Sobre os demônios

Opinião dos platônicos, de um sacerdote judeu e do papa Francisco

lookyHá quem julgue que uns deuses são bons e outros maus. Mas também há quem lhes atribua apenas honra e glória tal que não pensa haver algum deus mau. Para os cristãos, aqueles que afirmaram haver deuses bons e deuses maus teriam dado aos demônios o nome de deuses. Como estes, aqueles que dizem ser todos os deuses bons e muito superiores mesmo aos homens que temos por bons, se perturbam com os feitos dos demônios. Afinal, que seriam eles?

Os platônicos afirmaram serem os demônios, agitados pelas ferventes ondas das paixões, os que transmitem os pedidos dos homens e lhe trazem os favores colocados entre os deuses e a humanidade. Apuleio, na obra De Deo Socratis, diz que “os demônios são – quanto ao gênero, seres animados; passíveis, quanto ao ânimo; quanto à mente racionais; áreos, quanto ao corpo; quanto ao tempo, eternos”, enquanto os homens seriam “orgulhosos pela razão, poderosos pela palavra, dotados de alma imortal, de membros votados à morte, de espírito ágil e inquieto, de corpos pesados e débeis, de costumes dessemelhantes e erros parecidos, de audácia obstinada e de esperança firme, de atividade estéril e de fortuna instável, individualmente mortais, todos, porém, no seu gênero, perpétuos porque se sucedem na renovação das gerações, de existência fugitiva, de tardia sabedoria, de morte rápida, de vida lastimosa -, habitam na terra“. Os demônios como os deuses, possuiriam corpo eterno; e como os homens, seriam de alma viciosa. Na opinião de Plotino, são menos desgastados os homens num corpo mortal do que os demônios num corpo eterno. Isso porque os primeiros tiveram a sorte de não estarem presentes na miséria da vida corporal para sempre, enquanto os segundos receberam uma alma sujeita às paixões não num corpo mortal como o dos homens, mas sim num corpo eterno.

O cristão Jorge Bergoglio, mais conhecido por ser o Papa Francisco, explica no diálogo com o judeu Abraham Skorka, Sobre o Céu e a Terra, que teologicamente a obra-prima de Deus é o homem, por essa razão alguns anjos, tal como o Demônio, se rebelaram e acabaram por não aceitar o plano de Deus. Enquanto no livro de Jó os demônios são os tentadores, que levam o homem à arrogância, à suficiência; Jesus os indica como o pai da mentira; e o livro da Sabedoria diz que o pecado entrou no mundo pela inveja do Diabo à obra-prima de Deus. Seus frutos são sempre a destruição, a divisão, o ódio, a calúnia. “Acredito que o Demônio existe. Talvez seu maior sucesso nestes tempos tenha sido nos fazer acreditar que ele não existe, que tudo se arranja em um plano puramente humano“, conta.

Skorka diz ser a concepção judaica imensamente ampla. Dentro da mística, por exemplo, existe o que se chama de “o outro sentido”, onde existem forças do mal. Sobre o bem e o mal Skorka cita um versículo do livro do profeta Isaías que diz ser Deus o fazedor da luz e o criador da escuridão, aquele que faz a paz e cria o mal. “É um versículo muito complicado que interpreto comparando à escuridão, que não existe em si mesma, é a ausência de luz. O mal é tirar o bem de uma realidade, não existe em si mesmo. Eu, mais do que de um anjo, prefiro falar do instinto. Não se trata, para mim, de um elemento externo, e sim de uma parte interna do homem que desafia o senhor“, explica.

Seguindo esta mesma via, na teologia cristã também há um elemento endógeno que se explica pela queda da natureza depois do pecado original. “Concordamos com o que o senhor chama instinto, no sentido de que nem sempre que uma pessoa faz algo inapropriado é porque foi levada pelo Demônio. Ela pode fazer algo ruim por sua própria natureza, por seu ‘instinto’, que se potencializa pela tentação exógena“, concorda o Papa.

Ambos concordaram em dizer que o Demônio se apoia na situação existencial em que o homem se encontra e aceitá-lo, em última instância, está no livre-arbítrio de cada indivíduo. “O que fica claro é que há algo, seja o instinto, seja o Diabo, que se apresenta a nós como um desafio para dominá-lo, para desterrar o mal. A maldade não pode nos dominar“, conta Skorka. Francisco acrescenta: “essa é justamente a luta do homem sobre a Terra“.

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Categoria: Cristianismo, Espiritualidade, Judaísmo, Misticismo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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