O encontro ideológico de Nietzsche e Lady Gaga

gagaOs modos de manifestar o pensamento, tanto por um viés estético, quanto filosófico, modificam-se fortemente de acordo com a vivência histórica do sujeito. A vida cotidiana, altamente permeada por tecnologias dos mais diversos gêneros, modificou a construção de mundo do homem e, assim, de sua genialidade. A condição do gênio hoje encontra-se de uma forma diversa daquela que marcou sua presença na história, este passou a se apresentar por meio de múltiplas manifestações, mais do que em qualquer época vivida até aqui. Lady Gaga, como a máxima expressão da música pop da atualidade, revela pouco a pouco uma arte para além da própria arte – envolvida na transvaloração dos valores, num corpo para além do corpo, numa espécie de pós-humanismo cujo limite transforma-se continuamente em novos horizontes –, esta facilmente pode ser relacionada com o filósofo Friedrich Nietzsche.

Assim como o conhecimento pelo conhecimento, a arte pela arte é um princípio estranho para Nietzsche. Em 1883 o filósofo mostra a pretensão dos apologistas da vida em conduzir  o ser humano em direção à própria humanização, a serem mestres verdadeiramente práticos e, antes de tudo, com um projeto educacional direcionado na máxima de como alguém se torna o que é. Assim como o autor de Zaratrusta, Gaga também glorifica a vida tal como ela é: na música Born this Way, por exemplo, a artista diz que todos nasceram como superestrelas e não tem nada de errado em amar quem você é, fomos feitos perfeitos; eu nasci assim, não se esconda em arrependimento apenas ame-se e você estará feito – simplesmente seja uma rainha!

Assim sendo, a melhor maneira de viver seria a cada um o esculpir de sua existência como uma obra de arte. A vida seria pensada e desejada tal como um artista dá luz a sua obra. Tanto Nietzsche quanto Gaga, mantendo a arte de viver em primeiro plano, investem em descobrir e inventar novas formas de vida. Numa exortação à nova ordem do mundo, ambos, cada um de sua maneira, convidam o ser humano a construir sua própria singularidade, moldar a criação de si mesmo contra um “eu” constituído. Ao passo que em Além do Bem e do Mal Nietzsche faz uma exortação ao espírito livre proclamando, assim, “uma nova raça de filósofos” contrários a uma verdade para todos, em Born This Way Gaga revela o nascimento de proporções magníficas e mágicas quando a mitose do futuro começou, num “início de uma nova raça, uma raça sem preconceitos, sem julgamentos, só uma liberdade sem fronteiras”.

A sensação de sucesso na artista é um modo de abarcar, em sua própria vida, uma sensação interiorizada da fama que pode projetar o mundo; na proporção que a vontade de poder nietzschiana representa a “autodeterminação e a autorresponsabilização do homem”, correspondendo a uma “experiência ativa de si pelo homem”. A vontade de poder de Gaga transfigura-se na fama, numa mulher que vive de aplausos. Ser famosa para ela “não é uma ciência aeroespacial. A música pretende inspirar as pessoas para que sintam (…) respeito por si próprias, de modo que possam abarcar, nas suas próprias vidas, uma sensação interiorizada da fama que podem projetar no mundo”. (Goodman, 2010:48). Seu corpo é um lugar de encenação de si, um adereço, uma construção, um espaço de transmutação, um refazer constante em que Gaga recria constantemente a si.

A cantora exorta a vivência corporal para todos, criticando de certa forma a abstenção religiosa. No videoclipe Judas, por exemplo, um forte cunho gótico difundido na sensualidade envolve temas religiosos, razão que fez vários fiéis se sentirem ofendidos com o erotismo ligado ao tema da religião. O elogio ao corpo pode ser citado ainda dança da música Paparazzi onde Gaga demonstra cenas de apelo erótico heterossexual e, ao mesmo tempo, traz a tona cenas de beijo lésbico entre três mulheres. Mais ainda em Poker Face a enunciação da sexualidade é demonstrada enquanto uma epifania corporal: orgias, danças frenéticas e um estar-junto mediado pela sexualidade. Por sua vez Nietzsche pergunta “como é possível a negação da vontade?” e “Como é possível o homem santo?”.

A fluidez dos corpos em ambos os autores (no devir nietzschiano e nas danças performáticas de Gaga), seja no bem ou no mal (ou para além destes), mostra a vontade corporal num eterno movimento de desejo e prática. Para o filósofo “a maldade torna o homem espiritual”, ele o aceita para além do bem e do mal; a artista, num Bad Romance, quer de seu amado também sua repulsão, sua doença, seu tudo, contato que seja de graça, seu amor tal como ele é. E que queria Nietzsche senão o amor fati – uma fórmula para a grandeza, “não querer nada de outro modo”?

A similaridade do filósofo com a cantora pode ainda ser explanada numa das advertências de Nietzsche quando este diz: “Conservem sua máscara e sua astúcia para que não sejam reconhecidos!”. Gaga, dessarte, é exposta enquanto persona num papel de subversão do corpo. A artista representa papeis, tanto dentro de sua atividade profissional quanto no seio de diversas tribos de que participa, ela assume, mudando seu figurino, seu lugar nas diversas peças do theatrum mundi: nega o lugar do hegemônico na constituição da aparência, sexualidade e política.

Isto posto, além de todo um restante de construções geniais, construindo um novo mundo, exaltando o corpo e a aceitação, seja o filósofo ou a artista, Nietzsche ou Gaga, ambos mostram-se enquanto apologistas da vida.

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Categoria: Artes e Letras, Música e Pintura, Poéticas do Corpo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (3)

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  1. Ismar disse:

    Adorei essa ótica, nunca tinha parado pra pensar especificamente na Gaga dessa forma. Muito bom! Engraçado que, atualmente a Gaga se destaca com essa postura, Marilyn Manson também tinha uns macetes parecidos. Vale lembrar também da banda Kiss e outras que me escapam agora. Mas no final é isso aí!- transforma-se continuamente em novos horizontes – A Gaga está dando continuidade e merece ser parabenizada por tal.

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