O devir e a discórdia em Heráclito

movimentoHeráclito de Éfeso provavelmente era de meia-idade pelos finais do século sexto e sua atividade filosófica principal terminou por volta de 475 a.C. Conforme relata Diógenes Laércio, o pré-socrático mencionou em seus escritos Pitágoras e Hecateu, bem como Xenófanes e, talvez, Parmenides.

O livro a ele atribuído chama-se <<Sobre a Natureza>>, com base no seu conteúdo principal, e divide-se em três discursos: Do Universo, Da Política e Da Teologia. Dedicou-o e colocou-o no templo de Ártemis, segundo a opinião de alguns, tendo propositadamente escrito de maneira bastante obscura, a fim de que só as pessoas de pretígio e influência tivessem acesso a ele, e não fosse facilmente menosprezado pela populaça… A obra teve uma tal reputação, que dela surgiram discípulos chamado Heraclíticos.

(Diógenes Laércio IX, 5)

Conforme foi descrito, Heráclito foi célebre em sua obscuridade, fator que dificulta a leitura do verdadeiro significado de seu pensamento. Platão ocasionalmente o menciona num tom humorístico ou irônico em que <<todas as coisas estão a fluir>>. Aristóteles aceitou a interpretação platônica do devir e, atacando-o, diz estar Heráclito a contradizer-se quando afirma que os contrários são <<os mesmos>>. Teofrasto baseou a sua interpretação na de Aristóteles, esquecendo que a interpretação aristotélica julga, anacronicamente, em função de seus próprios padrões lógicos, que a expressão heraclítica <<os mesmos>> não queria dizer <<idênticos>> mas algo como <<não essencialmente distintos>>. Os Estoicos, por sua vez, fizeram uma readaptação radical de Heráclito: diziam que este tinha como ideal viver de acordo com a Natureza e atribuíram-lhe a ideia de ecpyrosis, a destruição periódica do mundo inteiro pelo fogo.

Não obstante as máximas do próprio Heráclito mostram como ele se considerava uma espécie de acesso a uma verdade acerca da constituição do mundo de que os homens são parte, muito embora a grande maioria seja incapaz de reconhecer esta verdade: <<o comum>>, o Logos.

Os homens dão sempre mostras de não compreenderem que o Logos é como eu o descrevo, tanto antes de o terem ouvido como depois, É que, embora todas as coisas aconteçam segundo este Logos, os homens são como as pessoas sem experiência, mesmo quando experimentam palavras e ações tal como eu as exponho, ao distinguir cada coisa segundo a sua constituição e ao explicar como ela é; mas os demais homens são incapazes de se aperceberem do que fazem, quando estão acordados, precisamente como esquecem o que fazem quando (estão) a dormir.

(Fragmento 1, VII, 132)

Por isso, e necessário seguir o comum; mas, se bem que o Logos seja comum, a maioria vive como se tivesse uma compreensão particular.

(Fragmento 2, VII 133)

Dando ouvidos, não a mim, mas ao Logos, é avisado concordar em que todas as coisas são uma.

(Fragmento 50, Hipólito Referência IX, 9, 1)

O caminho a subir e a descer é um e o mesmo.

(Fragmento 60, Hipólito Referência IX, 10, 4)

Assim, a mesma coisa produz efeitos contrários sobre diferentes classes de seres (por exemplo, <<os burros preferem os desperdícios ao ouro, os homens, o ouro aos desperdícios>>). Os diferentes aspectos d’um mesma coisa podem justificar descrições contrárias. E as coisas boas e desejáveis, tais como a saúde ou o repouso, só são positivas pelo reconhecimento de seus contrários, como a doença e a fadiga; assim, provavelmente, <<não haveria justiça sem injustiça>>.

As coisas tomadas em conjunto são o todo e o não-todo, algo que se reúne e se separa, que está em consonância e em dissonância; de todas as coisas provém uma unidade, e de uma unidade, todas coisas.

(Fragmento 10, Aristóteles De Mundo 5, 396 b 20)

O deus é dia-noite, Inverno-Verão, guerra-paz, saciedade-fome [todos os contrários, é o que isto significa]: passa por mudanças, do mesmo modo que o fogo, quando misturado com especiarias, é designado segundo o aroma de cada uma delas.

(Fragmento 67, Hipólito Referência IX, 10, 8)

Para Heráclito, pois, a unidade das coisas depende de uma reação equilibrada entre os contrários; e o equilíbrio total do cosmos só pode ser mantido se houver uma <<discórdia>> infindável entre contrários: <<tudo acontece mediante discórdia e necessidade>> e não se pode entrar num rio duas vezes, pois nem o homem é o mesmo, nem suas águas são as mesmas. <<O Sol é novo todos os dias>> e, assim, <<não é possível descobrir os limites da alma, mesmo percorrendo todos os caminhos: tão profunda medida ela tem>>.

Categoria: Filosofia, Filosofia Pré-Socrática

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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