Arte e Psicanálise: aspectos psicossexuais do amor em da Vinci

I análise freudiana sobre o artista-pesquisador

Auto-retrato de Leonardo.

Auto-retrato de Leonardo.

As diversas expressões humanas tentam representar a realidade externa e interna, seja na arte, filosofia, religião ou ciência. Há pensadores que defendem um único método para a significação do mundo, outros, princípios particulares. De uma forma ou de outra em vários momentos os saberes se aproximam, como aqui será abordado o encontro da Psicanálise com a Arte. Essa última é expressão dos pensamentos, valores, emoções e sensibilidade, do inconsciente. Tais sentimentos, por fazerem parte da realidade psíquica do ser humano, tornam-se objeto de investigação psicanalítica. Sigmund Freud, reconhecido como o pai da psicanálise, nesse ponto é conhecido principalmente por seu escrito de 1910, Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância, obra que será aqui abordada.

Wilhelm Fliess muito antes havia suposto uma relação entre a bilateralidade e a bissexualidade de Leonardo (1452-1519), razão a despertar o interesse de Freud pelo artista, pondo entretanto o juízo de Fliess em dúvida; “Leonardo, que talvez fosse o mais famoso canhoto da história, jamais tivera um caso de amor” (Freud, 1950 a, Carta 98). Em 1909 Freud relata em carta a Carl Gustav Jung estar tratando um paciente com a mesma constituição de Leonardo exceto por um aspecto: não possuía o seu gênio. Relatando a espera por um livro sobre a juventude de da Vinci, a monografia de Scognamiglio, Freud o estudou e acabou por reconstruir numa obra a vida emotiva de Leonardo, desde seus impulsos artísticos e científicos à  sua história psicossexual. Essa análise freudiana acaba por ser também importante no estudo da natureza da mente do artista, um tipo especial de homossexualidade e, apresentado pela primeira vez na história psicanalítica, o conceito de narcisismo.

Leonardo, um dos maiores homens da renascença italiana, “era um gênio universal ‘cujos traços se podia apenas esboçar mas nunca definir’. Durante sua época, sua influência decisiva foi sobre a pintura, cabendo a nós reconhecer a grandeza do homem de ciências naturais (e engenheiro) que se combinava nele com o artista”, foi um pesquisador que “nunca libertou totalmente o artista durante todo o curso de seu desenvolvimento”. Freud o descreve como homem belo: alto e bem proporcionado, com feições agradáveis e invulgar força física; encantador, de fácil eloquência, alegre e amável. Sua atitude em face da sua arte foi para alguns incompreensível: de gigantesco talento, aplicava seu tempo a dissecar cadáveres, construir máquinas voadores e estudar a nutrição das plantas; pintando por isso cada vez menos e deixando a maioria do que começara inacabado.

Estudo de Leonardo para a Santa Ceia.

Estudo de Leonardo para a Santa Ceia.

Consta ter Leonardo levado três anos para pintar a Última Ceia, passava muitas vezes dias sem tocar no trabalho ou horas diante de sua obra, somente analisando-a. Sua vagareza mostra “que em certa época de sua vida quase deixou de ser artista” (Pater, 1873), acabou por não pintar a Última Ceia em afresco, “que exigia trabalho rápido na aplicação das tintas na superfície ainda úmida e, por isso, preferiu usar tintas a óleo, de secagem mais lenta, que lhe permitiam protelar o término da obra de acordo com seu humor e lazer”.

O caráter de Leonardo, como homem, revelava outros traços incomuns e outras contradições aparentes. Uma certa ociosidade e indiferença são evidentes em sua personalidade. Numa época em que todos procuravam conseguir um campo amplo onde desenvolver suas atividade (…) Leonardo se fazia notar pela sua pacatez e pela aversão a qualquer antagonismo ou controvérsia. Era gentil e amável para com todos; recusava-se, dizem, a comer carne por não achar justo matar animais; gostava sobretudo de comprar pássaros no mercado para soltá-los depois. Condenava a guerra e o derramamento de sangue e descrevia o homem como sendo não tanto o rei do mundo animal, e sim a pior das bestas selvagens. Essa feminina delicadeza, no entanto, não impedia que acompanhasse os criminosos a caminho da execução a fim de estudar-lhes as feições distorcidas pelo medo e desenhá-las em seus cadernos. Nem tampouco deixou de desenhar as mais cruéis armas de agressão e de pertencer ao serviço de Cesare Borgia como chefe da engenharia militar. Muitas vezes parecia indiferente ao bem e ao mal ou parecia deixar-se guiar por normas diferentes.

O coitooo

O Coito e Desenho evidenciando os dois canais no pênis.

Quando a sua atividade sexual Freud alegou ter Leonardo friamente rejeitado a sexualidade – “coisa que não se deveria esperar de um artista e pintor da beleza feminina”. Diz ainda que “tão resolutamente se abstém de todo tema sexual que dá a impressão de que somente Eros, o preservador de todas as coisas vivas, fosse assunto indigno para o pesquisador em busca da sabedoria”. Muito frequentemente os artistas dão vazão a suas fantasias por meio de desenhos eróticos, mas até isso em Leonardo está unicamente presente em alguns esboços anatômicos do aparelho genital interno feminino, da posição do embrião no útero, etc. Rudolf Reitler (1917) chega a considerar que em O Coito (1492) de Leonardo o instinto e pesquisa falhou, “obviamente, devido à sua repressão sexual”. Da Vinci retratou o órgão sexual masculino representado inteiro, enquanto nessa obra o da mulher aparece somente em parte. “Os seios da mulher mostram dois defeitos. O primeiro é, sem dúvida, um defeito artístico pois seus traços transmitem a impressão de serem flácidos e de penderem de modo desagradável. O segundo é anatômico, pois Leonardo, o pesquisador, se havia sentido coibido, pelo seu afastamento da sexualidade, de alguma vez examinar de perto os mamilos de qualquer mulher em período de amamentação”, narra Reitler e Freud intercala:

É duvidoso que Leonardo tenha jamais abraçado uma mulher com paixão; ou tenha tido alguma amizade intelectual íntima com uma mulher, como a de Miguel Ângelo com Vittoria Colonna. Quando ainda aprendiz e vivendo em casa de seu mestre Verrocchio, foi-lhe feita a alguns outros jovens uma acusão de práticas homossexuais proibidas, que terminou em absolvição. Parece que a origem desta acusação foi o fato de ter usado um menino de má fama como modelo. Quando veio a tornar-se mestre, cercou-se de belos razes e meninos que tomavam como alunos (…) Sem compartilhar a certeza de seus biógrafos modernos, que naturalmente rejeitam a possibilidade da existência de relações sexuais entre ele e seus alunos, considerando-a um insulto grosseiro ao grande homem, achamos muito mais provável que as relações afetuosas de Leonardo para com os jovens que – como era costume entre aprendizes da época – compartilhavam sua vida, não chegassem até relações sexuais. E ainda mais, uma grande atividade sexual não condizia muito com ele.

Para Freud quem melhor, até então, compreendeu Leonardo foi Edmondo Salmi (1908, 46): “O seu insaciável desejo de tudo compreender em seu redor e de pesquisar com atitude de fria superioridade o segredo mais profundo de toda a perfeição condenou sua obra a permanecer para sempre inacabada”.  Factualmente Leonardo dizia: “Não se tem o direito de amar ou odiar qualquer coisa da qual não se tenha conhecimento profundo”, “Pois esse é o caminho que conduz ao conhecimento do Criador de tantas coisas maravilhosas, e o melhor processo para se vir a amar um Inventor tão grandioso. Pois, na verdade, o grande amor surge do conhecimento profundo do objeto amado e, se este for pouco conhecido, o seu amor por ele será pouco ou nenhum…”.

Na visão de Freud, entretanto, “não é verdade que os seres humanos protelam o amor ou o ódio até adquirirem conhecimento mais profundo e maior familiaridade com os objetos desses sentimentos. Ao contrário, amam impulsivamente, movidos por emoções que nada têm a ver com conhecimento e cuja ação, muito ao contrário, poderá ser amortecida pela reflexão e pela observação. Leonardo, portanto, poderia, no máximo, querer dizer que o amor praticado por seres humanos não seria tão desejável e irrepreensível: dever-se-ia amar controlando o sentimento, sujeitando-o à reflexão e somente permitir sua existência quando capaz de resistir à prova do pensamento. Percebemos, assim, que procurou mostrar-nos como ele próprio procedia e demonstrar que todos deveriam tratar o amor e ódio como ele o fazia”. Mais parece, ao contrário, que enquanto Leonardo buscou veementemente diferenciar o amor da paixão, Freud praticamente a colocou em mesmo juízo. 

O psicanalista sugere que da Vinci controlava seus afetos e os submetiam ao instinto da pesquisa; “ele não amava nem odiava, porém se perguntava acerca da origem e do significado daquilo que deveria amar ou odiar. Parecia, assim, forçosamente, indiferente ao bem e ao mal, ao belo e ao horrível. Durante esse trabalho de pesquisa, o amor e o ódio se despiam de suas formas positivas ou negativas e ambos se transformavam apenas em objeto de interesse intelectual. Na verdade, Leonardo não era insensível á paixão; não carecia da centelha sagrada que é direta ou indiretamente a força motora de qualquer atividade humana. Apenas convertera sua paixão em sede de conhecimento; entregava-se, então, à investigação com a persistência, constância e penetração que derivam da paixão e, ao atingir o auge de seu trabalho intelectual, isto é, a aquisição do conhecimento, permitia que o afeto há muito reprimido viesse à tona e transbordasse livremente”.

“Quando, ao chegar ao clímax de uma descoberta, podia vislumbrar uma vasta porção de todo o conjunto, ele se deixava dominar pela emoção e, em linguagem exaltada, louvava o esplendor da parte da natureza que estudara”.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Artes e Letras, Música e Pintura

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas