A leitura de Steinberg sobre a arte contemporânea

Anos 60, Museum of Modern Art de Nova York – Após realizar uma série de conferências, o crítico Leo Steinberg (1920-2011) adquire notabilidade por analisar se a Arte tem de ser algo para todos ou somente para um público específico. Se for exclusiva, ou as pessoas compreendem uma obra e podem apreciá-la ou não a compreendem, e por isso não necessitam dela.

Le bonheur de vivre, 1905-1906

Le bonheur de vivre, 1905-1906

Steinberg retomou o ano de 1906, quando Henri Matisse expôs A Alegria de Viver, quadro que abriu um novo caminho artístico para o século XX. Entretanto, por figurar uma espécie de alegre bacanal, a obra rendeu discursos odiosos em seu tempo. Tomando como exemplo Paul Signac, o pintor moderno quisera excluir o quadro de certa exposição no Salão dos Independentes. Curiosamente Signac era um pintor moderno vanguardista, mas naquele momento, ao analisar Matisse, proferiu críticas adversas à revolução estética. A Alegria de Viver foi além dos conceitos habituais. Enquanto era de costume ao público, diante de uma pintura figurativa, ter direito de focalizar uma a uma das figuras nela contidas, o quadro em questão praticamente não permite olhar para as figuras separadamente sem contrariedade, elas carecem de articulação estrutural.

Les Demoiselles d'Avignon, 1907

Les Demoiselles d’Avignon, 1907

Matisse, por sua vez, ao conhecer o último trabalho de Picasso, As Senhoritas de Avignon, outro percursor da arte contemporânea, comportou-se de maneira semelhante a Signac, alegando ser o quadro uma brincadeira de mau gosto, uma tentativa de ridicularização de todo o movimento moderno.

Steinberg usa tais exemplos para mostrar que são os artistas, e não os leigos, os primeiros a criticar toda arte verdadeiramente nova e original. Como crítico, ele justifica esse acontecimento: os artistas têm mais paixão, são mais engajados no movimento até mesmo que os críticos e burgueses. Quem desaprovou Courbet, Manet, os impressionistas e os pós-impressionistas senão os próprios pintores (e em sua maior parte os pintores acadêmicos)? Steinber quer mostrar o seguinte: o líder de um movimento revolucionário artístico se encoleriza diante de uma nova mudança porque fica indignado com a insubordinação, ou a traição, numa causa revolucionária.

Para ele qualquer pessoa torna-se acadêmica em virtude ou em relação ao que rejeita, e a academização da vanguarda está em processo contínuo. Assim Steinberg propõe abandonar a “inútil e mítica” distinção entre os indivíduos criadores e progressistas (os artistas) e a multidão incapaz de compreender, isto é, o público. Em outras palavras, sua definição de público é muito funcional. Ela não se refere a uma espécie particular de pessoas, e sim a um papel que as pessoas são induzidas ou forçadas a desempenhar por uma determinada experiência; por isso somente os que estão além da experiência deveriam estar isentos da acusação de pertencer ao público.

É mais comum que certas mudanças artísticas perturbem mais o artista do que o amador, pois este pode ver a mudança como uma desvalorização da cultura acumulada havendo assim um sentimento de perda, de exílio repentino, de algo que foi voluntariamente negado. Mas, diz Steinberg, tal sentimento de perda ou de espanto é muitas vezes um fracasso da apreciação estética, ou uma inabilidade para se perceber os valores positivos de uma experiência nova.

L'Origine du monde, 1866, Gustave Courbet

L’Origine du monde, 1866, Gustave Courbet

A rejeição das obras de arte modernas, para Steinberg, teria sido um mero acidente histórico. Nenhuma arte permanece incômoda durante muito tempo pois, depois de certo período, perde a sua primeira aparência de inaceitabilidade. Num decorrido tempo, o novo estilo parece familiar, depois formal e bonito e, finalmente, revestido de autoridade. Isso aconteceu também com o Expressionismo e Cubismo. É verdade que a arte contemporânea tende a destruir os valores cultivados, mas pouco se mostra de suas causas positivas, por isso ela acaba sendo tida apenas como um ato de destruição sem qualquer motivo – para Baudelaire, por exemplo, a arte de Courbet parecia ser apenas um gesto revolucionário gratuito.

A arte moderna, sem valores fixos, sempre se projeta numa zona crepuscular. Desde Cézanne, destacada por Picasso, ela nasce em meio à ansiedade. Steinberg tem como função do artista moderno a transmissão da ansiedade, de maneira que o seu encontro com a obra de arte seja um verdadeiro problema existencial. A arte contemporânea original, por sua natureza, apresentar-se como um mau risco. E o público, inclusive os artistas, deve, diz, se orgulhar por estar diante de tal problema, porque nada mais lhe pareceria verdadeiramente fiel à vida; e a Arte, afinal de contas, é considerada por Steinberg como um espelho da realidade.

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Categoria: Artes e Letras, Música e Pintura

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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