A biologia aristotélica

Scaliger JC, Historia animalium, 1619.

Scaliger JC, Historia animalium, 1619.

Desde a Academia platônica já eram feitas classificações sobre os animais e plantas em gênero e espécie, todavia somente no Liceu a biologia se tornou um objeto de estudo sistemático. As obras aristotélicas cujo tema é a physis tratam-na amplamente; enquanto o conhecimento astronômico é nobre e distante, o estudo dos corruptíveis, isto é, das plantas e dos animais, pode proporcionar ao entusiasta uma vastidão do saber entre as realidades que lhe são próximas e facilmente observáveis, pois em todas as realidades naturais há algo maravilhoso (De part. an. I 5). A partir de tais prelúdios Aristóteles classificou as formas do mundo material assentado na observação sistemática dos seres vivos – dissecou e estudou a forma e comportamento de aproximadamente 500 classes diferentes de animais. Sobre a biologia, o filósofo dedicou várias obras, a citar: Historia animaliumDe incessu animalium, De generatione animalium, De motu animalium, e outros livros perdidos. 

Na primeira obra citada, isto é, na Historia animalium, Aristóteles faz uma descrição histórica do que pensavam estudiosos, pescadores, pastores, caçadores, veterinários etc sobre os animais. A partir do método acadêmico da divisão em dois, ele primeiramente distinguiu os vertebrados dos invertebrados (animais providos e desprovidos de sangue) embora no futuro, a partir de partibus animalium, tenha criticado tal modelo como insuficiente para expressar a multiplicidade das articulações dos gêneros da natureza e o substituiu pela divisão em gêneros e espécies. Entre os animais providos de sangue, distinguiu os mamíferos (terrestres e ovíparos), os pássaros (aéreos e ovíparos) e os paixes (aquáticos e ovíparos) e, entre os desprovidos de sangue, distinguiu-os por exemplo entre a moleza e a dureza da pele.

Não obstante o objetivo principal de seu estudo consistiu em estabelecer a causa material e motora dos órgãos sabendo sobretudo sua forma, ou seja, a razão de ser, o telos, a função desempenhada para o funcionamento do organismo em sua totalidade – vale lembrar que Aristóteles, in natura, é um pensador teleológico, por isso para ele tudo tem um fim.  No sentido de que o órgão é um instrumento útil do corpo, nem mesmo a teoria evolucionista discorda do pensamento aristotélico (clique aqui para ver o que Darwin fala de Anaximandro – passando por Aristóteles – até o presente desenvolvimento de sua teoria). Assim, determinando a função dos órgãos, o filósofo passa a estabelecer analogias dos pulmões dos mamíferos e as brânquias dos peixes às atividade da alma (De Anima), ou seja, nas plantas há a nutrição e a reprodução, nos animais essas e a percepção e o movimento. Aristóteles, como confirma a biologia subsequente, já entende que o principal objeto de estudo dessa ciência é a reprodução e por consequência a genética. Por outro lado há um ponto fundamental a distingui-lo dos futuros biólogos: na natureza aristotélica as espécies são eternamente imutáveis. A evolução admitida por ele não é da espécie, mas do indivíduo (pode-se citar como exemplo o progressivo desenvolvimento do embrião).

Muitos biólogos e cientistas julgam Aristóteles por esse tipo de erro, mas tal juízo desconsidera ingenuamente o impedimento histórico da biologia aristotélica. Seu extraordinário mérito está na sistematização da Biologia a partir de um método correto, e não no acertamento total de seus conceitos. Foi Aristóteles quem deu base para o desenvolvimento das ciências biológicas posteriores, isto é, de sua filosofia adveio a primeira direção de um conhecimento seguro acerca da formação material dos seres vivos a partir de sua causa eficiente e estrutura orgânica.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Biofilia, Biofilosofia, Filosofia Antiga, Filosofia da Natureza, Zoologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas