Carta n. 5

Recife, 03 de novembro de 2015.

Caro leitor,

Ando pensando em como é difícil estudar algo isoladamente. Já parou pra pensar que até mesmo a metafísica não se dissocia da política? Se levarmos em consideração que liberdade é um conceito metafísico e esse está muito presente nos discursos políticos, é impossível isolar uma área do saber; sobre a ética e a moral eu nem preciso fazer ressalvas… É por essas e outras considerações que a política aristotélica me desperta certo fascínio, pois Aristóteles postula tal ramo como substancialmente moral e o seu fim último, isto é, o seu telos, é a formação moral da cidadania, sendo a política a ciência da moral social.

Tendo em vista que o homem é um animal político, máxima aristotélica base para sua filosofia política [Zoon Politikon], o homem só é de fato homem em sua máxima expressão dentro do Estado. A filosofia aristotélica postula que o fim ultimo do homem é a eudaimonia [felicidade] e o Estado como ciência da moral se ocupa da felicidade coletiva e parece ver, em concordância com Platão, que o bem particular é de menor importância que o bem coletivo. Não obstante, Aristóteles, diferentemente de seu antigo mestre, defende primadamente o direito individual uma vez que o mesmo acredita na pluralidade dos indivíduos e dentro disso não poderia existir um Estado que funcionaria como unidade absoluta; assim deve-se garantir aos indivíduos o direito privado e a propriedade particular.

Só o homem conhece o bem, o qual está incluso na formação moral da cidadania e no dever estatal de educar-nos em vista dele. Assim, se somente nós seres humanos podemos discernir entre o bem e o mal, o justo e o injusto, sem isso, ou seja, fora de uma sociedade política, estaríamos nos assemelhando a qualquer outro animal. Esse olhar aristotélico, ou seja, do homem como um corpo político e social, é muito interessante e certamente foi um ponto de partida para diversos pensadores políticos posteriores à ele.

Por ser bastante realista, Aristóteles vai novamente contra Platão, que era um idealista, ao procurar deixar claro que apesar de existir uma preferência ideológica o governo ideal deve ser relativo, isto é, adequar-se a condições históricas e circunstancias, justamente porque a Política é um saber prático e deve estar em concordância com o movimento da sociedade. Exemplo disso é quando ele propôs que em Crata, cidade onde havia problemas de superpopulação, o homossexualismo fosse regulamentado pelo Estado, ou quando casais ultrapassassem o número de filhos fosse possível o aborto antes do feto ter anima [alma] considerando crime somente a morte de um bebê animado, ou seja, só a partir de determinado tempo de gestação. Interessante esse ponto de vista relativamente moderno em plenos 300 e tantos anos antes de Cristo, não acha? Me lembra uma espécie de perspectivismo moral o qual, a título de exemplo, Nietzsche defende.

Apesar disso tudo que andei escrevendo a ti, pode ser que se desestimule ao despertar o interesse na política aristotélica e se deparar com pensamentos bastante sexitas, homofóbicos e racistas, contudo, isso vem para nos lembrar que os ditos pensadores são também seres humanos e por conseguinte estão imersos no pensamento de seus tempos assim como nós, muitas vezes não conseguindo sair dele, por mais grandiosa que sua capacidade perceptiva seja. Todavia minha intenção aqui é aproveitar os aspectos futuristas e morais da política aristotélica para compartilhar e somar positivamente um melhor desenvolvimento intelectual acerca de sua filosofia política.

Resta-me perguntar uma coisa: concordas que somos naturalmente políticos? Pois tudo isso só faz sentido se assim formos. O que você acha?

Abraços,

Iana

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Categoria: Cartas

Iana Cavalcanti

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco, fascinada por boa parte da produção de conhecimento humano, com ênfase na atividade filosófica em uma gama um tanto quanto variada de assuntos.

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