Indução e Falsificabilidade

Hume e Popper

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O positivismo foi uma corrente filosófica surgida na França no começo do século XIX como uma resposta fervente ao transcendentalismo idealista alemão e ao romantismo que se alastrava pelo mundo ocidental, sendo mais tarde revisado e ampliado pelo Círculo de Viena nos anos de 1922 a 1936, dando início ao positivismo lógico (ou apenas neopositivismo).

O principal pilar dessa nova doutrina foi o verificacionismo, como uma forma de demarcar o que era ciência e o que não era – o processo era o seguinte: um proposição só poderia ser “cognitivamente significativa” se pudesse passar por um processo finito para determinar conclusivamente sua verdade. Com isso, os neopositivistas acreditavam estar deixando afirmações metafísicas, teológicas e éticas de lado para se preocupar apenas com questões práticas de cunho científico.

Entretanto, buscando um filósofo epistemológico anterior ao Círculo de Viena, podemos encontrar dois problemas fundamentais do verificacionismo: o Problema da Indução e da Causalidade. David Hume foi um dos três principais empiristas britânicos, junto de John Locke e George Berkeley. Hume quis levar até a última instância o estudo sobre a experiência e como ela condiciona nossas conclusões sobre o mundo. Para começar, distinguiu o raciocínio em dois tipos: o demonstrativo (verdadeiro ou falso à priori, o raciocínio demonstrativo é aquele cuja negação envolve uma contradição lógica) e o provável (diz respeito a questões empíricas do mundo cuja verdade ou falsidade devem ser provadas através de um experimento). Qualquer afirmação que fuja dessa classificação, para Hume, seria desprovida de significado, já que seria impossível provar sua veracidade.

Postulando isso, nos perguntamos onde se encaixa nossa capacidade de inferir coisas a partir de evidência passada constante – a indução – e nossa competência de explicar fenômenos através da causalidade, os dois principais instrumentos da investigação positivista. Negar que a força que apliquei em uma bola de tênis foi a causa dela se mexer, ou que a mesma bola ira quicar e subir quando bater no chão, não caracteriza uma contradição lógica, então não pode ser um raciocínio demonstrativo, nem pode ser provado empiricamente, já que não podemos prever o futuro. Então, se nunca temos qualquer base racional para inferir causa e efeito nem para induzir fatos gerais a partir de fatos particulares, então que justificativa temos para usar isso em investigações científicas?

Foi Karl Popper, um filósofo da ciência nascido na Áustria e frequentador inassíduo do Círculo de Viena, que viajou até o século XVIII para buscar tais ideias e bater de frente com o neopositivismo que só ganhava força cada vez mais. Não tiveram como reagir, Popper demoliu toda a estrutura tão aparentemente sólida do positivismo lógico apenas aplicando golpes certeiros em suas bases. Porém, restou um dilema: se o método científico não é tão competente para nos falar sobre a verdade, como a ciência iria se sustentar agora? Seria deixada de lado como as “pseudo-ciências”? Foi então que uma reviravolta fez-se necessária.

Com o verificacionismo deslegitimado como instrumento de busca da verdade, ficou na mão de Popper oferecer um novo método para o mesmo fim. Ele então começou tentando derrubar talvez o maior paradigma de quem trabalha ou pensa sobre ciência: de que a mesma tem a pretensão de provar verdades sobre o mundo. Para Popper, só começaremos a compreender o processo científico quando pararmos de imaginar que uma boa teoria científica é aquela que podemos provar conclusivamente que seja verdadeira. Porque, com o raciocínio indutivo e a causalidade impossibilitados de dizerem algo sobre a realidade, nos resta talvez o raciocínio dedutivo – porém ele, por si só, não diz nada sobre o mundo, já que é semelhante a um programa de computador: as conclusões a que chegam são tão satisfatórias quanto as informações que recebem, ele só pode dizer “se isto, então aquilo”. E se queremos usar tais argumentos nas ciências, ainda temos de contar com a indução para nossas premissas, continuando assim com o antigo fardo.

Por essa razão, de acordo com Popper, não podemos provar que nossas teorias são verdadeiras. Além disso, o que faz uma teoria ser ciência não é o fato de que ela pode ser provada, mas de que pode ser testada na realidade e demonstrada como potencialmente falsa. Em outras palavras, uma teoria falseável não é uma teoria que é falsa, mas uma que só pode ser demonstrada como falsa por meio da observação. Com isso, as teorias impossíveis de ser testadas (metafísicas, teológicas e éticas) não fazem parte das ciências – isso não significa que não tenham valor, mas apenas não são objeto de estudo do método científico. As hipóteses que resistem às constantes tentativas de falsificação tornam-se cada vez mais fortes, entretanto até as mais sólidas hipóteses podem cair por terra com apenas um novo resultado que demonstre sua falsidade.

Thomas Kuhn, outro filósofo da ciência vivido no século XX, dizia que a ciência só muda de saltos e nunca gradualmente – foram necessários muitos anos para que o pós-positivismo viesse, com Popper, propondo uma nova ideia de método científico e da Ciências como um todo. As bases do positivismo foram preservadas: o realismo ontológico, a possibilidade e o desejo pela verdade objetiva, e o uso da metodologia experimental. Porém, os pós-positivistas acreditam que o conhecimento humano não é baseado no incontestável, em bases pétreas, mas em hipóteses que se tornam mais robustas por conta de todas as tentativas de falseabilidade superadas – fazendo com que o conhecimento humano seja inevitavelmente hipotético e que a afirmação de suas suposições seja assegurada, ou melhor, justificada por uma série de garantias, as quais podem ser modificadas ou descartadas no decorrer de mais investigações.

Porém, um nietzschiano convicto, lendo sobre essa “série de garantias”, perguntaria, com razão: o que prova que uma prova é uma boa prova? Essa questão, se levantada dentro de um laboratório, ainda deixa todos sem jeito.

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Categoria: Filosofia, Filosofia da Ciência

Bruno Abu Marrul

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de biologia e amante de sophia, vivendo numa eterna luta interna entre a razão científica e um irracionalismo necessário. Poeta nas horas vagas e crítico literário em meio período.

Comentários (4)

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  1. Elan Marinho Elan Marinho disse:

    Mero pragmatismo. Indução e causalidade, quando aplicados, funcionam. A água continua a ferver a 100 graus célsius e as marés continuam tendo relação com os movimentos lunares. A ciência, de certo modo, é maquiavélica. Os fins científicos justificam os meios filosoficamente incertos.

  2. Não é bem assim… a ciência não é algo fora de si mesma. Essa linha de pensamento não mudou somente o método, mas a Ciência como objeto e observador. A ciência é algo construído de métodos, e esses métodos têm de ser testados empírica e filosoficamente. Além do mais, tanto Popper como Hume estão meio ultrapassados ou obsoletos, porém essas questões, quando levantadas, foram de importante uso principalmente para quebrar com a ideia da ciência como um solo fixo construída durante toda a modernidade, de onde se dava perguntas e recebiam respostas certas e imutáveis.

    • Elan Marinho Elan Marinho disse:

      Por que Hume e Popper ficaram obsoletos? Ao meu ver, parece muito mais que ambos foram contornados (e não refutados), porque senão a ciência empacava e não saía do lugar.

  3. Que nada, cara… esse foi o sentido de surgir o pós-positivismo. Se liga no livro “O que é Ciências Afinal?”.

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