Abraxas em Jung – A unificação do bem e do mal

abraxasO pássaro luta para sair do ovo.

O ovo é o mundo.

Aquele que nasce primeiro deve destruir um mundo.

O pássaro voa até Deus.

O nome do Deus é Abraxas

– Herman Hesse, Demian

É comum do ser humano se encontrar atormentado pela falta de respostas às perguntas que faz sobre sua existência. O homem ocidental acabou por dividir excessivamente o mundo ideal e o real, com suas interpretações de bem e mal, seguro e inseguro. Entretanto, diversas culturas milenares acreditavam que em Abraxas é possível encontrar o Deus e o Demiurgo em uma única entidade.

Gravadas em certas pedras antigas, as chamadas Pedras Abraxas eram usadas como amuletos em seitas gnósticas. Acreditava-se que Abraxas era o nome de um deus que incorporava o Bem e o Mal, representando o Deus monoteísta, único, mas não onibenevolente (como por exemplo o Deus Cristão).

Abraxas também foi estudo do psicólogo suíço Carl Gustav Jung, que tinha Abraxas como um deus acima do Deus Cristão e o Diabo. Ele faz uma espécie de teogonia, falando de Deus, que denomina de Helios (sol) e do demônio. Deus já pertence ao mundo criado, mas é menos definido e diferenciado que a própria criação. Deus é a plenitude efetiva, manifestada do Pleroma; é a criação como atividade. Ele é a potencialidade do bem e do mal. É como a luz das estrelas que nos guiam, enquanto o demônio é o espaço vazio manifestado, que circunda cada uma. Ele é também o vazio efetivo do ser e o mal, como um princípio que atua em nós. O que Deus constrói, o demônio destrói, numa trama eterna de criação e destruição.

Na psicologia junguiana, é preciso unificar o dualismo Deus-Demônio para que o bem e o mal não sejam encarados como realidades éticas ou morais, mas como forças metafísicas. O que está em jogo é a persistência e o desenvolvimento de todos os seres, pois a vida é uma tensão de opostos e o mal é o oposto necessário para que se reconheça o bem. Sob influencia de Heráclito, Jung defende que o conflito é uma realidade psicológica necessária ao processo de individuação.

Ele reconhece o quão importante é reconhecer Deus na alma, como o Self, o bem e o mal. Isso é Abraxas, a vida indefinível; é a energia psíquica, a atividade do todo, a mãe do bem e do mal, o poder supremo que une luz e treva.

É do temor, da reverência e da prudência que se encontra a consciência Abraxas; aquela que não se deve resistir, porque representa o poder da Natureza, a aceitação do inconsciente, a permeabilidade entre a repressão e a servidão. Em suma, é preciso se colocar diante da tarefa de projetarmos nossa alma para fora e para dentro, introjetando o arquétipo de Deus dentro de nós.

Diante disso, cabe ao homem a tarefa heróica, mística e ética, de dar à sua vida um sentido, uma significação através do Self ou da divindade interior: ao mesmo tempo deve horizontalizar-se, ao se colocar em relação com o Outro, buscando conhecê-lo na vida social, assumindo suas responsabilidades em face da nação (como entre os judeus) ou no domínio de uma fé comum (como entre os cristãos). Sendo o caminho, o do autoconhecimento e o da individuação.

Não somos nós quem possuímos o deus e o demônio; eles é que nos possuem, e se não nos diferenciarmos, ficaremos sujeitos às suas leis. Eles são causas comuns e perigos graves aos quais não se pode escapar. Por isso, devemos unir-nos em comunidade, compensando nossas fraquezas. Assim, evitaremos sofrimentos e enfermidades, embora a comunidade fragmente e dissolva, pois a diferenciação conduz à solidão.

Em suma, a salvação ou redenção do Homem não se faz pela fé, mas pelo conhecimento. Mais precisamente, pelo autoconhecimento. É o homem que dá significado através da consciência – reino das avaliações subjetivas – contactando e ativando emocionalmente o inconsciente e, assim, trazendo as imagens arquetípicas à luz da consciência. Sendo os arquétipos psicofísicos ou psicóides, eles se manifestam nos dois planos, o que caracteriza sua transgressividade.

Para Jung é preciso estar sempre de olhos abertos, sabendo introvertê-los, para fugir da sedução de Abraxas, encontrando o Deus interior que realiza a própria transformação, como realidade psíquica, que dá significado à vida, engendrando o processo de individuação.

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Categoria: Espiritualidade, Misticismo, Mitologia, Psicologia e Neurociência

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (3)

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  1. t. disse:

    Em que obra do Jung ele fala sobre abraxas? Obg

    • Uma obra gnóstica do Jung, escrita em forma de poema metafórico pelo pseudônimo Basilides, são Os Sete Sermões aos Mortos.

      Vale ressaltar que, no Segundo Sermão, Jung realiza uma espécie de teogonia Deus-Demônio a partir de influências zoroastrinas e maniqueistas. Os opostos ativos do mundo vêm da atividade de Abraxas.

      Ele também fala sobre Abraxas em outros sermões.

  2. Caroline J. disse:

    Excelente texto! Mas me restou umas dúvidas e gostaria de esclarecer. No texto, fala que Abraxas seria um deus acima do Deus e do Diabo cristãos, manifestando a união dessas duas forças. Mas já no segundo parágrafo há uma confusão, pois consta: “Deus é a plenitude efetiva, manifestada do Pleroma; é a criação como atividade. Ele é a potencialidade do bem e do mal.” Mas aqui está se falando de Deus (que depois é referido como uma de duas polaridades) ou de Abraxas?
    E no último parágrafo se fala da “sedução de Abraxas”, o que também me deixou confusa pois eu havia entendido ao longo do texto que Abraxas manifesta o poder supremo e a união entre opostos, luz e trevas, e que são essas polaridades que deveríamos unificar dentro de nós para a plenitude, então porque é referenciado como uma “tentação” no último parágrafo?
    Agradeceria se pudesse esclarecer essas questões, que acho que não ficaram muito claras. Obrigada!

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