Tales, Anaximandro e Demócrito

talesO primeiro grande período cosmológico da filosofia ocidental tem o tema da natureza como centro. A filosofia no ocidente nasce como uma investigação racional acerca da physis e de sua arché cujo conceito pode ser aplicado de forma dupla.

  1. a arché como princípio: começo ou origem. Nesse sentido, ela estaria situada em algum lugar do tempo remoto.
  2. a arché como poder de estrutura fora do tempo linear. Como esse princípio, ela rege e ordena todas as coisas de tal forma que se mantém em vigor, embora não esteja cronologicamente situada – pois se o princípio ficasse para trás não haveria cosmos e sim caos.

Os investigadores da physis, por isso chamados de fisicalistas, são também intitulados de pré-socráticos ou pré-platônicos; na arché de que falam não há uma cronologia, o princípio não fica para trás, mas se mantém e se preserva remetendo-se a algo que existe necessariamente.

Com exatidão não é possível saber quem foi o primeiro a filosofar, mas há no ocidente uma convenção procedente de Aristóteles – cuja principal referência é o capítulo 3 da Metafísica – de que o primonato foi Tales de Mileto, nascido em torno de 624 a.C.. Assim, proferida pelo primeiro fisicalista de Mileto, a filosofia ocidental tem início com a tese de que “a água é o princípio de todas as coisas”. Esse dizer pode primeiramente parecer ingênuo, mas explana o esforço do pensamento humano para guiar a totalidade e a unidade e implica na seguinte tese: tudo aquilo que há representa diversas facetas de uma única coisa que, por modificações e transformações, é a água.

A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque faz sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: “Tudo é um”. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego.

Se tivesse dito: “Da água provém a terra”, teríamos apenas uma hipótese científica, falsa, mas dificilmente refutável. Mas ele foi além do científico. Ao expor essa representação de unidade através da hipótese da água, Tales não superou o estágio inferior das noções físicas da época, mas, no máximo, saltou por sobre ele.

Tales já apresenta três temas da filosofia da natureza:

  1. causalidade;
  2. observação do mundo pela materialidade;
  3. mudança, movimento.

Ele observa que todo vivente se nutre de água, e parte do seguinte principio: nós nos nutrimos daquilo que nos gera. Que poderia ser isso, senão uma referência clara da aproximação do princípio com a vida? Vale ressaltar a compreensão grega do cosmos como um organismo vivo. Enquanto hoje se acha que a vida é rara, praticamente existente apenas no planeta Terra; para os gregos, pelo contrário, o universo se move em si de maneira espontânea. Por isso, diz Tales, a alma está misturada com o todo.

Anaximandro, por sua vez, apresenta uma concepção do cosmos, de certa maneira, a partir de um caráter moral. O contexto de seu debate é o mesmo de Tales, isto é, sua pergunta/problema está situada na existência de uma arché e totalidade ordenada e una; “o apeiron é o princípio e elemento de todas as coisas”, diz. “Apeiron” é um princípio grego de negação cujo entendimento pode estender-se em:

  1. ilimitado.
  2. infinito, ou seja, impensável, sem delimitação.
  3. indeterminado, pois não é identificado como água, fogo, isto ou aquilo.

Anaximandro apresenta, pois, uma preocupação em diferenciar a arché enquanto princípio daquilo que por ela é principiado. Como tudo o que existe ou é em si ou em outrem, o princípio, por estar em estado diferente de todas as coisas, não pode ser limitado, pois assim já seria parte do todo, e não o todo mesmo; é no interior do ilimitado que acontece a delimitação. Assim, do apeiron vai surgindo o particular no espaço, tempo e percepção. O grande paradoxo disso tudo se segue: o interior da totalidade está marcado pela geração e corrupção, nasce e morre, entretanto o apeiron é eterno, não envelhece e abarca todos os cosmos. Os particulares não determinam o inicio e, se se dão conta, já estão aí no mundo, e também quase sempre não determinam quando vão morrer. A physis se transforma pela necessidade do tempo e forma diferentes cosmos, coisas novas aparecem e desaparecem, movimentos de idas e vindas; há uma única ordem definitiva e na natureza essa ordem varia por infinitos cosmos (como os componentes dessa totalidade estão articulados de acordo com a entrada e saída de componentes) que, no interior da totalidade, se manifestam em uma pluralidade de mundos de modo que

Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas às outras castigo e expiação pelas injustiças conforme a determinação do tempo.

(Anaximandro de Mileto, fragmento 1, Os filósofos pré-socráticos, p. 25).

Esse fragmento de Anaximandro dá margem a diversas interpretações: o que ele exatamente quer dizer com dissipação, gênese, necessidade, injustiça e tempo? Em que medida sua ordem tem caráter ético ou está relacionada com o bem e o mal, o justo e o injusto? Há aqui um antropomorfismo ou não? Como ler isso?

apeironCertamente a principal características de todos os particulares para Anaximandro é a sujeição à corrupção onde o retorno é uma dissolução dos limites. Há, principalmente, uma unidade na multiplicidade e essa unidade é o apeiron. A necessidade pode ser entendida por carência, pela falta daquilo que é mais importante e, nesse caso, pode ocorrer ou não; e pode ser entendida também como aquilo que não pode ser de outra maneira, ou seja, é o que é. Mas o termo “necessário” não é idêntico a “predeterminado”; o que existe não é uma determinação, e sim uma diké (junção) nas coisas que fornece de certa forma uma harmonia cósmica. Na medida em que a arché determina as coisas, a diké é determinada. A injustiça, pois, não seria a injustiça do apeiron, mas a injustiça dos particulares. No caminho da injustiça há um impedimento originado por uma força restritiva que não pode desarmonizar o todo, e isso seria o castigo, ou seja, o reconhecimento do tempo da outra coisa como impedimento da sua própria coisa.

Por fim, como destaque entre os gregos clássicos, podemos falar de Demócrito (460 a.C. – 370 a.C.), tradicionalmente considerado um filósofo pré-socrático (embora cronologicamente seja co-socrático). Ele quebra com a usual ideia dos filósofos jônicos (Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Parmênides, Heráclito, Empédocles e Xenófanes) e, junto com Leucipo, funda o atomismo clássico.

Demócrito é conhecido como aquele que ri. Sua filosofia, a filosofia da alegria, busca um bom estado de sentimento, a euthymia. Mas o que ele tem, afinal, em comum com os tradicionais fisicalistas? Em primeiro lugar, seu debate principal também gira em torno da existência de uma totalidade unificada em referência a um princípio primeiro do todo. Para Demócrito, porém, o princípio primeiro é um conjunto incontável de elementos desprovidos de qualidade, isto é, de átomos.

O cosmos era, para Demócrito, composto por átomos não divisíveis e por vazio. Entre um corpo e outro há um intervalo (vazio) relacionado com o átomo de modo que o vazio é um não ser relativo (não absoluto) e o átomo é um ser compacto, incorruptível, eterno, imutável e pleno. Até mesmo a psyqué é corpórea para Demócrito, sua única particularidade é a de ser formada por outro tipo de átomo.

Os átomos, assim, se organizam por diferentes tipos e sequências. Se não houvesse tal organização e intervalo (vazio), a natureza seria um corpo só; somente por causa do vazio há movimento. O perecimento, crescimento e mudança dos corpos ocorre por causa da combinação e separação dos corpos primários.

Assim como para Anaximandro, a corrupção em Demócrito não se dá no macro, mas nos organismos particulares. A geração é uma alteração.

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Categoria: Filosofia da Natureza, Filosofia Pré-Socrática, História da Filosofia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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