A verdade revelada e o platonismo de Sáadia Ben Iossef

Inimigo do materialismo sensualista, para o filósofo judeu a crença na criação é demonstrável

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Sáadia ben Iossef de Faium (882-942), filósofo judeu da Idade Média, tem por requisito básico para o filosofar uma prévia verdade da revelação. A tarefa da filosofia funciona como prova racional do que já se conhecia através do conhecimento natural da fé. Relacionando com a origem do mundo, fica óbvio para Sáadia – tanto como uma certeza quanto como uma doutrina da revelação – que o universo foi criado a partir de um Deus único.

Para o pensador, é sabido no homem que:

  1. A finitude espacial do mundo exige que a força nele inerente também seja finita. Mas um poder finito só pode manter o mundo em existência por um tempo finito. Logo, é impossível que o mundo tenha existido desde a eternidade.

  2. Toda coisa composta deve, por necessidade, ser obra de um Criador que moldou uma totalidade a partir de diferentes partes. Tanto a terra, quanto os céus, são compostos de uma pluralidade de partes. Logo, o mundo como um todo composto por elas, deve ter sido criado.

  3. Todos os corpos naturais são portadores de acidentes que se mantém num fluxo permanente de vir-a-ser e perecer. Tais acidentes se encontram em toda as partes da realidade, desde os seres orgânicos, que têm de perfazer o ciclo da geração e perecimento, até os corpos celestes com seus variados movimentos. Todos estes acidentes se originam de algum modo no tempo. Coisas, porém, às quais são inerentes necessariamente determinações de origem temporal e que nunca podem existir sem tais determinações, devem ser elas próprias de origem temporal.

  4. Se o mundo existisse desde a eternidade, então um tempo infinito deveria ter decorrido até cada ponto particular no tempo. Isto porém é impossível, pois uma infinidade jamais pode ser totalmente percorrida. Logo, a duração do mundo deve ser concebida como finita, isto é, o mundo deve ter tido um começo no tempo.

    (A filosofia do judaísmo: a história da filosofia judaica desde os tempos bíblicos até Franz Rosenzweig / Julius Guttmann; tradução de J. Guinsburg – São Paulo: Perspectiva, 2003.)

Assim, de acordo com Sáadia, a crença na criação é demonstrável. O materialismo empirista/sensualista, por não reconhecer nenhuma realidade além do sensível, é inverosímel e limitado. Ainda que este possa afirmar que o mundo material não tem início nem fim, a origem do cosmos não é um juízo dos sentidos, mas é algo que transcende na ideia (demonstrada principalmente no Teeteto de Platão).

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Categoria: Filosofia, Filosofia da Religião, Filosofia Medieval, Judaísmo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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