Medo: do movimento natural ao problema da finitude

downloadA partir da semelhança entre as paixões dos diferentes homens, quem quer que olhe para dentro de si mesmo, e examine quaisquer uma de suas manifestações corporais e/ou psíquicas, poderá ver que são as mesmas que regem a todos os homens, especialmente naquilo que permanece desde o nascimento, isto é, o medo.

O grande filósofo Thomas Hobbes, assim, coloca-se como irmão gêmeo deste – “minha mãe pariu gêmeos, eu e o medo” (HOBBES, 1679). Al Berto, enquanto poeta português, com mais paixão explanaria tal afecção: “vivo na ilusão de conseguir enganar, alguma vez, o medo dos dias sem ninguém. Por isso construí jardins de areia e cinza, jardins de água e fogo, jardins de répteis e de ervas aromáticas, jardins de minerais e de pedras – mas todo abandonei à invasão da selva e das alucinações” (O Anjo Mudo, 2001, p. 131).

O Estado hobbesiano é marcado pelo medo. O soberano somente governa pelo temor que inflige a seus súditos, afinal, sem o medo da morte violenta e vulnerabilidade, que homem renunciaria ao direito que possui, por natureza, a todos os bens e corpos? No estado de natureza mais primitiva, o medo é o condutor. René Descartes similarmente o qualifica como movimento natural, mostrando que todos os animais não-humanos nos fazem compreender claramente seus movimentos naturais de raiva, de medo, de fome, e outros do mesmo tipo. Nesse sentido, em carta ao Marquês de Newcastle, diz: “[…] todas as coisas que os cachorros, os cavalos e os macacos são ensinados a fazer são meramente expressões de seu medo, sua esperança ou sua alegria“.

Em 1926 (Inibição, Sintoma e Medo) Sigmund Freud expôs ser o medo uma reação dos impulsos humanos surgida no ego, quando este, a serviço da autopreservação, está frente a um perigo vindo de fora ou de dentro. O medo nasce, assim, desde a infância e perdura posteriormente devido à repetição dessa experiência de forma inconsciente, ativa e atenuada a cada vez que reconhece um perigo. Na pessoa madura o medo passa a ser sinal de perigo, podendo não só ficar neste medo-sinal mas também se tornar um medo neurótico.

A espelho deste, o psicanalista Michael Balint acredita que o medo não pode ser eliminado do mundo; ao contrário, tem-se certo gosto infantil em vivenciá-lo de forma atenuada, como que num faz-de-conta – como por exemplo o gosto pelo medo operado no cinema de terror. Num mecanismo contrafóbico, enfrenta-se algo que realmente causa medo com uma ameaça ainda maior, o arrepio da sensação que desvia a atenção, reprime, substitui ou transfere o medo. Ainda assim, “o que está reprimido não deixa de vir à tona”, diz Sigmund Freud. Para estes, a sensação de aperto e angústia, desassossego e excitação motora, o estado de alerta, percepção restrita, a ampliação da ameaça pela imaginação caracterizam o aspecto afetivo e cognitivo da experiência do medo.

Por outro lado, o existencialista Soren Kierkegaard distinguia o medo (Angst) do temor (Furcht). Para ele o medo ocorre quando a pessoa se relaciona consigo própria, quando a autoconsciência desperta e ela se toma um sujeito, ele não é desencadeado por uma ameaça extrema concreta, por algum objeto. O temor, entretanto, é suscitado por objetos específicos.

O medo é uma afecção, não é um afeto. Não é um sentimento. Não estabelece vínculos. O outro, a outra, não são mais pessoas, o medo lhes barra o acesso, o contato, escapam, se afastam e nos perdem, porque nos perdemos em seu afastamento. No lugar do outro, da outra, figura uma sombra, a escuridão, o vazio da escuridão. O medo da sombra é a primeira experiência da alteridade, sem mais, do outro sem identidade, do outro sem motivo. Sem passagens que levem ao próprio ser interior ser presente, existente e vivente. Inaceitável. Deve-se aceitá-lo. O medo abre o abismo da sombra, do outro, abre o abismo dentro. O primeiro medo, que cada criança conhece e que esquece pois é insustentável, é o medo da sombra, da própria sombra, o medo de descobrir o próprio ser outro, sem rosto.

(Giuseppe Ferraro. MEDO E DESEJO)

Ao contrário disso (e de como se posiciona Martin Heidegger com sua distinção entre a angústia e o medo que remete para uma diferença entre o ser afetado pelo nada, por algo que não pertence à esfera da percepção, e o ser vítima da representação aterradora de algo que nos aparece como hostil ou ameaçador) com Al Berto a estrutura dos afectos é desde a raiz pensada no registo da imanência (existência da causa na própria causa). Como Gilles Deleuze, este faz sempre da paixão, da estrutura da passividade, do poder de ser afectado, algo de material, de imanente ao mundo dos corpos e da coisas. O modo essencial de estar no mundo não é a angústia, mas o medo, essa promiscuidade permanente entre a nossa vida e o mundo que nos toca, invade, ou que simplesmente nos abandona. Do nada não há angústia mas medo, porque o nada tem, para Al Berto, a condição, não de algo que se dá na sua não aparência, mas a da ausência, do desaparecimento. Sua expressão ganha magnitude.

No meu susto de estar vivo, uma agulha costura os órgãos para que a dor não se espalhe pelo corpo. A dor, este feixe de nomes vibrando junto ao coração. Um dia estarei longe, muito longe de mim e de ti. Terei perdido o corpo que te sente, irremediavelmente.

(Al Berto. O MEDO)

Essa experiência de um tempo que irrompe no interior do corpo se assemelha com Deleuze por um tempo devorador, quando se passa os dias a observar os objectos e sente o tempo a devora-los impiedosamente. O espaço, no plano de imanência, não tem a condição de abranger todos os corpos para sempre, ele é pensado como efeito do tempo, como consequência de ritmos que talham por dentro dos devires lugares de habitabilidade dos acontecimentos. O espaço existe a partir do interior dos corpos no tempo. E o medo de não mais habitar neste é aflorado sem cessar. “Vou distrair todas as imagens onde me reconheço/ e passar o resto da vida assobiando ao medo”, diz Al Berto em O Medo.

St. Agostinho de Hipona narra algo semelhante no Livre Arbítrio (III, 7, 21): “As realidades temporais têm esta característica: antes de começarem a ser, não são; quando são, esvaem-se e, na medida em que se esvaem, deixam de ser. Assim, quando hão-de vir a ser, ainda não são, quando passadas, já não são. Como hão-de possuir-se, então, de modo permanente, estas realidades cujo começar a ser coincide com o caminha para o não ser?”.

Medo: de quê, afinal? Para Agostinho o único medo legítimo será o de não alcançar o fim próprio para que tende o ser humano, a posse de ser feliz eternamente. O medo surge porque o domínio do eterno não pode ser alcançável pelo temporal, e que é o homem senão um ser temporal? Sua solução teria sido apoiar-se no divino, na mediação entre o superior sobre o inferior, o tempo e a eternidade. O que provoca temor, na filosofia agostiniana, é essencialmente o mal, termo que identifica toda a forma de sofrimento e a morte. “Desejar viver sem medo é comum a todos, bons e maus. Mas há uma diferença: os bons desejam-no afastando o amor daquelas coisas que não se podem ter sem perigo de se perder; os maus, porém, desejam-no para desfrutar destas coisas com segurança, esforçando-se por remover o que os impeça”, diz.

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Categoria: Filosofia, Filosofia da Mente, Psicologia e Neurociência

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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