Larry Laudan: A ciência como atividade de resolução de problemas

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A ciência é, em essência, uma atividade de resolução de problemas, disse Larry Laudan em 1986.

Breves descrições biográficas bem podem explanar como um homem chegou a ser um filósofo da ciência e epistemologia contemporânea, e, fazendo jus a seu título, tornar-se um forte crítico às pretensões da epistemologia cientificista em aspectos como o realismo epistemológico e a vinculação do progresso como o alcance da verdade (Pesa e Ostermann, 2002 e Cupani, 1994). Assim é Larry Laudan, nascido em 1941, um graduado em Física pela Universidade de Kansas (1962) que tornou-se Ph.D em Filosofia pela Universidade de Princeton no ano de 1965. Eis suas principais obras: Progress and Its Problems, Science and Hypothesis, Science and Values, Science and Relativism, Beyond Positivism and Relativism.

Na visão do autor um problema empírico começa de uma forma simples, isto é, a partir de qualquer coisa que nos é estranha e precisa de uma explicação. Assim em 1987 Laudan, utilizando-se do conceito de “Tradição de pesquisa”, buscou compreender a natureza e o progresso dessas explicações. Segundo ele uma Tradição de pesquisa vai além das teorias de curta duração, pois ela proporciona um conjunto de diretrizes para o desenvolvimento de teorias específicas. Parte dessas diretrizes constitui uma ontologia que especifica, de modo geral, os tipos de entidades fundamentais que existem no domínio ou nos domínios em que essa tradição se inscreve. A função das teorias específicas dentro da tradição é a de explicar todos os problemas empíricos do domínio reduzindo-os à ontologia da mesma. Esta tem um compromisso ontológico – perfila os diferentes modos em que as entidades de sua incumbência podem interatuar – e um compromisso metodológico, porque especifica também os modos de proceder (técnicas experimentais, modos de corroboração empírica, avaliação das teorias, etc) que são legítimos para um pesquisador que trabalha nela. Ou seja, uma tradição de pesquisa é uma unidade integral. Essa integridade é a que estimula, define e delimita o que pode ser considerado como solução para muitos dos problemas científicos importantes (p. 115). É através do processo contínuo de resolução de problemas que as tradições vão evoluindo a partir do que são: criaturas históricas, criadas e articuladas num meio intelectual concreto que colaboram na produção de teorias específicas e – como todas as demais instâncias históricas – crescem e declinam (p. 133) sempre mudando em algum aspecto – pois uma tradição nunca é imutável – seja por uma modificação em alguma de suas teorias específicas subordinadas seja por uma mudança nos elementos nucleares mais básicos.

A partir dessa breve introdução da estrutura de pensamento laudaniana podemos entender sua perspectiva acerca do progresso da ciência, mas antes disso voltaremos um pouco à história; Giovanni Reale nos conta que Alfred Tarski (1901-1983) havia reabilitado a definição aristotélica segundo a qual uma assertiva é verdadeira quando e somente corresponde aos fatos. Entretanto, ter uma definição de verdade não significa possuir um critério de verdade: nós nunca poderemos estar certos de nossas teorias; por mais e melhores confirmações se possa ter obtido, uma teoria pode se revelar falsa no próximo controle; toda teoria tem infinitas consequências e nós só podemos comprovar um número finito de consequências. Portanto, mesmo possuindo uma definição de verdade, nós não temos critério infalível de verdade, que nos permita emitir decretos definitivos sobre a veracidade ou não das teorias.

Diante disso, Karl Popper (1902-1994) tentou conduzir o padrão da proferibilidade e da progressividade de uma teoria em relação a outras a partir de níveis lógicos, ou seja, do interior da lógica em sua noção intuitiva de maior verossimilhança entre as teorias. Laudan, contudo, as trouxe para os níveis pragmáticos: embora nós não tenhamos critérios de veracidade e/ou verossimilhança consistentes, é racional antepor uma teoria que resolva mais e mais importantes problemas de determinada época.

São essas as razões que justificam, na lógica de Laudan, a proposição inicial aqui apresentada, segundo a qual, de fato, a ciência é, em essência, uma atividade de resolução de problemas“.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia Contemporânea, Filosofia da Ciência, Filosofia Moderna, Física

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Elan Marinho Elan Marinho disse:

    Adoro Laudan, o conheci em um texto do Gabriel Jucá (que depois veio a ser meu professor de Lógica) chamado
    “Uma abordagem didática de pressupostos lógicos e filosóficos em discussões sobre interdisciplinaridade”.

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