A chegada da família real ao Brasil e sua repercussão no jornalismo

Vinda da família real portuguesa ao Brasil.

Vinda da família real portuguesa ao Brasil.

Somente com a chegada da família real portuguesa ao Brasil (1808) surgiram os primeiros impressos efetivamente brasileiros. A estadia da Coroa no Rio de Janeiro causou uma nova ordem social, e por consequência surgiram novos sistemas de troca bem como oficialmente a burocracia se instalou na Colônia. Isso possibilitou o desenvolvimento das cidades, ampliou o universo populacional e materializou condições mínimas e indispensáveis para a circulação de ideias de maneira mais ampla.

Por consequência do quadro da expansão mercantilista mundial, período em que se buscava adquirir e acumular riquezas através da colonização e conquista de mercados, Portugal acumulou grande poder sobre sua colônia em todos os aspectos. Nesse contexto de dominação, antes de se instalar nas terras brasileiras, em 10 de maio de 1747, surge a Carta Régia proibindo a impressão de livros e papéis no Brasil. Essa Carta tinha por objetivo manter o povo sem um mecanismo social de expressão de ideias e divulgação dos fatos (como é o caso dos jornais). Mesmo diante de tal proibição, circulavam na Colônia panfletos, gazetas manuscritas e até mesmo alguns alguns poucos periódicos estrangeiros trazidos em sua maioria de foma clandestina por marinheiros advindos da Europa.

Esta situação mudou parcialmente em 13 de maio de 1808 com a chegada de D. João VI no Brasil. Os portugueses, aproveitando o maquinário trazido à Colônia pela família real, criam a primeira editora brasileira, a Imprensa Régia. Se pensada do ponto de vista histórico da origem privada da imprensa, essa foi uma situação inédita no cenário colonial, pois representa o surgimento de novas práticas discursivas numa sociedade civil emergente. A primeira publicação desse órgão foi a Gazeta do Rio de Janeiro, jornal que começou a circular quatro meses depois e é considerado um dos primeiros jornais brasileiros conjuntamente com o Correio Braziliense, editado por Hipólito José da Costa em Londres desde junho daquele mesmo ano.

Gazeta do Rio de Janeiro, nº 1, 10 de setembro de 1808.

Gazeta do Rio de Janeiro, nº 1, 10 de setembro de 1808.

Falaremos primeiro da Gazeta. Ela pertencia à secretaria do governo e era redigida por seus oficiais. Por tal razão a Gazeta trazia o ponto de vista de D. João, a quem competia o monopólio da impressão de qualquer obra tipográfica no país. Mesmo não declarando ser uma publicação oficial do governo, durante os 14 anos em que circulou, foram impressas notícias do estrangeiro, da família real, atos do governo e muitos anúncios.

Ao lado das notícias da guerra napoleônica e de outras informações d’além mar, as que tinham maior primazia, figuravam informações cotidianas, impressões dos leitores, informando inclusive sobre as formas de divulgação e a rede de informação que existiam nas cidades. Sendo um sistema útil aos interesses do poder e sendo concessão do Estado a quem competia difundir por suas páginas aquilo que era considerado relevante, era também uma gazeta no sentido lato do termo. Até 1820, será o único jornal (ao lado da Idade d’Ouro do Brasil, publicado na Bahia) a ter oficialmente licença para impressão.

(Reflexões sobre a imprensa no Brasil de 1808. Marialva Carlos Barbosa . Estudos em Jornalismo e Mídia – Ano V – n. 2 pp. XX – XX jul./ dez. 2008)

A Gazeta do Rio de Janeiro desapareceu em 31 de dezembro de 1823 para ressurgir, a 2 de janeiro de 1824, como Diário do Governo – finalmente assumindo ser um órgão oficial estampando inclusive as armas imperiais brasileiras. Alguns autores defendem que, pelo fato das gazetas deterem o caráter oficial, isto é, serem publicadas sob o regime de concessão e privilégios da Imprensa Régia, o conteúdo de suas publicações era limitado às notícias de interesse do Estado. Os jornais, por outro lado, privilegiavam as notícias de interesse de um público mais amplo. Apesar disso, essa amplitude não podia ser tão extensa: jornais e gazetas se prendiam à divulgação de fatos e informações já transmitidas por outros periódicos, eles copilavam notícias já publicadas em outros lugares e países e, dessa forma, podiam também se autodenominar compiladores ou recompolidadores. Outra fonte de notícia corria também de fatos incertos que possivelmente interessariam ao público, como é o caso das redes de boatos e conversas que chegavam pelos navios. Pelas críticas que faziam ao regime, na cidade do Rio de Janeiro também circulavam de maneira clandestina periódicos tidos como malditos aos olhos da Coroa Portuguesa. O mais famoso deles sem dúvida é já citado Correio Braziliense.

Correio Braziliense, Junho de 1808.

Correio Braziliense, de Junho de 1808.

Com periodicidade mensal, o Correio não tinha caráter noticioso, mas exprimia uma aguda visão crítica dos fatos políticos, econômicos e sociais que envolviam o Brasil na época, indo desde as restrições à liberdade até à definição de regras culturais, comerciais e industriais que resultam de mudanças geradas na economia em geral e na produção agrícola e mercantil. Hipólito da Costa o editava em Londres e o enviava ao Brasil – ele sim pode ser considerado um verdadeiro jornalista. Segue abaixo nas palavras do autor ele próprio sua maneira destemida de publicar críticas ao sistema colonial.

Longe de imitar só o primeiro despertador da opinião pública nos fatos que excitam as curiosidades dos povos, quero, além disso, traçar as melhorias das ciências, das artes, e, numa palavra, de tudo aquilo que pode ser útil à sociedade em geral. Feliz eu se posso transmitir a uma nação longínqua e sossegada, na língua que lhe é mais natural e conhecida, os acontecimentos desta parte do mundo, que a confusa ambição dos homens vai elevando ao estado da mais perfeita barbaridade. O meu único desejo será de acertar na geral opinião de todos.

(Correio Braziliense, v. I, p. 3-4, junho de 1808).

É, segundo Hipólito da Costa, de direito natural a liberdade de escrever e de imprimir que, depois da invenção da imprensa, não é outra coisa mais do que a liberdade de falar ou comunicar os pensamentos dos homens. Ao jornalismo, como instituição própria do público e somente por ele legitimável, cabe assim a vital função de emancipar intelectualmente a sociedade, num esforço de referencialidade que abrange não só a atualização do conhecimento dos fatos sociais correntes, mas a própria educação científica, jurídica e artística desse público. A imprensa, diz o jornalista, compartilha com escolas e universidades a competência e finalidade de instruir os homens sobre os novos parâmetros de julgamento dos fatos e de sua racionalização, tarefa esta até então exclusiva da alçada de gerenciamento do Estado monárquico.

O Quarto Poder, Porque os fatos importam.

O Quarto Poder – Porque os fatos importam.

Em comparação com os tempos atuais, a visão de Hipólito coincide com os defensores da Mídia, ou seja, dos meios de comunicação de massa, como o quarto poder, isto é, aquele que exerce poder e influência em relação à sociedade da mesma maneira quanto os Três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). De acordo com Hipólito, ao mesmo tempo que a finalidade da impressa é o de criar o costume de averiguar o público por si mesmo as questões que pertencem à nação toda ou de instruir quotidianamente o povo nos seus interesses, cabe também a ela alertar o governo sobre os perigos que ameaçam sua integridade política, popular e econômica. Cabe ajudarmos as visitas do governo, e contribuirmos da nossa parte para o bem da Nação a que pertencemos.

Pelas diferenças que são estabelecidas em relação aos periódicos do Correio – como jornal combativo – e da Gazeta – caracterizada como jornalismo áulico – configura-se uma mítica de dois modelos para o jornalismo brasileiro. Tal como nos primórdios da imprensa brasileira, numa linha evolutiva desse jornalismo, ainda hoje este seria enquadrado nessas duas formulações: de um lado o jornalismo dependente dos favores oficiais, não afeto a controvérsias, que se coloca ao lado dos que estão no poder, e de outro lado o jornalismo de combate. Percebemos no jornalismo de hoje os traços de suas origens, seja pelo Correio seja pela Gazeta.

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Categoria: História

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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