O Grotesco: onde a teoria e práxis se encontram

essaPor que absorvemos do classicismo da Arte poética [1] o sublime somente a partir da procura de perfeição e busca do equilíbrio expressivo? Por que isso, se existe o remanescente?! Exorbitância tão magnifica de afecções que transbordam e não cabem no ser, sedução e estranhez hiperreais!

O excêntrico (para não se dizer “o grotesco”) fora exaltado por Roberto de Oliveira Brandão, em seu Tratado do sublime, a partir d’um entusiasmo apaixonado retratando o real sem demasiadas correções figuradas – a esse caso divergentemente imaginemos a humanidade cobrindo de perfeição as imperfeições da existência, como fez o classicismo – todavia no acidental retrato poético (a poesia grotesca), mesmo por expressões minimamente defeituosas, há a superação da pura correção e idealidade. Pela autenticidade o homem alça voo na emoção veemente e inspiradora, pela nobreza da expressão e do ritmo, tudo isto emanando do simples. Surge, então, um real-excêntrico; eis aí o grotesco.

Talvez seja isso que devemos acrescentar ao que disse Henri Bergson: precisaria o homem extrair de seu próprio fundo para renovar-se e manifestar-se exteriormente. Vejo ser o homem interior (também exterior e fisiológico) o mais fantástico livro de biologia. A biologia está no próprio homem (também no animal, vegetal, etc). Que é esse tal ser vivo? É pó construtor poético, mas também melancólico. Isso e além! Victor Hugo bem expressaria o que tenho em mente: tudo na criação não é humanamente belo, o feio existe ao lado do belo, o disforme perto do gracioso, o grotesco no reverso do sublime, a sombra com a luz. A poesia é a harmonia dos contrários. E o corpo é o próprio contrário: poesia de fim de tarde, seja na primavera ou em seu oposto (o outono), no verão ou no  inverno. O corpo anda no sol, mas corre da chuva; é saúde sujeita a doença, é bolha que se cria no pé após o andar; é paixão, mas também é dor; construção, porém perecimento. Parafraseando Heráclito, o corpo é aquilo que vive sua morte e morre sua vida. Que beleza há nisso senão o que Wolfgang Kaiser entende pela fantasia do grotesco n’uma bela confusão? O grotesco, diz ele, é o contraste pronunciado entre forma e matéria, a mistura centrífuga do heterogêneo, a força explosiva do paradoxal.

Mikhail Bakhtin traria ainda ao realismo grotesco, o elemento material e corporal como um princípio profundamente positivo, que nem aparece separado dos demais aspectos da vida. O princípio material e corporal é percebido como universal e popular, e como tal opõe-se a toda recusa das raízes materiais e corporais do mundo, a todo isolamento e confinamento em si mesmo, a todo caráter abstrato, a toda pretensão de significação destacada e independente da terra e do corpo. O corpo e a vida corporal adquirem simultaneamente um caráter cósmico e universal; não se trata do corpo e da fisiologia no sentido restrito e determinado que têm em nossa época.

Para os resultados científicos não há nada de divergente: o inteligível é grotesco – que mais poderia ser? Quantos acidentes! Para exemplificar cito aqui o tecido epitelial: este sempre me pareceu mero significante extenso, sem significado real. Não tinha existência, mais parecia um cenário científico… A pele era proteção do corpo, mas não conseguia vê-la como o revestimento cujo fim é proteger-me, filtrando tudo aquilo que entra-e-sai de meu corpo como a janela do mundo interior; era absorção de substância úteis, porém nunca me disseram ser lá onde deslizamos o hidratante; era percepção de sensações, todavia não a percebia como a afecção diante do toque; suas células perfeitamente justapostas (com pouquíssimo espaço intercelular) nunca me foram mostradas como os triângulos e quadrados observados por toda superfície de meu corpo. O epitélio era perfeito demais, assim se tornava pseudo demais.

Pela compreensão do grotesco, então, pude perceber a vida, vivenciar a poesia ou o lúdico, a biologia ou mesmo qualquer outra ciência, a filosofia etc… não por muito figurar realidades e conceituar, mas pelo perceber/sentir. Hoje enxergo serem poetas os homens capazes de botar os pés no chão e deslizar por entre a música do mundo, biólogos os habilitados a explorar seus próprios biocorpos, físicos os aptos a movimentar-se e perceber as energias do mundo, filósofos os que são intelecto e sentimento revelados. A teoria transfigura-se em práxis – não está a palavra na coisa? – aquilo que a mente apreende pode ser sentido pela compleição física. O corpo é – não perfeito, mas real. E o real está aqui, está sendo agora. Existir machuca, a existência não é perfeita; mas ela é, e o que é, ainda que seja também percebido como vil, é belo.

[1] Horácio

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Categoria: Artes e Letras, Poéticas do Corpo

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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