O Manifesto dos Instintos – Defesa ao Irracionalismo

| 27/08/2015 | 0 Comentários
Num pretérito imperfeito, o messias pôs a si e ao mundo no centro de tudo e, com isso, os seus devotos em guerra contra tudo o que, de algum modo, era favorável à corrupção de sua santa palavra. Ingenuidade de nosso salvador: seu discurso já não era o mesmo há muito tempo. Nesses negros dias, a liberdade era perdoada com fogo, tortura e dor. Havia pouco espaço para o pensamento. O “infinito” das paixões estava na mão de poucos e, dessa forma, era bastante limitado – transformavam-no, de quando em quando, em filho do “desejo de sacrifício”. A concretização do fascínio, da loucura, detinha-se em uma negação da vida através de rituais mesquinhos, de leituras de um único escrito e de cânticos de uma filosofia genérica do além que, para a santa lógica, significava nada – aliás, foram poucos os dizeres desse tempo que mostraram-se verdadeiramente significativos diante dela.
Até que, ao meio-dia, inesperadamente, astros e estrelas, suspensos no espaço, em círculos de arcanjos, transmutaram-se em pontos, vetores, afélios, periélios, raios, variações de tempo, de espaço e de aceleração ao vislumbrarem um dos maiores divisores d’água da história do pensamento: a morte do divino e, consequentemente, o (re-)nascimento do espírito científico em toda dita mente “moderna”. Assim, ainda ignorante dos efeitos dessa expressiva “tragédia”, o homem continuou a matematizar o movimento, a descrever – quiçá prescrever – de maneira categórica a dança dos céus em teoremas; todavia, com pés imergidos no cadáver do insepulto. A evolução das análises fez, por conseguinte, o mundo sintetizar-se em interações entre corpos que resumiam-se integralmente através de abstrações linguístico-numéricas: o homem fez da carne, o verbo. Logo, mais um rebento da história: o idealismo alemão.
O filósofo começou a amputar as próprias pernas a partir desse momento. Iniciou, então, os estudos de sua própria mente, de suas próprias limitações e de até onde a razão poderia ir no caminho para a verdade. As pernas regeneraram-se, mas já eram outras: seu andar agora era descompassado. A partir disso, gerou-se paulatinamente um novo filho do mundo, o além-racional, o sapiente de sua própria ignorância, a rã pensante que conhece a verdade ao ponto de entender que, com efeito, nada é conhecido de fato. Esse é o ignorante assumido, o pessimista, o mais realista dentre os pensadores ou, em uma palavra, o irracionalista.
Desse modo, o pensamento a ser demonstrado, em síntese, é avançar um degrau a mais de onde os cartesianos levaram a prática do ‘amor ao saber’: elevar o estudo quanto ao mundo a um nível nunca antes alcançado, assumir que não temos a capacidade de conhecer verdadeiramente e, por extensão, encarar a mentira como condição vital. Entretanto, sem retroceder às ilusões ascéticas para, em seguida, cair em o abismo dos ilogismos, das falácias e dos axiomas que de certo estão presentes em toda conhecida e viva espécie de religare – o contato com o ópio pós-socrático.
Digo isso porque a estrutura mental de um moderno pode ser confundida com a de um religioso facilmente e porque a razão desvaloriza-se de imediato quando aceita como ato de fé. Sejamos sinceros: ela é ato de fé! Cremos de maneira natural e sem muita complicação que os nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade. Aceitamos por aceitar. Cremos por crer. Isso é o que, senão o mais puro exercício da fé? Mas nós, filósofos, propagadores da mentira, tecelões do véu que cobre os impenetráveis véus da verdade, temos outra opção? E, no entanto, apreendemos o mundo através de nossos instintos até quanto demonizamos o que nos soa desarmônico. Afinal, demonizá-lo é render-se aos instintos a partir de uma negação destes. É ser humano, demasiadamente humano. Isto posto, conclui-se que fazer filosofia, tal como fazer arte, sempre foi e sempre será exercer as vontades primitivas e que negar esse fato é produto de uma doença que se dissemina há séculos chamada ‘humanismo’. Natura non facit saltum. Eis um princípio que deveria ser aceito por tudo aquilo que almeja elucidar a despeito da natureza humana.
Afirmamos nós, os verdadeiros racionais, que tão-somente há o inexato. A linguagem matemática procede, pois, como fábrica de mentiras. Mais verdadeira que ela parecem ser as palavras que não tentam ser exatas, que abrangem mais particulares ‘verdades’ e menos particularidades, que não são especificistas quanto a medida e a quantidade que se simplifica (falsifica) para tornar-se mentira na tentativa de tornar-se inteligível e manipulável. É de ilusão, contudo, de que precisamos para voar, porque é a ilusão do exato que move as engrenagens, que faz nosso mundo girar para além das perspectivas, para ‘além do bem e do mal’. Ensaia-se, sendo assim, uma peça de dois atos: o primeiro, a apreensão do fato de que nem a matemática é capaz de conceber verdades exatas; o segundo, o entender de que ela é a mais elevada forma de abstração das verdades. Eis a peça dos oximoros!
A menos que estejamos loucos, devemos admitir que, em alguma medida, possuímos a crença de que a razão tem a capacidade de legitimar que os olhos que veem este céu e que as mãos que tocam essa terra são de fato olhos-de-ver-céu e mãos-de-tocar-terra ainda que não possuamos uma explicação para isso embasada em um método não-racional. Ora, a justificação de o porquê de algum método ser o mais elevado, quando feita por ele mesmo, é ilegítima filosoficamente: o sim existe pelo não, a mentira pela verdade e a ciência pela filosofia – estaria, pois, a razão a ser justificada pelos afetos? Assim como os antigos racionais com os pés afundados na insepulta deidade, estaríamos nós, irracionais, com os pés afundados no racionalismo falecido? Isso é o que questiona a esfinge. Mas não precipite-se em responder: de certo, já fomos devorados.
Façamos, a todo caso, Apolo e Dionísio dizerem, em coro, um grande sim à vida até que se conceba uma terceira divindade, até que todo analista do mundo possua em si algum tipo de mescla dessa dicotomia. Não mais hipocrisia! Admitamos em aberto as inconsistências de alguns dos pilares de algumas de nossas verdades, mesmo que isso custe a extinção das mesmas e, por conseguinte, o abalo dos pilares de outras – isso é a legítima busca pela verdade. Aponto aqui, desse modo, a hipocrisia como a forma mais intensa de degeneração intelectual e ética. Não o racionalista: condeno aqui o hipócrita – o da espécie que não admite seu adjetivo –, o desonesto, o párea dentre os arqueólogos da verdade, o que faz-te crer que possui um método impecável e ferramentas do conhecimento em constante estado de manutenção: o ilusionista da retórica.
Não pode-se negar, contudo, que a razão é o método máximo (quiçá o único) em filosofia. Ela encaminha-nos, enquanto realistas, à condição de des-razão, (stricto sensu) religiosa – apesar de, em um momento anterior, nos levar à crença de que chegamos a nossas verdades através de uma dialética pura e fria, sem axiomas, sem injustificações de juízos, sem corrupções regidas pelos instintos e pelo que em nós é inconsciente. A razão no caminho da irrazão, porquanto a última nos leva a afirmação da lógica enquanto método supremo – nada de lógica pura, no entanto: encaremos também as limitações da esfera pensante e da sensível; aceitemos o mundo enquanto representação, enquanto perspectivas, como máscaras infinitas sobre a face do real, da vontade, do ‘mundo em si’.
Entretanto, a lógica – o ato verdadeiramente racional –, em seu mais alto grau, nos leva à algum ceticismo – em meu caso, o pirrônico ou, na linguagem dos filósofos, ‘de onnibus dubitandum’ –, à duvidar da capacidade da mente de chegar ao númeno, ao mundo das ideias, à tudo aquilo que pode ser chamado ‘verdade objetiva’ – aliás, quando muito, questiona-se até a sua existência; o próprio conceito de existência, sempre aceito de modo tão espontâneo; e, mais raramente, o conceito de ‘conceito’.
Todo racional – se já não o é – tem o potencial de ser ouroboros, de engolir a si mesmo para transmutar-se em irracional. A razão pura é autodestrutiva quando sustentada por si mesma. Ela morre, mas renasce realista, reconhecendo as imperfeições da mente e o que deve significar de fato a busca pela verdade. Logo, é benéfico o exercício do devir de paixões e de verdades para o amadurecimento de todo (bom) pensador, porque é assim que nasce a rã pensante.
Se estamos presos às nossas perspectivas, ao nosso ‘mundo interior’, segue-se disso, ao que parece, que a única saída para nós é o debruçar-se em o pragmatismo para a verdade, à aceitação dos instintos, da mentira enquanto verdade, à tentativa de mesclar caminhos (ditos) diametralmente opostos: o ceticismo com a fé; a razão com os instintos; o ser com o parecer ser; o pensado com o sentido. Aliás, una todas essas antíteses numa caldeira da mais fervente dialética, coe e recoe excessivamente para a retirada de práticas sofísticas; portanto, não merecedoras de nosso respeito. Basta. Está pronto o periódico elixir do verdadeiro amante da philo sophia, de tudo aquilo que pode ser nomeado pensador (pós-)pós-moderno por excelência.
O que espera, pois, caro manifestante dos afetos em potencial? Levanta! Alinha teu corpo porque logo mais será desalinhado! Apeteço-te, ou melhor, ordeno-te que beba desse cálice! Se o fizer, asseguro-te de que estará, tal como eu, em perpétua condição de delírio filosófico. Se me indaga, todavia, quanto ao que fará com delírio quando no momento está à procura das mais puras verdades, então eis a réplica: é do delírio que nascem as maiores e as únicas verdades.

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Categoria: Filosofia

Elan Marinho

Sobre o(a) Autor(a) ()

Faço Filosofia na PUC-Rio (2016). Além de escrever para o FiloVida, também sou colaborador no site Universo Racionalista.

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