A odisséia de Descartes rumo a um conhecimento sólido

descartesRené Descartes nasceu no final do século XVI, na França. Devido à sua saúde frágil, permaneceu acamado por toda a infância e adolescência, o que lhe criou o hábito de meditar. Após entrar para o exército e servir na Guerra dos Trinta Anos, mudou-se para Paris e descobriu sua vocação para a filosofia. Juntamente com Bacon e Locke, Descartes foi um dos pioneiros da Revolução Científica e um dos criadores dos alicerces da era moderna.

Podemos facilmente traçar uma linha reta que vai de Sócrates e Platão, atravessando S. Agostinho, para chegar em Descartes. Todos confiavam na razão como a melhor ou única forma de chegar à verdade. Porém, antes de qualquer grande feito de Descartes, ele reconheceu que todo o conhecimento da época estava cercado por heranças medievais. A filosofia e as ciências estava aflorando, e todos estavam animados, até mesmo Descartes, mas parecia-lhe ser preciso limpar o terreno de pensamentos velhos e infundados, para então começar a filosofar com total segurança. Para isso, era preciso iniciar empregando o método matemático à qualquer proposição, pois só assim poderíamos trabalhar inteiramente com a razão: teríamos de decompor um problema complexo nas várias partes simples que o compõe, para só então “pesar e medir” cada ideia. Assim, Descartes queria nos dizer que devemos partir do mais simples para o mais complexo – e assim começar uma jornada rumo ao verdadeiro conhecimento verdadeiro.

Chegando ao ponto de ter todas as ideias complexas decompostas em ideias simples – sempre o mais simples possível para uma ideia -, era hora de verificá-las. Descartes queria encontrar um jeito de fazer deduções seguras, partindo de premissas que não poderiam ser postas em dúvida. Para garantir que todas suas premissas tivessem estabilidade e resistência, o que considerava as duas características mais importantes para ter estabilidade, ele então as submeteu à chamada “dúvida metódica”, que consistia num reflexão que jogava fora toda proposição que pudesse ser posta em dúvida. Descartes começou submetendo suas crenças a uma série de argumentos céticos cada vez mais rigorosos, questionando como podemos ter certeza de qualquer coisa.

Vivemos algo real, ou é tudo um sonho? Como podemos ter certeza? Quando sonhamos não temos como dizer que aquilo não é real – para nós, aquilo é irrefutavelmente verdadeiro. Mas quando acordamos, vemos as falhas no enredo que não notamos anteriormente.

Verdades de razão são realidade, ou são obra de um Deus brincalhão que gostava de nos enganar? Poderíamos ter certeza de que 4+4=8, por mais racional que seja, ou temos de tomar cuidado com a possibilidade de Deus nos ter feito imperfeitos e passiveis ao erro até nas coisas mais lógicas?

Após se encontrar na estaca zero, propôs um novo método para evitar ser induzido ao erro novamente. Imaginou um gênio maligno, que sempre tentava enganá-lo. Então, sempre que cogitava alguma coisa, pensava “o gênio maligno pode estar me fazendo acreditar nisso?”. Se a resposta fosse sim, a opinião era deixada de lado por ser duvidosa.

Nesse estágio, Descartes estava totalmente sem chão. Se não há qualquer verdade, então ele não tem nenhuma base sólida em quê construir sua filosofia. Chegando nessa situação, descreveu-se a si mesmo como perdido em um redemoinho de dúvidas, sem um ponto de apoio que possibilitasse sua jornada de volta ao conhecimento e à verdade. Foi então que ele começou a meditar: se estou divagando sobre tudo isso, é porque preciso existir. Quando tentou aplicar o teste do gênio, falhou – pois só podia estar sendo enganado por qualquer coisa se realmente existisse. Foi aqui, no Discurso sobre o método que surgiu sua célebre frase “penso, logo existo” – substituída posteriormente por “Eu sou, eu existo”, no Meditações.

Meditações foi um livro escrito em primeira pessoa, pois não esperava mostrar argumentos para provar ou refutar qualquer coisa, mas sim para levar o leitor pela trilha que ele próprio caminhou. Por isso a frase “Cogito, ergo sum” foi trocada – Descartes queria que o “eu” que medita percebesse que assim que considera o fato de existir, sabe que isso é verdadeiro. Seria instantâneo.

Com esse pilar em mãos, pôde começar a construir um pensamento lógico. Assim como Arquimedes disse -“É necessário apenas um ponto de apoio a fim de mover a Terra inteira” -, ele acabara de salvar-se de todo o ceticismo absoluto que o rondeava. Porém, essa única certeza o lavara ao problema do solipsismo, o que Descartes procurou mais tarde resolver, pois toda essa aventura foi crucial para seu projeto de investigação, mas não era o alicerce de sua epistemologia.

No próximo texto, trataremos sobre a continuação da filosofia de Descartes e veremos o que ele conseguiu construir a partir de seu único ponto de apoio.

Tags: , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Filosofia, Filosofia Moderna

Bruno Abu Marrul

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de biologia e amante de sophia, vivendo numa eterna luta interna entre a razão científica e um irracionalismo necessário. Poeta nas horas vagas e crítico literário em meio período.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas