Introdução ao Anarquismo Verde

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anarqO Anarquismo Verde busca viver em comunidades autônomas a partir da harmonia entre seus viventes e a biosfera. Por essa via critica a totalidade da civilização através de uma perspectiva que não é anarquista por si, mas pró-anarquia; trata-se de uma compreensão particular a fim de juntar indivíduos com o comum projeto de abolir as estruturas de controle, coerção, dominação, exploração e indiferença ocasionada pela tecnologia ociosa vigente e, indo além de uma mudança unicamente entre as relações de poder, propõe uma experiência integral entre ética, espiritualidade e comunitarismo.

Um ponto especifico a aproximar um anarquista verde dos anarquistas diversos é o estudo da coerção da civilização vigente. Particularmente o anarquismo verde sugere por este estudo uma diferente aplicação ecológica, não estatal, anti autoritária, sintetizando assim os modos de vida primitivos – sem ter por objetivo um retorno ao primitivismo, dado que este jamais foi “a arte ou ciência da organização” – com as mais avançadas formas da análise das relações de poder.

Enquanto ideologias como o Marxismo, o anarquismo clássico e o feminismo opõem-se a determinados aspectos da civilização, o anarquismo verde se opõe à própria civilização incorporando elementos de várias correntes de oposição – consciência ecológica, anti-autoritarismo anarquista, críticas feministas, ideias Situacionistas, teorias do zero-work, criticismo tecnológico – e recusa todas as formas de poder propondo assim uma alternativa mais harmônica. As outras formas de ideologias contra o poder central são vistas por um anarquista verde como reformistas, ainda que revolucionárias. O marxismo e o anarquismo clássico, por exemplo, querem tomar a civilização, remodelar as suas estruturas em algum grau e eliminar seus piores abusos e opressões. De qualquer maneira, 99% da vida na civilização se manteria sem mudança nos seus palcos futuros, precisamente porque os aspectos da civilização questionados por eles são mínimos. Ainda que ambos queiram abolir o capitalismo, e o anarquismo clássico abolindo o Estado também, sobretudo as pautas da vida não mudariam muito. Ainda que possam ter algumas mudanças nas relações sócio-econômicas, tais como o controle dos trabalhadores da indústria e conselhos de bairro em lugar de Estado, e inclusive uma preocupação ecológica, as pautas básicas manter-se-iam sem mudanças. O modelo ocidental de progresso seria meramente emendado e ainda atuaria como um ideal. A sociedade de massas continuaria com a maioria das pessoas trabalhando, vivendo em ambientes artificiais, tecnologizados, e sujeitos a formas de coerção e controle.

O anarquismo verde reconhece mudanças positivas no desenvolvimento cultural do homem de hoje, mas observa também que isso trouxe malefícios, como sua definição e administração por padrões interiorizados na ecravidão das máquinas e do sistema de civilização propriamente dito.

O jornal anarco-primitivista “Anarchy: A Journal of Desire Armed” (“Anarquia: Um diário do desejo armado”), imagina um futuro anarquista verde “radicalmente cooperativo & comunitário, ecológico e feminista, espontâneo e silvestre”, e isto será o mais próximo que possa conseguir de uma descrição. Não há ante-projeto, não há pautas prescritas, contudo é importante assinalar que o futuro imaginado não “é primitivo” em nenhum sentido estereotipado. Como o Fith State disse em 1979: “Vamo-nos antecipar aos críticos, que nos acusariam de quereremos ‘voltar às cavernas’ ou de um mero posicionamento teórico da nossa parte, por exemplo, desfrutando do conforto da civilização enquanto somos os seus críticos mais duros. Nós não colocamos a Idade de Pedra como um modelo da nossa Utopia [,] não estamos sugerindo uma volta à caça e coleta como um meio para a sobrevivência”. Como um corretivo para esta interpretação errônea tão comum, é importante assinalar que o futuro imaginado pelos anarquistas verdes é impreciso e sem antecedentes. Ainda que as culturas primitivas forneçam indícios de como será o futuro, e este futuro pode muito bem incorporar elementos derivados daquelas culturas, um mundo anarco-primitivista será provavelmente muito diferente das formas prévias de anarquia.

Eles que se opõem à tecnologia atual, mas há algum debate sobre como central é a tecnologia para a dominação na civilização. Uma distinção deve ser feita entre ferramentas (ou utensílios) e tecnologia. Perlman mostra que os primitivos desenvolvem toda classe de ferramentas e utensílios, mas não tecnologias: “Os objetos materiais, as canas e canoas, as ferramentas para cavar e paredes, eram coisas que um só indivíduo poderia fazer, ou eram coisas, como uma parede, que requer a cooperação de muitos numa ocasião particular… A maioria dos utensílios são antigos, e o [material] excedente (que supostamente estes utensílios fizeram possível) tem estado disponível desde o primeiro alvorecer, mas não deram lugar ao nascimento de instituições impessoais. As pessoas, os seres vivos, deixaram que surgissem ambos”. As ferramentas são criações numa escala pequena, localizada, os produtos ou bens de indivíduos ou de grupos pequenos em ocasiões específicas. Como tais, não deram origem a sistemas de controle e coerção. A tecnologia, por outro lado, é o produto de um longo processo, encadeando sistemas de extração, produção, distribuição e consumo, e tais sistemas adquirem a sua própria dinâmica e impulso. E como tais, pedem estruturas de controlo e obediência numa escala de massas – o que Perlman chama instituições impessoais. Quanto a quais formas tecnológicas seriam apropriadas num mundo anarquista verde, há um debate sobre esta questão. Reduzem-se aos seus elementos mais básicos, as discussões sobre o futuro devem ser sensíveis sobre o que é desejado socialmente e, portanto, isto determina qual tecnologia é possível. Todos desejam aquecimento central, vasos sanitários e luz eléctrica, mas não à custa da humanidade.

O anarquismo verde visa sobretudo curar – curar as fendas abertas dentro dos indivíduos, entre as pessoas, e entre as pessoas e a Natureza, as fendas que se abriram através da civilização, através do poder, incluindo o Estado, o Capital e a Tecnologia. O filósofo alemão Nietzsche disse que a dor, e a maneira como é tratada, teria que estar no centro de qualquer sociedade livre, e no que diz respeito a isto, ele está certo. Os indivíduos, as comunidades e a própria Terra foram mutilados num grau ou em outro pelas relações de poder características de civilização. As pessoas foram mutiladas psicologicamente, mas também fisicamente agredidas por males e doenças. Isto não é sugerir que o Anarquismo Verde possa abolir a dor, os males e a doença. De qualquer maneira, as investigações revelaram que muitas doenças são os resultados das condições de vida civilizada, e que se estas condições fossem abolidas, então certos tipos de dor, males e doenças desapareceriam.

E para os que ficassem, um mundo que situa a dor como o seu centro, será vigoroso no seu empenho em acalmá-lo, encontrando maneiras de sanar os males e doenças. Neste sentido, o Anarquismo Verde está muito implicado com a medicina. De qualquer jeito, a alta-tecnologia alienadora, a forma fármaco-centrada da medicina praticada no Ocidente não é a única forma de medicina possível. A questão de em que consistirá a medicina num futuro anarquista verde depende no que é o possível e em qual é o desejo das pessoas, sem comprometer o modo de vida dos indivíduos livres em comunidades livres centradas ecologicamente. Como em qualquer outra pergunta, não há respostas dogmáticas a esta questão.

Não há regras rígidas aqui ou anteprojeto de como se estabeleceria um futuro anarquista verde. A resposta fácil – vista por alguém como uma saída fácil – é que as forma de luta emergem no curso da insurgência. Isto é verdade, mas não é necessariamente de muita ajuda. O fato é que o anarquismo verde não é uma ideologia que procura poder. Não procura capturar o Estado, tomar as fábricas, criar organizações políticas, ou governar as pessoas. Pelo contrário, quer que as pessoas passem a ser indivíduos livres vivendo em comunidades livres que são interdependentes umas de outras e com a biosfera que habitam. Isto requer, então, uma total transformação, uma transformação da identidade, dos modos de vida, das formas de ser, e das formas de comunicação. Isto quer dizer que, as comprovadas intenções das ideologias que procuram o poder, não são relevantes para o projeto anarquista verde, que procura a sua abolição. Portanto precisam ser desenvolvidas novas formas de ser e de atuar, formas apropriadas para e proporcionais ao projeto anarquista verde.


Um escrito similar a este foi redigido originalmente por John Moore e publicado em 2011 no sitio AnarcoPrimitivismo com o título “Uma Introdução Ao Primitivismo”. A versão publicada aqui é uma readaptação desse escrito.

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Categoria: Ecologia, Política

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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