O que é Ciência para o biofilósofo S. J. Gould

ciência

Não há nada nos fenômenos, e não pode haver, que indique um início ali, não mais do que acolá, ou, na verdade, em qualquer lugar que seja. O início, como fato, devo saber por meio de testemunho; não tenho meio algum de inferi-lo a partir dos fenômenos.

(P. H. Gosse, Omphalos, p. 353)

A tese acima foi proposta pelo procronista P. H. Gosse em 1857. O escrito foi rebatido pelo biofilósofo Stephen Jay Gould pelo critério de inaveriguabilidade. Gould acredita ter Gosse ignorado o caráter essencial do raciocínio científico para expor sua teoria de Omphalos (clique aqui para ver a Tentativa de Desatar o Nó Geológico de Gosse). Ainda que uma especulação inaveriguável seja verdadeira, se ela não gera nenhuma hipótese a ser testada e nenhum modo de se obter indícios potenciais de refutação, ela é inútil.

Na visão de Gould a ciência é um processo para colocar à prova e rejeitar hipóteses, não um compêndio de certo conhecimento. Por essa razão teorias inaveriguáveis em princípio (praticamente o grande volume das teses metafísicas) não são parte da ciência. A ciência é fazer, não cogitar. Há, pois, conhecimentos que devem ser rejeitados como inúteis, ainda que não estejam errados; “na sua definição mais fundamental, a ciência é um modo produtivo de investigação, não uma lista de conclusões sedutoras. As conclusões são a consequência, não a essência”.

Gould acha importante fomentar que as teses cientificas não têm caráter eterno. Uma hipótese pode ser aceitada provisoriamente e ganhar confiança após muita compilação e escrutínio de dados. As melhores hipóteses científicas são, para ele, as generosas e expansivas, capazes de sugerir ampliações e implicações.

Há na ciência espaço para a especulação metafísica? Talvez um dia…

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Categoria: Biofilia, Biofilosofia, Filosofia, Filosofia da Ciência

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Tiago Damasceno disse:

    Seu texto é muito bom, pois trata de uma questão muito importante de nosso tempo: a questão da fundamentação da ciência.

    Minha reflexão é: O “cogito ergo sum” cartesiano necessariamente precede o “fazer” científico. O cientista deve existir primeiro, ser cientista, para depois fazer ciência. Não existe ciência sem os cientistas. Assim, temos a questão da fundamentação da ciência ou do conhecimento. Sem essa fundamentação não há como fazer ciência. A Filosofia é a maior responsável por trabalhar a fundamentação da Ciência, devido seu caráter propedêutico. E essa fundamentação não deve prescindir da abordagem da Metafísica nem da Ontologia. O livro do professor Manfredo Araújo de Oliveira, “Sobre a Fundamentação”, Ed. EDIPUCRS, 1993, esclarece melhor esse tema tão importante de nosso tempo.

    Excelente texto!

    Abraço.

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