A Multiplicação Indesejada

Imagem de Mana Neyestani

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Há uma multiplicação que ocorreu na época de Jesus de Nazaré, porém não veio para saciar a fome como a multiplicação dos pães e peixes. Este indesejado fato dura até nossos dias e cresce a cada dia com o intuito de aumentar o sofrimento humano.

Começou quando Jesus agonizava na cruz em sacrifício para que todos possam ser salvos, entretanto tal ato não libertou a humanidade. Pelo contrário, aprisionou o mundo em uma nova prisão. O sangue do transpassado ao invés de redimir, tingiu ainda mais de vermelho todo o orbe. Desde este tempo em diante, a doutrina do messias não traz o reino dos céus, mas sim o inferno.

O sofrimento tornou-se a nova religião, pois cada dor sofrida nesta vida transformou-se em condição para alcançar a vida eterna. O corpo que outrora era considerado reflexo do divino tornou-se fardo, cuidar do mesmo passou a ser visto como luxúria e pecado. Graças ao instinto verdugo de Paulo o reino de Deus foi lançado para o além, quanto à paz o próprio Cristo avisou os nefelibatas de que veio trazer a espada e não um nirvana. Então com a morte do bom pastor, cada um teve que carregar a própria parte da ominosa multiplicação. Surgem então os lobos sacerdotes que desejam tosquiar e comer as pobres ovelhas num grande banquete, cujo altar de sacrifício foi transladado de Jerusalém para Roma. O mediterrâneo nesse tempo não era suficiente para satisfazer o ímpeto dos praticantes de Moloque, além do mais, a malquista proliferação exigia mais ovelhas para carregar o pesado fardo. Então aparece a solução, ir para outras terras e escravizar os povos que lá habitam. Os europeus chegaram à América, África, Ásia e Oceania, para cada lugar levaram um livro em uma mão e a espada na outra. Estas eram as duas alternativas dos nativos, sucumbir ao gládio ou prostrar diante os colonizadores que pregavam o amor empunhando um azorrague nas mãos. Milhões foram ceifados e aqueles que acreditaram no quimérico reino post mortem perderam a terra na qual habitaram durante séculos.

Em nome da felicidade terrena o derramamento de sangue foi visto como redenção, como se o de Cristo não tivesse ocorrido para que ninguém continuasse com tal prática. Cruzadas foram empreendidas em nome de Deus, os europeus marchavam dizendo “Deus vult!” quando o mais autêntico seria dizer: “Homo vult!”. Conversões forçadas, repressão da sexualidade, autoflagelação, morte na fogueira, renúncia do corpo e da vida, Holocausto e outros sofrimentos ad infinitum. Um espetáculo “abadônico” que tosquia cada pessoa todos os dias.

Assim é a senda humana sem saber quando a paz chegará, sabendo apenas que o que aconteceu no Gólgota continuará até que o mundo se desfaça ou até que a humanidade faça a paz consigo mesma e com Deus. Infelizmente nenhum reino de paz desceu aos homens, a única coisa que veio até nós é a indesejada multiplicação da Cruz que insisti em repetir todos os dias.

*Neologismo criado por mim a partir da palavra abaddon (destruidor em hebraico). Assim, abadônico é algo destrutivo.

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Categoria: Ética e Cidadania, História

Mario Pereira Gomes

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de História (UFPE), tenho um grande interesse em estudar a humanidade e suas diversas facetas. Sou um ser mutável e busco não a perfeição, mas ser melhor a cada dia.

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