torrente,
deixe de lado os prazeres dos sentidos,
tendo compreendido a cessação do condicionado,
realize nibbana.

Dhp 384

Quando o brâmane alcança o ápice
dos dois caminhos,
ele realiza a verdade
e todos grilhões desaparecem.

Dhp 385

Em quem não há esta nem a outra margem,
tampouco ambas,
sem temores e livre dos grilhões,
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 386

Meditando, isolado, livre de contaminações,
com a tarefa feita, livre das impurezas,
tendo realizado o objetivo supremo,
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 387

O sol brilha durante o dia,
a lua ilumina a noite,
o rei brilha na sua armadura,
o brâmane brilha nos jhanas.
Mas durante todo o dia e à noite também
resplandecente brilha o Buda.

Dhp 388

Removendo o mal ele é chamado brâmane,
com a conduta serena ele é chamado samana,
tendo removido todas as contaminações ele é chamado pabbajita.

Dhp 389

Não acerte um brâmane,
nem que por isso ele reaja.
Vergonha quem acerta um brâmane,
mais vergonha quem se deixa tomar pela raiva.

Dhp 390

A mente que se afasta do que é querido
é de grande benefício para um brâmane.
O tanto que cessa a intenção de causar o dano,
na mesma medida dukkha cessa.

Dhp 391

Quem não pratica o mal
através do corpo, linguagem ou mente,
contido dessas três formas,
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 392

Tal como o sacerdote brâmane reverencia o fogo,
da mesma forma deve ser reverenciado
aquele de quem se aprende o Dhamma
ensinado pelo Perfeitamente Iluminado.

Dhp 393

Não pelo ascetismo, linhagem,
ou nascimento, alguém se torna um brâmane.
Mas naquele em que está presente a verdade e o Dhamma,
ele é puro, é um brâmane.

Dhp 394

Para que serve esse cabelo emaranhado?
Para que serve esse manto de pele de antílope?
No seu íntimo há o emaranhado das paixões,
somente no exterior você se mostra purificado.

Dhp 395

Vestindo um manto feito de trapos,
o corpo com veias expostas,
só na floresta, cultivando os jhanas,
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 396

Eu não digo que alguém seja um brâmane
devido à sua origem e linhagem.
Se os impedimentos ainda nele se ocultam,
ele é apenas um dos que diz ‘Senhor.’
Mas aquele que está desimpedido e não tem mais apego:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 397

Rompendo todos os grilhões,
não mais abalado pela raiva,
superando todos os vínculos, emancipado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 398

Cortando todas as amarras e correias,
bem como o cabresto e a embocadura,
cuja trave foi removida, iluminado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 399

Agüentando sem o menor indício de ressentimento,
o abuso, a violência e também o cativeiro,
cujo poder e força verdadeira é a paciência:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 400

Não se incendeia com a raiva,
obediente, virtuoso e modesto,
domesticado, suportando o seu último corpo:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 401

Como a chuva nas folhas do lótus,
ou uma semente de mostarda na ponta duma agulha,
de modo algum se apega aos prazeres sensuais:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 402

Nesta mesma vida realizando por si mesmo
o fim de todo o sofrimento,
deitando o fardo e se emancipando:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 403

Com profundo entendimento, sábio,
hábil na distinção entre o caminho e o descaminho,
tendo alcançado o objetivo supremo:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 404

Reservado em relação aos chefes de família
e da mesma forma em relação aos contemplativos,
perambulando sem morada fixa e com poucas necessidades:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 405

Renunciando à violência contra todos os seres vivos,
fracos ou fortes,
que não mata ou faz com que outros matem:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 406

Amigável entre os hostis,
pacífico entre os violentos,
desapegado entre os apegados:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 407

Cobiça e raiva, presunção e desprezo,
se despegaram igual à semente de mostarda
da ponta duma agulha:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 408

Empregando linguagem gentil,
instrutiva, verdadeira,
sem ofender a ninguém:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 409

No mundo nunca toma nada
que não tenha sido dado, quer seja longo ou curto,
grande ou pequeno, bom ou ruim:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 410

Não deseja mais nada
quer seja deste mundo ou do próximo,
livre do desejo e emancipado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 411

Não possui mais apegos,
nem perplexidades, pois sabe,
tendo mergulhado no Imortal:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 412

Neste mundo transcendendo todos os vínculos
tanto com os méritos como com os deméritos,
livre do sofrimento, imaculado e puro:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 413

Imaculado como a lua,
puro, sereno e imperturbado,
tendo destruído o desejo por ser/existir:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 414

Superando esse samsara lodoso,
perigoso, enganador,
meditando com os jhanas, cruzando para a outra margem,
imperturbável, sem perplexidade,
realizando nibbana através do desapego:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 415

Abandonando os prazeres sensuais
renunciando à vida em família, perambulando como um eremita,
destruindo ambos o desejo pelos prazeres dos sentidos
e pela continuada existência:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 416

Abandonando o desejo
renunciando à vida em família, perambulando como um eremita,
destruindo ambos o desejo
e a continuada existência:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 417

Abandonando todos os vínculos humanos,
e transcendendo todos os vínculos celestiais,
desapegando-se de todos os vínculos:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 418

Abandonando o deleite e o descontentamento,
arrefecido e sem apegos,
o herói que transcendeu todo o mundo:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 419

Conhecendo de todos os modos
a morte e o renascimento dos seres,
desapegado, abençoado, iluminado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 420

Cujo destino não é do conhecimento
de devas e humanos,
um arahant com as impurezas destruídas:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 421

Sem apego por absolutamente nada,
do passado, presente e futuro,
desimpedido e sem se agarrar a nada:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 422

O líder do rebanho, o perfeito herói,
o grande sábio, o conquistador,
imperturbável, imaculado, iluminado:
esse é o verdadeiro brâmane.

Dhp 423

Conhecendo as suas vidas passadas,
vendo os mundos paradisíacos e os mundos inferiores,
chegando ao fim dos nascimentos,
um sábio com perfeito conhecimento supra-humano,
completo em todos aspectos:
esse é o verdadeiro brâmane.

A aniquilação

Diz-se que uma das metas do Budismo é a aniquilação do ego, um conceito muitas vezes criticado por alguns budistas porque, dado que para eles a ideia de self sequer existe, não há sentido destruir algo que não existe, por isso eles dizem que a meta budista é desfazer-se da ilusão de que o self existe, e não aniquilar a individualidade. Trata-se, portanto, não da aniquilação do eu, mas da aniquilação da ilusão do eu pessoal de separatividade, dos apegos e apetites de sede de desejos ao lado da ignorância, ódio, ambição, luxúria e mal que os acompanham.

O deva e o buda

Um deva no budismo é um dos diferentes tipos de seres não-humanos. Em geral eles são mais poderosos e vivem mais que nós, possuindo assim uma existência satisfeita. Os devas são invisíveis a olho nu, exceto por aquelas pessoas que treinam a ponto de desenvolver um dom extra-sensorial, podendo vê-los e ouvi suas vozes. Mas eles podem se manifestar de forma ilusória para os seres de mundos inferiores, locomovendo-se por grandes distâncias e chegando a voar. A diferença entre eles e os deuses é que não são imortais, nem criaram o mundo, tampouco são oniscientes, todo-poderosos, moralmente perfeitos ou venerados.

Diz a lenda que o Buda estava um dia no jardim de Anathapindika, na cidade de Jetavana,  quando lhe apareceu um Deva transfigurado em brâmane e todo vestido de branco, e entre eles se estabeleceu o seguinte diálogo:

Deva: Qual é a espada mais cortante?

Buda: A palavra raivosa é a espada mais cortante.

Deva: Qual é o maior veneno?

Buda: A inveja é o mais mortal veneno.

Deva: Qual é o fogo mais ardente?

Buda: A luxúria.

Deva: Qual é a noite mais escura?

Buda: A ignorância.

Deva: Quem obtém a maior recompensa?

Buda: Quem dá sem desejo de receber é quem mais ganha.

Deva: Quem sofre a maior perda?

Buda: Quem recebe de outro sem devolver nada é o que mais perde.

Deva: Qual é a armadura mais impenetrável?

Buda: A paciência.

Deva: Qual é a melhor arma?

Buda: A sabedoria.

Deva: Qual é o ladrão mais perigoso?

Buda: Um mau pensamento é o ladrão mais perigoso.

Deva: Qual o tesouro mais precioso?

Buda: A virtude.

Deva: Quem recusa o melhor que lhe é oferecido neste mundo?

Buda: Recusa o melhor que se lhe oferece quem aspira à imortalidade.

Deva: O que atrai?

Buda: O bem atrai.

Deva: O que repugna?

Buda: O mal repugna.

Deva: Qual é a dor mais terrível?

Buda: A má conduta.

Deva: Qual é a maior felicidade?

Buda: A libertação.

Deva: O que ocasiona a ruína no mundo?

Buda: A ignorância.

Deva: O que destrói a amizade?

Buda: A inveja e o egoísmo.

Deva: Qual é a febre mais aguda?

Buda: O ódio.

Deva: Qual é o melhor médico?

Buda: O Buda.

O Deva então fez a sua última pergunta: O que é que o fogo não queima, nem a ferrugem consome, nem o vento abate e é capaz de reconstruir o mundo inteiro?

Buda respondeu: O benefício das boas ações.

Satisfeito com as respostas, o Deva juntou as mãos, inclinou-se respeitosamente ante Buda e desapareceu.

Parábola do grão de mostarda

Conta-se que Krisha Gotami passava de casa em casa com um filho morto no braço. Incessantemente ela pedia um remédio para curá-li: “Estás louca, quem deseja dar remédio a uma criança morta?”, diziam as pessoas. Após muito tentar, finalmente Krisha Gotami encontrou um camponês que respondeu à sua súplica dizendo:
– Não posso dar um remédio para a criança, mas sei de um médico capaz de dar: o Buda!
Sem demora Krisha Gotami, foi até o Iluminado contou-lhe sua história: – Meu filho brincava entre as flores e tropeçou numa serpente que em sua perna se enroscou. Ficou logo pálido e silencioso. Não posso aceitar que ele deixe de brincar ou que deixe o meu colo. Senhor meu Mestre, suplico-lhe, dá-me um remédio que cure meu filho!
O Iluminado respondeu: – Há uma coisa que pode curar teu filho e a ti: procura um simples grão de mostarda, porém só deves recebê-lo de uma casa onde nunca tenha entrado a morte.
Aflita, Krisha Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas se compadeciam dela e lhe davam os grãos, porém, quando ela perguntava se já havia morrido alguém naquela casa, lhe respondiam que muitos já haviam partido.
Mas ela não desistia, pois certamente haveria de existir alguma casa onde a morte não fosse conhecida. Ao entardecer, exausta de tanto caminhar e bater nas portas, então compreendeu: “A morte é parte da vida. Não é uma calamidade pessoal que só tenha acontecido comigo!”
Com esse entendimento, voltou a Buda: – Ah Senhor, não pude encontrar sequer um grão de mostarda em casa onde não tenha ocorrido a morte. Então, entre as flores silvestres, na margem do rio, deixei meu filho que não queria mamar nem sorrir, e volto para ver teu rosto e beijar teus pés suplicando-te que me digas o que fazer.
O Mestre respondeu-lhe:
– Minha irmã, procurando o que não podes encontrar achaste o amargo bálsamo que eu queria dar-te. Sobre teu seio, o ser que amas dormiu hoje o sono da morte. Agora já sabes que todo mundo chora uma dor semelhante à tua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se concentrado num só. Escuta: derramaria meu sangue se pudesse deter tuas lágrimas! Nenhum nascido pode evitar a morte. Assim como os frutos maduros caem da árvore, assim os mortais estão expostos à morte desde que nascem. A vida corporal do homem acaba partindo-se como a vasilha de barro do oleiro. Jovens e adultos, néscios e sábios, todos estão sujeitos à morte. Porém, o sábio que conhece a Lei não se perturba, porque nem pelo pranto nem pelo desânimo obtém-se a paz, mas pelo contrário, isso tudo aviva as dores e os sofrimentos do corpo. Embora viva dez ou cem anos, acaba o homem por separar-se de seus parentes ao sair deste mundo. Quem deseja a paz da alma, deve arrancar de sua ferida a flecha do desgosto, da queixa, da lamentação. Feliz será aquele que consegue vencer a dor. Assim, sepulta tu mesma o teu filho.
Extenuada pela dor, Krisha Gotami sentou-se à beira do caminho, pôs-se a meditar no silêncio do entardecer e disse consigo: – Quão egoísta sou eu em minha dor! A morte é o destino comum de tudo quando vive. Porém, neste vale desolado há um caminho que conduz à imortalidade: aquele que elimina de si todo egoísmo! E sufocando o amor egoísta que sofria por seu filho, enterrou-o no bosque. E foi logo refugiar-se no Iluminado, e encontrou o consolo que alivia o coração dilacerado pela dor.

A entrada no nirvana

O Nirvana não pode ser descrito porque não há nada em nossa experiência mundana com o qual possa ser comparado, e nada que possa ser usado para fornecer uma analogia satisfatória. Ainda é possível alcançá-lo e  experimentá-lo enquanto com o corpo vivo e, desse modo, obter a inabalável certeza de sua realidade como um Dhamma (Doutrina) que é independente de todos o fatores da vida condicionada. Este é o estado que Buda alcançou em vida e que possibilitou aos outros o atingirem, depois dele. Ele mostrou o Caminho com o convite: “Venha e veja por você mesmo” (Ehipassiko). – Dr Georges da Silva e Rita Homenko.

Antes mesmo de Sidarta Gautama ter atingido a Iluminação sob a sombra das folhas da Árvore Bodhi, na tradição religiosa indiana ela já representava simbolicamente o “Despertar” e a “Iluminação”. Os textos antigos contam que sob ela Sidarta sentou-se jurando nunca mais se levantar enquanto não tivesse encontrado a verdade. Após 49 dias de meditação e com a idade de 35 anos, é dito que ele alcançou a iluminação espiritual (outras tradições contam que isso ocorreu em cerca de quinze ou doze meses). De acordo com o budismo, durante a sua Iluminação, o Buda compreendeu as causas do sofrimento e os caminhos necessários para eliminá-lo, isto é, as Quatro Nobres Verdade. Somente através da realização hiper consciente dessas verdades, um ser pode atingir a Iluminação ou o Nirvana, descrito como um estado perfeito de paz mental livre de toda ignorância, inveja, orgulho, ódio e outros estados aflitivos.

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Categoria: Budismo, Espiritualidade

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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