O lugar do homem nas ciências da natureza

Fotografia / Natália Cruz Sulman / © FiloVida

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Um amigo queixava-se de como a ciência procede acerca da relação dos homens com as demais partes da natureza, isto é, dos animais e plantas.

Partindo do pressuposto de que as ciências exatas eram também ciências humanas ainda que fossem designadas por Ciências da Natureza, meu amigo perguntou como elas podiam ser conduzidas, disse ele:  <<essas ciências têm um olhar humano ou vêem a natureza como ela é? Seja como for, há um paradoxo em seu procedimento: destruímos e controlamos a natureza para tentar entender seu funcionamento. Peter Singer fala em especismo, a crença de que a raça humana é superior mas se a ciência age a partir do especismo, nunca verá a natureza como ela é. Felizmente isso tem mudado ultimamente com as concepções mais holísticas, parece que já há pequenos grupos de ciência com o olhar integral dos fenômenos>>.

Casualmente eu estava a ler um dos livros de Santo Agostinho que, em concordância temática com os questionamentos do meu amigo, investigava o lugar do homem na escala da perfeição dos seres e o tinha como ser racional superior aos outros animais. Asseverando seu caráter de gênio, o filósofo de Hipona tirara suas conclusões a partir da brilhante construção lógica expressa a seguir.

Agostinho admite os muitos elementos comuns que temos não somente com os animais, mas também com os seres vegetais, a citar: ingerir alimento, crescer, gerar, fortificar-se. Ele constata que os animais podem ver, entender e sentir os objetos corporais por meio do olfato, do gosto, do tato e frequentemente com mais intensidade do que nós. Além de que há neles força, vigor, solidez dos membros, rapidez e grande agilidade de movimentos corporais. Em tudo isso, nós somos superiores a alguns deles, iguais a outros e, a vários dentre eles, inferiores. Já entre 394 ou 395 Agostinho admite que sem dúvida possuímos natureza genética comum com os animais como também a genérica busca dos prazeres do corpo e a fuga dos dissabores.

Mas o que põe o homem acima dos animais, para o sapientíssimo filósofo, seja qual for o nome dado para tal faculdade, seja mente ou espírito ou um e outro indistintamente, é este elemento superior que domina no homem e comanda a todos os outros elementos que o constituem de forma ordenada. De acordo com Agostinho, descobrimos a nossa superioridade não no corpo, mas na razão, especialmente porque é por meio dessa que domesticamos os animais. Eles, mesmo com tamanhas faculdades corporais, como a força e a rapidez, não nos domesticam.

A partir dessa compreensão posso retornar ao pensamento do meu amigo de forma mais sólida. A ciência tem raiz e herança filosófica, especialmente as tais ciências numéricas. Elas herdaram o pensamento de louvor e superioridade racional presente desde os tempos remotos na filosofia ocidental. Creio que esse especismo, vendo o homem como ser superior, parte da mais alta capacidade racional humana – ao menos pelo o que sabemos – em relação aos seres do mundo visível.  Alguns homens dirão que essa razão não provém do homem ele mesmo, e sim de algo divino ou que lhe é de alguma outra forma exterior (chamada por alguns de Intelecto). Para estes, o homem, tendo acesso ao Ser da natureza, apreende as coisas tal como são.

Dentre as várias letras que me vêm em mente, aquela melhor empregada aqui para contrariar tal argumento seria um escrito de Hume publicado postumamente em 1779. Na voz de Filo, ele diz que por já termos observado milhares de vezes que uma pedra cai, que o fogo queima, que a terra tem solidez, a exata similaridade dos casos dá uma segurança perfeita da ocorrência de um evento similar. Mas sempre que há um afastamento da similaridade dos casos, diminui-se proporcionalmente a evidência. Ao comparar o Universo com uma casa, por exemplo, o máximo que se pode conjeturar é a existência de uma causa similar. A experiência mostra que quando lançarmos ao ar um conjunto de diversas peças de aço elas jamais se arranjarão por si mesmas de modo a produzir um relógio, no entanto se observa que as ideias, por um inexplicável desconhecido princípio de organização, dispõem-se na mente humana de modo a formar o projeto de um relógio ou de uma casa. A experiência, diz, prova que há um princípio originário de ordenação na mente, mas não na matéria.

Não sei se meu amigo compactua mais da visão clássica ou cética, mas seja como for, a superioridade do homem em relação aos outros seres terrestres é uma crença plausivelmente justificada. Se esta corresponde ou não à natureza, deixemos a solução aos epistemólogos.

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Categoria: Epistemologia, Filosofia, Filosofia da Ciência, Filosofia Medieval, Filosofia Moderna

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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