O maior processo biológico da mulher

Dado que os fenômenos da arte nascem no corpo, esse pode ser concebido como matriz da expressão artística. Especificamente no feminino, a cor avermelhada ganha força simbolizando o ciclo menstrual, maximidade da potência corporal da mulher.

Algumas sociedades antigas concebiam esse ciclo como um sutil processo de purificação. Entre os aborígenes australianos, o sangue menstrual é ligado ao renascimento; enquanto na Costa do Marfim (Africa), carrega consigo um prime-vital; o povo grego o ligava a algum poder sobre a fertilidade da terra; e por fim o xamanismo concebe, na mulher menstruada, uma carga de poder maior, quando esta está no “tempo da lua”.

Apesar da concepção sagrada do líquido menstrual entre alguns povos, nas civilizações modernas as mulheres que menstruavam eram recolhidas, não saíam de casa, e hoje sentem-se muitas vezes constrangidas nesse período.

Fugir da menstruação, entretanto, é fugir do próprio corpo. Conforme pesquisa Mariana de Brito Barbosa (2006), o ciclo mentural é o maior processo biológico da mulher (Giamberardino, 1997) e refere-se às alterações rítmicas e periódicas (Guyton e Hall, 1997), relacionadas a uma série de oscilações hormonais e comportamentais, que afetam a fisiologia feminina (Harlow, 1995; Chaves, Simão e Araujo, 2002), e que a partir da menarca, preparam o organismo para a gestação (Veras e Nardi, 2005).

Os hormônios ovarianos, além de  função reprodutiva, influenciam respostas corporais como as funções somatosensoriais e motoras; os hormônios sexuais manifestam inúmeros efeitos fisiológicos na pele e de percepção olfativa, principalmente nas fases ovulatória e lútea comparadas às demais fases do ciclo menstrual.

Cientistas acreditam que devido à alta solubilidade lipídica, os esteroides sexuais facilmente atravessam a barreira cerebral sanguínea e unem-se a receptores intracelulares cerebrais específicos, localizados em diversas regiões exercendo efeitos de excitabilidade neuronal. Acredita-se que uma substância E2 atue como potente estimular do sistema nervoso central  estando seus níveis no plasma sanguíneo diretamente relacionados com a percepção sensorial, funções motoras e condições nociceptivas. De acordo com McDermott, Binjun e Dluzen (1994) ela aumenta a liberação da dopamina (neurotransmissor envolvido no controle de movimentos, aprendizado, humor, emoções, cognição e memória).

Como as demais alterações corporais, menstruar é sentir. Acolher a menstruação no interior é aflorar seu ser feminino. Menstruar é afirmar o corpo, logo é afirmar a vida.

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Categoria: Poéticas do Corpo, Saúde

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (1)

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  1. Leandro Moura disse:

    Linda postagem, Natália!

    Acho muito interessante a forma como o corpo da mulher se adapta pra gerar uma nova vida. Um ato de sofrimento, mas necessário para a nossa existência. Gostei muito em perceber a possibilidade de adotar um novo significado ao ato da menstruação, algo tão presente em nosso cotidiano, e não tratá-lo puramente como aspecto mecânico da biologia da mulher.

    Conseguir aceitar a menstruação pode ser um ato muito feminino, além do mais quando se aceita no que tudo isto implica: sensibilidade, fragilidade, e capacidade de gerar uma nova vida.

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