Carta n. 1

a um amigo suicida

30 de agosto de 2015

Meu amigo,

Um sopro sem vida assustou meu coração quando, em nossa última conversa, falaste do nascimento de teu sofrimento já na gênese de tua existência; “como é possível a alguém sofrer desde sempre?”, perguntaste. Tomei as tuas dores para mim como faz um amigo devoto de amor, ardeu intimamente meu corpo quando disseste somente te ser possível dormir com a ideia do suicídio, isso afirmaste inúmeras vezes; “quero morrer, não quero sentir dor!”. Seria a vida digna de ser vivida?

Preciso suspirar por um instante para escrever, a tragédia igualmente me invade quando reflito de tal forma. A começar pela janela vista agora pelos meus olhos enquanto escrevo; seria muito insensível de minha parte não reconhecer a dor agora visível. Diante da cidade cinza, escrevo a ti cercada por prédios encaixotados e construídos sem preocupação estética evidente, redijo sob uma cidade morta. Quando vemos a arquitetura para além de seus valimentos pragmáticos, o que enxergamos? Nossa cidade é um reflexo de nossa alma! Mortos-vivos como estamos, as ruas estão cadavéricas. Isso realmente salienta o pânico ao sair de casa, a dor de ver tantas luzes iluminando rostos tristes, semáforos regendo um trânsito caótico, aglomerados de prédios retangulares… Ah, meu amigo! Se tu reformulares o passado verás que outrora até os postes eram belamente confeccionados, detalhe por detalhe; o mesmo falamos sobre as calçadas, ruelas, janelas, qualquer forma de arquitetura. Digo isso não por utopizar o que se passou, mas se observarmos registros fotográficos e resquícios arquitetônicos veremos uma transcorrência histórica mais vívida. Onde hoje quase não existe atributo artístico na cidade, um dia houve simetria projetada. O distanciamento com o belo nos mortifica e àquilo que é reflexo de nosso momento histórico contamina nossa alma e reverbera negritude na mente.

Quero poder te fazer perceber como nasce em ti – e certamente em muitos homens – a vontade de morrer devido a aspectos exteriores. Alguns animais por exemplo tiram a própria vida nos momentos de superpopulação; não notas estarmos vivendo este momento? A altíssima concorrência no próprio mercado de trabalho nos faz esquecer projetos de vida pessoais. Isso tudo cria uma desesperança contínua, uma forma a te puxar aos chãos frios e indiferentes com tuas lágrimas. Nossa cidade desarmônica encontra-se coberta de pessoas em espaços cada vez menores. Isso e muitos outros fatores inconscientemente nos arrasta para a angústia.

Ontem um conhecido cristão muitíssimo inteligente me disse que a religião nasce da dor. O budismo, por exemplo, tem pelas quatro nobres verdades a verdade do sofrimento; verdade da origem do sofrimento; verdade da cessação do sofrimento; verdade do caminho que leva à cessação do sofrimento. Os budistas partem d’um princípio negativista de que esta vida é cheia de sofrimento, embora para eles este é causado pelo apego à ilusão e podemos nos libertar do sofrimento. A filosofia, por sua vez, é defendida por alguns como uma sapiência originada pela angústia. Concordo contigo e grande parte destes sábios que esta forma de mundo é sofrimento. Mesmo o prazer sensível mais parece ser um alívio do peso de existir do que algo de realmente maravilhoso. Claro que é agradável comer algo saboroso, sentir um bom cheiro ou mesmo ter um êxtase carnal; mas não nos eleva verdadeiramente (tais afecções pressupõem a dor). Bom, voltando ao meu conhecido cristão; contou-me ele ter chegado num momento da vida de tanto sofrimento que, para não mais sofrer, ou enveredava pelo lado religioso, ou seja, acreditava na transcendência e imanência; ou a vida pareceria um absurdo restando apenas viver eternamente por uma superfície caótica ou suicidar-se.

Eu, por outro lado, não creio ser a religião em estrito senso a única forma de bem viver. Se a vida for um absurdo, há algo prévio que necessito dizer-te. Neste momento só peço para que não caminhes por onde teus pés não sejam capazes de pisar. Só devemos percorrer a escuridão quando estivermos prontos para vê-la não enquanto algo concreto, mas como ausência das verdadeiras substâncias. Que quero dizer com isso? Quando caminhamos por entre as trevas elas nos trazem um vazio junto ao peito não por serem cheias, mas por serem ocas; e é exatamente por isso que não a suportamos, porque estamos distantes do verdadeiro. O próprio sofrimento é falso, um devaneio vão. Será que tu estás pronto para a escuridão? Deves te matar? Se ousares, ousas; mas te perguntas antes se é válido eliminar uma ferida se ferindo, trocar uma dor por outra dor, um vício por outro vício, uma mágoa por outra mágoa… Queres mesmo te magoar?

Eu tenho esperanças de luz. Antes de chegar ao lado pessoal quero falar do intelectual. Antigamente os gregos separavam a razão do intelecto. O intelecto estaria para a razão como a eternidade para o tempo. A razão é àquilo propriamente humano, e ela só pode ser verdadeira quando se conhece a sua essência. Alguns negam o poder da ciência de conhecer através da inteligência o ser da verdade e enveredam pelo lado da arte, acreditando no poder dos sentidos em perceber o ser das coisas. Mas há quem negue tanto a ciência quanto os sentidos; estes negam-se a qualquer forma de conhecimento, deparam-se profundamente com o absurdo. Mas há quem diga que a verdade habita no interior do ente, naquilo que se cala. O intelecto seria exatamente essa verdade ocasionada no silêncio. Por exemplo, os animais vivendo em perfeita condição natural, embora desprovidos de razão, não são desprovidos de intelecto, pois obedecem perfeitamente as leis naturais, sabem instintivamente o que devem fazer. Acontece que os homens de alguma forma desenvolveram a razão e, quando não a tem em concordância com o intelecto, manipulam as leis se distanciando do intelecto de tal forma que deliberam pelo racional acreditando na liberdade, mas paradoxalmente quanto mais livres são mais escravos de sua própria razão nada intelectual se tornam. Esse é o problema de nosso século e as crianças, já numa civilização corrompida, levam durante toda a vida as impurezas de tais concepções. Nossa relação com o meio ambiente, a política, economia, sociedade, psiquê, etc. mostra a doença de nosso inteleto; e chegar a tal desarmonia nos leva a pensar em tirar a própria vida.

Dizer-te-ei uma coisa: podemos então crer numa melhora histórica, uma luta para construir leis civis em harmonia com as leis primeiras; ou devemos tentar nos aproximar de nós mesmos por um viés íntimo ou religioso – e quem sabe todas essas coisas numa só. Crê que hás de restabelecer tua saúde. Por dias a infelicidade tentava prender mesmo a mim, até que a dor me obrigou a refletir sobre tais questões. Podemos transformar a angústia em coisas positivas; começas a ver o habitat do problema no mal uso da razão tanto d’um panorama histórico – ao qual inconscientemente herdamos desde o nascimento – quanto, como consequência, d’um aspecto perpetuado desde a primeira infância. Garanto a ti que tentar conduzir-se ao intelecto pode ser uma perfeita solução.

Contarei ainda uma experiência pessoal. Além da angústia fruto da sociedade pós-moderna e de sua consequência (má deliberação racional), a solidão me era presente ainda que andasse cercada de pessoas. Jamais havia conhecido um amigo verdadeiro, coisa que me levou a afundar-me ainda mais numa psiquê coberta de vícios. Tais pessoas não me acompanhavam verdadeiramente, porém eu nutria um medo de afastar-me para não manter-me em solidão; até decidir necessariamente afastar-me; preferi a solidão a estabelecer relações com amigos insidiosos. Nesse tempo pude reconstruir-me e melhor perceber o mundo. Foi quando conheci duas pessoas maravilhosas. Aprendi que um único amigo é capaz de ensinar valores fundamentais tal como a ética e as próprias afecções que nascem da amizade. Relações naturais são aprendizados de virtudes, não de vícios.

– Há médicos que dizem: “tu és depressivo ou estás cercado de indivíduos deprimidos?”. O que estás a aprender?

Somente hoje aprendi a carregar em meus braços um abraço verdadeiro. Agradeço a esses meus amigos por terem me ensinado o que é transbordar em amizade. Agora eu transbordo, e assim gostaria de te acolher. Teria tanto a te falar… aprendizados, esperanças, desenvolvimentos. Mas tudo isso cabe em nosso próximo encontro.

Abre-te para o verdadeiro! Tenho muito mais a te falar, mas posso calar-me – falar muito às vezes é falar em vão, além de que receio importunar-te ainda mais com um discurso. Aguardo ver teu rosto novamente e poder abraçar-te da forma que sou

Sua amiga Natália.

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Categoria: Artes e Letras, Cartas

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (11)

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  1. jorge carvalho disse:

    Lindo texto, lembrou-me de vários diálogos e estruturas que montei para continuar vivo até então!

  2. Leandro Moura Leandro Moura disse:

    Lindo texto Natália! Tanto em escrita quanto em conteúdo. Abordando temas tão importantes de forma artística sem se desprender daquilo que o leva a sua criação. É uma carta realmente importante a ser lida, principalmente por aqueles que não conseguem se harmonizar com a vida.

    Um grande abraço!

  3. Gabriel Borges disse:

    Essa ideia da razão e do intelecto me esclarece muitos pensamentos, ainda num tinha esbarrado com ela. Como dito, o sofrimento vai funcionando com a base da existência, pois ele reside no que é irreal. Jogando a luz da consciência sobre todas as sombras e projeções talvez seja possível um dia sem qualquer esforço enxergar a natureza do universo como ela é, mas pra isso é preciso encarar o vazio, sem medo e perceber no silêncio o fim das dúvidas projetadas pela mente.

  4. Ismar Dias disse:

    Um dos parâmetros mais geniais das artes está incluso em seu texto, digo isso sem achismo, afirmo, assino embaixo e defendo quem questionar o fato de você transcender seu texto a outras pessoas. Esse relâmpago de interpretações faz com que as pessoas, pressuposto que leiam teu texto, se sintam abraçadas, e eu senti o seu abraço forte, sincero e até necessário.

    Pode até parecer uma formula de alguma frase simbolista, mas você consegue abraçar com palavras (abraçar + palavras), cativar com sinceridade, fazer-se presente no quarto escuro que você desenhou pra exemplificar.

    Alguns espíritos bárbaros podem argumentar, por falta de reflexão ou empatia, que o suicida é uma pessoa fraca, mas eu não consigo ver fraqueza na coragem de tirar a própria vida. Entretanto, concordo que essa coragem tem de ser desestimulada, afinal, como disse Sêneca: “De que adianta lamentar as ciladas da vida? Toda ela é feita de aflições.”, a para com as frustrações, aprendi que o que não pode ser modificado tem de ser suportado.

    E como suportar melhor, se não antes, suportar junto? E estar junto não implica em caminhar junto, em jantar junto, em dormir junto, nada disso! Muitas pessoas estão perto de mim, no entanto, não estão juntas a mim. Estar junto é algo mais parecido com oque está explicito em teu texto, está relacionado a aprendizagem de virtudes, a abraçar! Por Deus! abraçar! A abraçar de forma sincera e verdadeira, seja uma causa, uma ideia ou, melhor ainda, uma pessoa.

    E é justamente por isso que eu me despeço dessa forma;

    Abraços!

    Mas não é só ‘Abraços’, é ABRAÇOS MESMO! (rsrs)

    ABRAÇOS!

    Do seu amigo Ismar.

  5. Elan Marinho Elan Marinho disse:

    Isso faria sentido, caso a morte fosse um estado de consciência tão pleno quanto a vida. Só que não há chão para pisar. Não há escuridão para enxergar. Há o vazio de sentido. Que não é feliz, mas que também não é triste. É um estado de estagnação da potência de agir. O zero absoluto dos afetos. Se suicidar pode ser trocar um estado de perda por um de não-perda e não-ganho. A morte é a certeza da indiferença em relação ao mundo. Se a morte for um estado negativo de existência, então ainda não é morte. Na melhor das hipóteses, é um paradoxo. Porque, na morte, a consciência se finda. Afinal, é isso que se busca com o suicídio: o colapso da consciência. Não há mágoa, nem arrependimento. Por isso o suicídio permanece enquanto opção para uma vida infeliz em que não há expectativa de melhora.

    • Eu tenho uma dúvida a bastante tempo, e pareces tê-la resolvido, podes me dizer como, na morte a consciência se finda?

    • Elan Marinho Elan Marinho disse:

      Na morte a consciência se finda porque defino a morte como um estado de inconsciência absoluta. Em termos kantianos, é um juízo analítico apriori.

    • E também porque, se você for materialista – como eu sou -, porque a consciência é fruto de processos físico-químicos que estancam com a morte indivíduo.

    • Elan Marinho Elan Marinho disse:

      Bruno, eu tendo a acreditar numa consciência totalmente físico-química, mas não descarto o cogitans cartesiano. Se fosse uma aposta, eu apostaria que ela se mantém somente por laços físico-químicos, mas ainda acho que qualquer afirmação sobre seus fundamentos é perigosa – o que inclui essa minha afirmação de que a consciência pode se findar. Entretanto, se isso (ela se findando) é possível, então a morte (e, por conseguinte, o suicídio) também é.

    • E o conhecimento é isso, afinal… uma aposta.

  6. Tatiane D'Albuquerque Tatiane D'Albuquerque disse:

    Muito feliz com esta leitura!
    Eu realmente consegui observar uma nova visão, que parte dessa tua transição deveras sensível, Naty.
    Lucidou-me e apontou-me alguns pensamentos bem interessantes, tais como nesta passagem: “– Há médicos que dizem: “tu és depressivo ou estás cercado de indivíduos deprimidos?”. O que estás a aprender?”. Isso é muito importante, pois cada vez mais me deparo com jovens que passam por essas angustias advindas d’uma era pós-moderna que acabam por buscar, de modo consciente ou não, uma volta, um retrocesso à um passado longínquo como forma de se libertar desse presente, nunca cessando a insatisfação de viver. Continuam presos no passado e num futuro incerto, sob pressão de precisar alcançar êxito. Então, seria melhor apagar essa consciência do sofrer e experimentar o desconhecido(morte) ou continuar procurando um meio de se libertar por meio da verdade(qual seria)?
    Também retomar a filosofia budista com a ideia de sofrimento per si foi bastante conveniente.
    Espero por mais textos sinceros assim,

    Abraços da sua amiga!

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