Carta n. 2

sobre Deus, o Logos e o Intelecto

03 de setembro de 2015

Caro amigo Ismar,

Refrescarei em tua memória aquilo que tu estavas a me dizer mais cedo. Reclamavas por, em pleno séc. XXI, conceber a ideia de ira de Deus. Mas de que falo senão de tabus linguísticos sobre Deus? Bem falei a ti não estar falando de força ditadora alguma, apenas dizia, conforme St. Agostinho. podermos entendê-la como um símbolo para falar do próprio obscurecimento da mente, das dores e culpas amontoadas em nosso coração como consequência da transgressão à Humanidade a desenvolve-se em nós. Daí tu me lanças a aflição de Kerouac.

Obrigado, Deus senhor dos homens, Anjo do Universo, Rei da luz e criador das trevas por vossos meios, que inexplorados, fariam dos homens dançarinos estúpidos de carne sem dor, mente sem alma, dedo sem nervo e pé sem terra; obrigado oh Deus, por recompensas pequenas de verdade e calor que derramastes nesse vaso desejoso, e obrigado pela confusão, erro, tristeza do horror, que se reproduz em vosso nome. Guardai-vos em Vós minha carne para a eternidade.

As pequenas recompensas de verdade que tu, através das palavras do tão admirável escritor, estás a falar são, penso eu, fruto da distância de nossos olhares diante de tudo aquilo que existe em meio ao aparece das coisas. Contempla antes através de teu homem interior o verbo, e assim verás. A distância do Homem para com a verdade começa a partir de sua percepção do Logos. Esse, a princípio, tão claro, guia todas as coisas que são e se movem; mas outrora foi velado pelo homem ele próprio. A seguir, todas estas, são as deturpações vulgares das psiquês semi-estéreis.

O conhecimento Natural, por exemplo, deu lugar a uma cosmologia ou fisicalismo cívico, fabuloso, mítico. Hoje nossa linguagem trabalha preguiçosa, se arrasta pelas deformidades linguísticas preguiçosas e preconceituosas – já te falei inúmeras vezes daquilo que chamo de “tabu linguístico”. Pensai! Somos descendentes de homens cujo erro foi esculpir o raciocínio. Essa razão reproduzida do Verbo paradoxalmente velou o intelecto. Até mesmo os pensamentos mais sublimes da Humanidade… olhai-os no pensamento deturpado de teu Povo. É preciso falar mais alguma coisa?

Analisa com precisão a saúde psicológica humana, não está ela demasiadamente corrompida? Em que Terra nos fizemos habitar? O Pecado (entenda-o por mal, erros, impulsos e hábitos viciosos) estendeu-se num castigo do obscurecimento da mente. Olha a própria ingestão de nosso principio vital, isto é, os alimentos e bebidas, cobertos de agrotóxicos e brutalidades; é dessas mazelas que nos nutrimos. Nos alimentamos daquilo que nos empodera, daquilo que nos dá forças para viver; e que poder estamos construindo?

Vê o que fizeram com nossa Terra, o que fizeram com nossos costumes; somente depois disso pensas em atacar as leis naturais, seja compreendendo-as como divinas ou não-divinas.

Poderiam elas habitar em algo além do Intelecto? Para mim, não faz grande diferença dizer que elas provém de Deus ou do Logos. Os medievais já bem expuseram: quem compreendeu Deus compreendeu o Logos, quem compreendeu o Logos compreendeu Deus. Que é Deus senão algo entre o Logos e o principio? Que é Deus senão algo indizível mas que aqui está?

Aqui, entre a tristeza e a esperança,

Natália.

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Categoria: Cartas, Cristianismo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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