A Douta Ignorância Cusana: Do máximo absoluto à sua contração

Nicolau de Cusa

Nicolau de Cusa, Cardeal do século XV (Cusa, Alemanha, 1401- Todi, Itália, 1464).

Através da realização de um breve levantamento da teologia medieval melhor podemos chegar ao cerne da filosofia de Nicolau de Cusa, um dos pensadores mais importantes do século XV. A Idade Média foi responsável por sintetizar as concepções gregas acerca da natureza e realizar algo similar a uma instrumentação de conhecimento sobre a teologia romana e pagã vendo-as como uma preparação para a verdade revelada cristã. Grande foi, portanto, a fundamentação religiosa do medievo em prol da unificação entre a física e a metafísica, e, por conseguinte, ao âmbito da teologia. Especialmente na segunda metade da Idade Média, pautando-se em Aristóteles, os intelectuais buscaram veementemente estabelecer um elo entre o divino e o humano, o científico e o espiritual. Abria-se, portanto, o germe do antropocentrismo. Contudo se analisarmos o papel cusano em detrimento do período em que viveu defrontaremos uma filosofia sui generis, pois alguns pensadores de consciência mais autônoma deram abertura ao espírito renascentista do qual o bispo em questão pôde, influenciado pelo nominalismo que criticava grande parte da formulação do conhecimento da época, se opor às teses aristotélico-tomistas tão presentes na escolástica.

Como este escrito é um epítome acerca da Douta Ignorância cusana, é coerente iniciá-lo descrevendo-a como um saber do não saber em alusão a Sócrates[1] e Salomão[2], mas, como quaisquer outros epítomes, que são sínteses e não a totalidade de um pensamento, somente através do conhecimento de Nicolau por Nicolau pode-se perceber integralmente como sua reflexão abarca uma relação entre o ignorar e o saber e assim se faz uma sapiência comedida em relação ao sujeito e às possibilidades sem excluir seus respectivos limites[3]. Ainda assim, como pretensão introdutória, pode-se instruir seu pensamento bem como o mesmo instruiu muitos intelectuais; Volkmann-Schluck[4] pressentiu-o como um propulsor de Descartes, enquanto Cassirer[5] e Gandillac[6] levaram seu apriorismo transcendental até Kant, e sua noção de sujeito absoluto, por fim, foi por Schulz[7] e Frantzki[8] caracterizada como precursora do idealismo alemão e particularmente de Hegel.

Conquanto a proposta deste escrito seja entender o pensamento cusano a partir dele mesmo e não de suas procedências futuras aqui demarcadas não num caráter interpretativo, mas apenas a título de referência, fiquemos, pois, com o século XV, ou melhor, com a dimensão lógica e gnosiológica da Douta Ignorância segundo a qual o modo humano de conhecer avança paulatinamente do conhecido ao desconhecido, do finito e do infinito, e por conseguinte indica, já em seu método comparativo que recorre à proporção, um limite epistemológico: é por si manifesto que a verdade precisa é incompreensível porque não se chega ao máximo de modo simples, pois tanto o que excede como o que é excedido são finitos. Mas o máximo como tal é necessariamente infinito e a medida e o medido, por mais iguais que pareçam, permanecem sempre diferentes[9]. Por essa via o Cardeal de Cusa formula um novo discurso filosófico pelo qual, aplicando as matemáticas na teologia, propõe a transsumptio que, conforme comenta Fogel (2003), é um pôr-se no mesmo tônus, no mesmo “tom”, ou seja, na mesma experiência e origem da “coisa”, sintonizando-se com ela e tornando-se co-originário e co-partícipe.

[Senão de tal modo] Toda a investigação consiste numa proporção comparativa fácil ou difícil. É por isso que o infinito como infinito, porque escapa a qualquer proporção, é desconhecido. A proporção, exprimindo simultaneamente acordo por um lado e alteridade por outro, não pode ser entendida sem o número. O número inclui, pois, todas as coisas susceptíveis de proporção. Portanto, o número não está apenas no âmbito da quantidade, ele que cria a proporção, mas em todas as coisas que, de qualquer modo, possam concordar ou diferir em substância ou em acidente.[10]

Dessa forma o método matemático constitui um caminho para o filósofo, caminho esse que se revela diante das inúmeras dificuldades de conhecer o ilimitado e que certamente teria sido previsto por Nicolau, pois se o mesmo se entrega ao trabalho de escrever uma teologia certamente é porque há ao menos uma possibilidade de saber de algo. Por conseguinte no pensamento cusano o homem sábio não é aquele que ignora irrefletidamente, mas sim o que conhece o saber máximo de sua ignorância[11] e os limites de sua razão cujo ser é o particular (e não o todo) e, tal como o que não é círculo não pode medir o círculo[12], o que não é o todo não pode medir o todo.

Seguindo o método cusano os signos matemáticos ganham importância: devem ser utilizados com a necessidade inicial de “considerar primeiro as figuras matemáticas finitas com as suas paixões e razões, transferir correspondentemente estas razões para figuras infinitas e depois, em terceiro lugar, transpor as próprias razões das figuras infinitas para o infinito simples totalmente liberto de qualquer figura”[13]. Segundo comentário de Miguel Batista Pereira a dinâmica do número cusano deve ser entendida pela transsumpção como o último passo da via simbólica para o infinito, pois não se atinge o caminho do máximo (ou do mínimo em relação ao qual nada pode ser menor, e, desse modo, mínimo e máximo se coincidem) senão incompreensivelmente[14], ou melhor, de forma apofática[15] onde ascendendo ou descendendo os números se chega ao máximo. A maximidade ou a minimidade da luz de Deus, uma e outra entendidas de igual modo, está para além do intelecto humano que não pode combinar os contraditórios no seu princípio pela via da razão[16] e por isso se liga a uma compreensão transcendente, e, tão só nesse sentido, ao mesmo tempo nominável de maneira inominável[17].

Mas a unidade[18] não pode ser um número, porque o número, admitindo excedente, de modo algum pode ser o mínimo ou o máximo de modo simples. É, no entanto, o princípio de todo o número porque é o mínimo e é o fim de todo o número porque é o máximo. Por isso, a unidade absoluta, à qual nada se opõe, é a própria maximidade absoluta, que é Deus bendito. Esta unidade, sendo máxima, não é multiplicável, porque é tudo aquilo que pode ser. Por isso não pode ela própria tornar-se número.[19]

Desse modo toda a multiplicidade comparativa, finita e limitada, existe em relação ao uno[20]. A unidade cusana, por não ser um número – e seguramente por ser sustentada pelo cardeal da Igreja Católica Romana e admirador de Pitágoras –, é eterna e trina, é como que a entidade. Na verdade, Deus é a própria entidade das coisas. É, pois a forma de ser[21].

Sobre a compreensão de tal uni-trindade, assim como disse Marciano Capella[22] , ela é para Nicolau a rejeição de círculos e esferas[23].

[O máximo simplicíssimo] está acima de todas as coisas, de tal maneira que se deve necessariamente rejeitar aquilo que, por intermédio dos sentidos, da imaginação ou da razão, se atinge com meios materiais, a fim de chegarmos à inteligência mais simples e mais abstracta, em que todas as coisas são uma só, em que a linha é triângulo, é círculo e esfera, em que a unidade é trindade e vice-versa, em que o acidente é substância, em que o corpo é espírito, o movimento repouso e assim sucessivamente. E, quando se entende o que quer que seja no próprio uno, então se entende que é uno e que o uno é tudo, e, por conseguinte, que o que quer que seja é, nele, tudo. E se não entendes que a própria unidade máxima é necessariamente trina, não rejeitaste corretamente a esfera, o círculo e outras figuras semelhantes. As coisas máximas nunca podem, pois, ser corretamente entendidas, se se não entendem como trinas.[24]

Apesar de falar do máximo sua filosofia, como um pensamento cristão, não exclui os particulares que estão no universo, isto é, no máximo contraído, imagem do máximo absoluto[25]. Todo particular tem singularidade tal que, assim como a variedade dos números se diversifica ao infinito em composição, complexão, proporção, harmonia, movimento e todas as coisas[26], nenhum homem é como outro no que quer que seja, nem nos sentidos, nem na imaginação, nem no intelecto, nem na acção, como a escrita, a pintura ou a arte[27]. Contudo falar da contração pela pluralidade não faz com que Deus seja plural, pelo contrário, Ele é a unidade mais simples, a unidade de muitas coisas, existindo como que um mediador do universo e de todas as coisas em Deus[28], onde em Anaxágoras qualquer coisa é em qualquer coisa[29].

Repara no exemplo: é claro que a linha infinita é linha, triângulo, círculo e esfera[30]. Toda a linha finita tem o seu ser devido à infinita que é tudo aquilo que é. Por isso, na linha finita tudo aquilo que é a linha infinita – como linha, triângulo, etc. –, é aquilo que é a linha finita. Assim, toda a figura na linha finita é a própria linha (…) E para que vejas com mais clareza: a linha não pode ser em acto senão no corpo (…) Mas ninguém duvida de que no corpo longo, largo e profundo estão complicadas todas as figuras. Todas as figuras são, pois, em acto na linha em acto a própria linha, no triângulo triângulo e assim sucessivamente. Na verdade, todas as coisas são pedra na pedra, na alma vegetativa a própria alma, na vida vida, nos sentidos sentidos, na vista vista, no ouvido ouvido, na imaginação imaginação, na razão razão, no intelecto intelecto, em Deus Deus. E agora vê como a unidade das coisas ou o universo é na Pluralidade e, inversamente, a pluralidade na unidade.

Considera mais atentamente e verás como qualquer coisa que existe em acto repousa pelo facto de todas as coisas nela serem ela própria e ela própria em Deus ser Deus. Vês a admirável unidade das coisas, a unidade digna de ser admirada e a conexão sumamente admirável de modo que tudo seja em tudo[31].

A então referida contração dos indivíduos faz com que eles não sejam sumamente perfeitos, pois a perfeição máxima está unicamente em Deus. Assim existe uma diversidade de graus de perfeição, e todas as coisas são o que são do melhor modo possível entre o máximo e o mínimo, mas esses graus variam conforme a conexão gradual que se tem com Deus, nunca se chegando ao máximo, porque o máximo é Deus ele mesmo. Como existe uma gradação e a natureza humana, pouco inferior à angélica, reúne em si a natureza intelectual e sensível, o homem é um microcosmo, a espécie mais elevada dentre as obras de Deus.


Notas

[1] Cf. Platão, Apologia, 23 b.

[2] Cf. Eclesiastes 1, 8.

[3] O termo “possibilidade” significa para Nicolau de Cusa a contração do ato infinito (Deus) que será explicado no decorrer deste escrito.

[4] Cf. K.H. Die Philosophie de Nikolaus Von Kues. Eine Vorform der neuzeitlichen Metaphysik, archiv fur Philosophie, 3. 1949, pp. 379-399.

[5] Cf. El problema Del concorcimiento em La filosofia y lãs ciências modernas, I, Buenos Aires, Fondo de Cultura Econômica, 1953, pp. 79-80.

[6] Cf. La philosophie de Nicolas de Cues, Paris, Aubier-Montaigne, 1941, p. 149.

[7] Cf. Der Gott der neuzeitlichen Metaphysik, Pfullingen, Neske, 1957, pp. 11-30.

[8] Cf. Nikolaus Von Kues und das Problem der absoluten Subjektiivitat, Meisenheim am Glan, Antón Hain, 1972.

[9] A Douta Ignorância, Livro I, Cap. III, 9.

[10] Idem, I, 3.

[11] Idem, II, 5. Nicolau chama de máximo “àquilo relativamente ao qual nada pode ser maior”.

[12] Idem, III, 10.

[13] Idem, XII, 33.

[14] Idem, IV, 11.

[15] Justificando a teologia apofática Nicolau narra que “Hermes Trismegisto dizia com razão: Porque Deus é a totalidade das coisas nenhum nome lhe é apropriado, porque seria necessário chamar a Deus todos os nomes ou chamar tudo com o nome de Deus, na medida em que ele complica na sua simplicidade a totalidade de todas as coisas” (Cf. Asclépio, 20; Corpus Hermeticum, II, pp. 320-321) e “A Teologia negativa é tão necessária à teologia positiva, que sem ela Deus não seria adorado como Deus infinito, mas antes como criatura. E é idolatria tal culto que atribui à imagem aquilo que só convém à verdade” (A douta ignorância, Capítulo XXVI, 86).

[16] A Douta Ignorância, Livro I, Cap, IV, 12.

[17] Idem, V, 13.

[18] Para Nicolau a unidade pode ter uma analogia matemática ao ponto: “E não há senão um só ponto, que não é diferente da própria unidade infinita, porque ela é o ponto, que é o termo, a perfeição e a totalidade da linha e da quantidade, complicando-a também. E a sua primeira explicação é a linha em que não se encontra senão o ponto” (Cf. A Douta Ignorância, Livro Segundo, Cap. III, 105)

[19] Idem, V, 14.

[20] Nesta acepção o uno é máximo em ato, princípio e fim de todas as coisas.

[21] A Douta Ignorância, Livro I, Cap. VIII, 22.

[22] Texto original: MARCIANO CAPELLA, De nuptiis Philologiae ET Mercurii, II, 35 – o autor trocou o termo “filologia” por filosofia”.

[23] A Douta Ignorância, Livro I Cap. X, 27.

[24] Idem.

[25] Idem. Livro Segundo, Cap. IV, 112.

[26] Idem, I, 94.

[27] Idem.

[28] Idem, IV, 115-116.

[29] Nicolau diz que, ainda que qualquer coisa não possa ser qualquer coisa em ato, “todas as coisas”, uma vez que são de modo contraído, contraem “todas as coisas” para que sejam ela própria (Livro Segundo, Capítulo V, 117).

[30] Cf. supra, L. I, caps. 13-15, nºs 35-41 e L. II, cap. 4, nº 113.

[31] A Douta Ignorância, Livro Segundo, Cap. V, 119-120.


Referências

COLOMER, S. J. E. Nicolau de Cusa (1401-1464): Um pensador na fronteira de dois mundos. Revista Portuguesa de Filosofia, Fasc. 4, nº V Centenário de Nicolau de Cusa, pp. 387-435, Outubro-Dezembro, 1964.

DE CUSA, NICOLAU. A Douta Ignorância. 3ª Edição Revista, Lisboa: Editora Calouste Goulbenkian. 2012, Lisboa. 191 p.

_______________. A Visão de Deus. 4 ª Edição Revista, Lisboa: Editora Calouste Goulbenkian. 2012, Lisboa. 252 p.

DURÃO, PAULO. O Ecumenismo de Nicolau de Cusa. Revista Portuguesa de Filosofia, Fasc. 4, nº V Centenário de Nicolau de Cusa, pp. 454-466, Outubro-Dezembro, 1964.

GUENDELMAN, C. KALIKS. O conceito de douta ignorância de Nicolau de Cusa em uma perspectiva pedagógica. 2009. 101 p. Dissertação apresentada na área de Ensino de Ciências e Matemática da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, 2009.

LYRA, SONIA REGINA. Nicolau de Cusa: Visão de Deus e Teoria do Conhecimento. 2010. 212 p. Tese apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). São Paulo, 2010.

MARIA, ANDRÉ JOÃO. O problema da linguagem no pensamento filosófico-teológico de Nicolau de Cusa. Revista Filosófica de Coimbra. ISSN 0872-0851. Vol. 2, nº 4 (1993) p. 369-402.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Cristianismo, Epistemologia, Filosofia, Filosofia da Natureza, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval, Matemática

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas