O infinito de Anaximandro

Sobre o apeiron e a origem dos seres

Introdução

O primeiro texto sobre os filósofos pré-socráticos mostrou como esse período reflete um interesse filosófico voltado para o mundo da natureza. Além disso, apresentou Tales como o primeiro filósofo grego, principalmente por ter trazido o conhecimento de que o cosmos é um (Aet., II, 1, 2). Mas foi através de seu sucessor e discípulo, Anaximandro de Mileto (+/- 547 a 610 a.C.), que surge a noção de ilimitado. Ele escreveu, segundo conta Suda, as prosas Da NaturezaCircuito da Terra, Sobre as Estrelas Fixas, Globo Celeste e algumas outras obras.

Anaximandro de Mileto, filho de Praxídes: afirmava que o princípio e elemento é o Indifinido [Ápeiron], sem distinguir o ar ou a água ou qualquer outra coisa… Foi o primeiro a inventar um gnómon, e colocou um nos Relógios do Sol em Esparta, segundo Favorino em sua História Universal, para assinalar os solstícios e equinócios; e construiu também indicadores de horas. Foi o primeiro a traçar um contorno da terra e do mar, mas construiu também uma esfera [celeste].

(Diógenes Laércio II, 1-2. DK 12 a 1)

Mas o que Diógenes Laércio narra não é integralmente verídico. Anaximandro não poderia descobrir o gnómon. Este, um esquadro ou qualquer haste vertical cuja sombra indica a direção e altura do sol, foi adquirido pelos Gregos através dos Babilônicos. Dessarte, por esse povo, a Grécia teve conhecimento da esfera celeste a dividiu o dia em doze partes. Ainda assim, embora não certamente, a Anaximandro pode ser atribuída a introdução do gnómon ao povo grego.

Contribuição filosófica efetuada por Anaximandro

Entre os que admitem um só princípio móvel e infinito, Anaximandro de Mileto, filho de Praxíades, sucessor e pupilo de Tales, disse que o princípio e elemento das coisas que existiam era o apeiron, [indefinido ou infinito], tendo sido ele o primeiro a introduzir este nome do princípio material. Diz ele que este princípio não é nem água nem qualquer outro dos chamados elementos, mas uma outra natureza apeiron, de que provêm todos os céus e os mundos neles contidos. É a fonte da geração das coisas que existem é aquela em que se verifica também a destruição <<segundo a necessidade; pois pagam castigo e retribuição uma às outras, pela sua injustiça, de acordo com o decreto do Tempo>>, sendo assim que ele se exprime, em termos assaz poéticos.

(Simplício in Phys. 24, 13; DK 12 a 9)

Além disto, disse que o movimento era eterno, do que resulta que se originem os céus (…) Essa natureza [do apeiron] é eterna e não envelhece, além de envolver todos os mundos. Ele fala do Tempo como se a geração e existência e destruição fossem limitadas. Ele fala do Tempo…

(Hipólito DK 12 a 11)

Disse que o apeiron continha a causa total da origem e destruição do mundo, de que, segundo ele, os céus estão separados e, em geral, todos os mundos, que são apeirous [inumeráveis]. Ele declarou que a destruição e muito antes o nascimento acontecem desde idades infinitas, visto todos eles ocorrem ciclicamente.

(Pseudoplutarco DK 12 a 10)

Aristóteles, apesar de ter mencionado muitas vezes Anaximandro pelo nome, fez várias referências prováveis à seu apeiron. Teofrasto, por sua vez, admitiu que Anaximandro não teria dado à sua substância primária nenhuma propriedade qualitativa. Isso porque no indefinido não cabe qualidade, a substância original, que constitui o mundo, não se assemelha a nenhuma espécie de matéria do mundo já formado: não é água nem nenhum outro elemento terrestre, mas possui uma outra natureza infinita. Esse conceito foi uma grande inovação. Não é possível atribuir a qualquer emprego antigo o equivalente ao apeiron num sentido do espacialmente indefinido. Quanto à posterioridade, na Física de Aristóteles, está presente uma substância entre os elementos.

Não há um só destes elementos [fogo, ar, água, terra] de que derivem todas as coisas; e não há certamente nenhuma outra coisa além destes, algo de intermediário entre o ar e a água, ou entre o ar e o fogo, que seja mais densa do que o ar e o fogo, e mais subtil que os demais: pois isso será, simplesmente, ar e fogo com oposição dos contrários; mas um dos dois contrários é uma privação – de modo que é impossível ao elemento intermédio existir alguma vez isolado, como pretendem alguns a respeito do infinito [apeiron] e do circundante.

Contudo, nem o corpo infinito pode ser uno e simples, quer ele seja, como afirmam alguns, aquilo que existe à margem dos elementos, e donde os fazem nascer, quer ele seja expresso simplesmente. Pois, alguns há que fazem infinito o que existe à margem dos elementos, e não o ar ou a água, por forma a que o resto não seja destruído pela substância infinitas destes; é que os elementos opõem-se entre si (por exemplo, o ar é frio, a água, húmida, e o fogo, quente), e se algum destes fosse infinito, o resto já teria sido destruído. Mas, nestas condições, eles dizem que o infinito é diferente desses elementos e que estes provêm dele.

A contribuição de Aristóteles para uma possível admissão do apeiron como substância primária foi de que se este fosse identificado como um constituinte específico do mundo visível, haveria ele de dominar todas as outras substâncias aqui presentes e somente o princípio existiria, nada mais havendo além dele. Um argumento diferente foi sugerido por Écio: uma matéria originária infinita garantiria que a geração no mundo não deixasse de se verificar por falta de matéria.

…o infinito não tem princípio… mas é este que parece ser o princípio das outras coisas, e abarcá-las e dirigi-las a todas elas, como afirmam todos os que não admitem outras causas, como o espírito ou a amizade, acima e para além do infinito. E é isto o divino, por ser imortal e indestrutível, como dizem Anaximandro e a maioria dos fisiólogos.

(Aristóteles, Física)

Outros de seus subsequentes, como Heráclito, Parmenides, Empédocles, Anáxagoras, e os Pitagóricos desde Alcméon, têm como influência o conceito de substâncias naturais contrárias. Esta foi formulada pela primeira vez por Anaximandro a partir da observação das principais mudanças das estações (o calor e seca do Verão contra o frio e chuva do Inverno). Anaximandro faz uma metáfora derivada da sociedade humana.

Anaximandro de Mileto, o primeiro escritor filosófico dos antigos, escreve como escreverá o filósofo típico, enquanto solicitações alheias não o despojaram de sua desenvoltura e de sua ingenuidade: em inscrições sobre pedra, estilo grandioso, frase por frase, cada uma testemunha de uma nova iluminação e expressão do demorar-se em contemplações sublimes. O pensamento e sua forma são marcos de milha na senda que conduz àquela sabedoria altíssima. Nessa concisão lapidar, diz Anaximandro uma vez: “De onde as coisas têm seu nascimento, ali também devem ir ao fundo, segundo a necessidade; pois têm de pagar penitência e de ser julgadas por suas injustiças, conforme a ordem do tempo”.

Desse mundo do injusto, do insolente declínio da unidade originária das coisas, Anaximandro refugiou-se em um abrigo metafísico, do qual se debruça agora, deixa o olhar rolar ao longe, para enfim, depois de um silêncio meditativo, dirigir a todos os seres a pergunta: “O que vale vosso existir? E, se nada vale, para que estais aí? Por vossa culpa, observo eu, demorai-vos nessa existência. Com a morte tereis de expiá-la. Vede como murcha vossa Terra; os mares se retraem e secam; a concha sobre a montanha vos mostra o quanto já secaram; o fogo, desde já, destrói vosso mundo, que, no fim, se esvairá em vapor e fumo. Mas sempre, de novo, voltará a edificar-se um tal mundo de inconstância: quem seria capaz de livrar-vos da maldição do vir-a-ser?”.

(Friedrich Nietzsche, A Filosofia na Época Trágica dos Gregos)

Os principais contrários da cosmogonia de Anaximandro eram a substância quente e a substância fria. E a fonte da geração das coisas que existem é aquela em que se verifica também a destruição «segundo a necessidade; pois pagam castigo e retribuição uns aos outros, pela sua injustiça, de acordo com o decreto do Tempo»”. Substâncias contrárias pagam uma indenização ao seu próprio contrário e a nenhum outro de acordo com a injustiça do tempo. Assim, a substância quente paga à fria.

Anaximandro disse [ainda que] os primeiros seres vivos nasceram na humidade, envoltos em cascas espinhosas; e que, com o avanço da idade, se mudaram para a parte mais seca e que, depois de a casca ter estalado, levara, por um curto espaço de tempo, um género de vida diferente.

(Écio v, 19, 4)

Demais, ele diz que no começo o homem nasceu de seres de uma espécie diferente; porquanto os outros seres em breve se sustentam a si próprios, ao passo que só o homem carece de amamentação prolongada. Por esta razão, ele não teria sobrevivido, se tivesse sido esta a sua forma original.

(Pseudoplutarco Strom. 2)

[Para Anaximandro] Inicialmente, o homem era semelhante a um outro animal – isto é, ao peixe.

(Hipólito Ref. I, 6, 6)

Assim, é de Anaximandro a primeira tentativa, do que se sabe, para explicar racionalmente a origem do homem e do mundo. Como narra Nietzsche, Anaximandro ultrapassa Tales por perguntar-se, pela primeira vez, se há em geral uma unidade eterna, como é possível aquela pluralidade?

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Categoria: Filosofia, Filosofia Pré-Socrática

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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