A percepção darwiniana sobre o belo

florAnalisando as dificuldades de suas teorias (A origem das espécies, cap. VI), Charles Darwin chega a uma indagação: o quanto sua doutrina utilitarista seria verdadeira? O naturalista britânico segue com um levantamento filosófico: os detalhes da estrutura dos organismos foram produzidos para o bem de seu possuidor (evolução), para satisfazer a beleza do Criador/criatura ou pela mera variedade?

Certamente Darwin considera que a parte principal da organização de toda criatura vivente é hereditária, por consequência, embora todo  ser esteja bem adaptado a seu lugar, muitas estruturas não têm nenhuma ligação próxima ou direta com os hábitos de vida atuais, mas sua estrutura foi, senão agora, antes, de alguma utilidade direta ou indireta ao possuidor.

A crença de que os seres orgânicos foram criados de forma bela para a satisfação do homem ou mesmo do Criador é reconhecida pelo cientista como um ponto fora da discussão científica. Ainda assim, ele diz que as evidências levam a perceber o sentido da beleza dependendo da natureza da mente, sem considerar qualquer qualidade real no objeto admirado, para o biólogo a ideia do belo não é inata ou inalterável. O que falar, por exemplo, quando homens de diferentes etnias admiram um padrão de beleza completamente diferente em suas mulheres? Darwin se pergunta ainda como o belo teria sido criado apenas para a gratificação humana se a beleza da Terra, como exemplo das lindas conchas voluta, existe desde antes do homem aparecer; “foram criadas para que o homem as admirasse eras depois em seu escritório?”. Como naturalista, defende que a beleza em muitos casos deve-se aparentemente à simetria de crescimento.

As flores estão entre as produções mais belas da Natureza; mas elas foram consideradas proeminentes, ao contrário das folhas verdes, e por consequência ao mesmo tempo lindas para que fossem facilmente observadas pelos insetos. Cheguei a essa conclusão ao descobrir ser regra invariável que quando uma flor é polinizada pelo vento nunca tem uma corola colorida. Várias plantas costumam produzir dois tipos de flores; uma aberta e colorida para atrair os insetos e a outra fechada, não colorida, desprovida de néctar e nunca visitada por insetos. Por isso podemos concluir que, se os insetos não existissem na face da terra, nossas plantas não seriam adornadas de belas flores, mas teriam produzido apenas flores pobres como vemos no pinheiro, no carvalho, na nogueira e no freixo, nas gramas, no espinafre, na língua-de-vaca; e essa linha de argumento também serve para as frutas.

Um grande número de animais machos, como as aves mais belas, alguns peixes, répteis, mamíferos e borboletas são esplendidamente coloridos por causa da seleção sexual, isto é, “porque os machos mais belos são preferidos pelas fêmeas e não para a satisfação do homem. Assim também é com a música dos pássaros”. Um gosto semelhante por belas cores e por sons musicais percorre não só homens, mas grande parte do reino animal. Quando as fêmea é tão colorida quanto o macho, é porque as cores aparentemente foram transferidas geneticamente a ambos os sexos, em vez de apenas aos machos.

Darwin reconhece ser um assunto “muito obscuro” pensar como o sentido da beleza em sua forma mais simples (o prazer por certas cores, formas e sons) desenvolveu-se a princípio na mente do homem e dos animais inferiores. Por que certos sabores e odores dão prazer e outros, desgosto?

“O hábito em todos esses casos parece ter uma função; mas deve haver alguma causa fundamental na constituição do sistema nervoso de cada espécie”, aponta.

Categoria: Biofilia, Biofilosofia, Botânica, Zoologia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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