A sabedoria de Tales de Mileto

Da geometria à sapiência anímica

TalesTales de Mileto é tradicionalmente considerado o mais antigo investigador da natureza das coisas como um todo. “Foi, segundo a tradição, o primeiro a ter revelado aos Gregos a investigação da natureza” (Simplício, Phys. p. 23, 29 Diels). Exerceu importante atividade como político, engenheiro, astrônomo, físico teórico, matemático e geômetra, e, como típico observador de tudo aquilo que é no mundo, admirava-se com as coisas de tal forma que viveu um autêntico amor ao saber.

Se diz que uma ladina e graciosa escrava trácia troçou de Tales por este ter caído a um poço, enquanto observava os astros e olhava o céu. Dizia ela que Tales, ansioso por conhecer as coisas dos céus, não se dava conta do que estava atrás dele e mesmo a seus pés.

(Platão, Teeteto 147 A)

Não obstante, talvez , diferentemente dessa atribuição, a conotação não facécia – vale frisar ser Platão conhecido pelo gosto pela ridicularização dos pré-socráticos – seria a histórica, firmemente representada por um Tales de interesses preferentemente práticos. Mas seja na conotação figurativa seja na oficial, nota-se a legitimação de Tales como um filósofo típico.

Quando o censuraram por causa da sua pobreza, com o argumento de que a filosofia para nada servia, diz-se que, tento previsto pelos estudos dos corpos celestes que ia haver uma abundante colheita de azeitona, juntou um pequeno capital, ainda durante o Inverno, e pagou sinal por todos os lagares de Mileto e de Quios, arrendando-os por baixo preço, porque ninguém licitou contra ele. Quando chegou a ocasião própria, houve uma súbita afluência de pedidos de lagares; então ele sublocou-os pelo preço que quis, e deste modo obteve um lucro avultado, demonstrando assim que é fácil aos filósofos enriquecer, se o desejarem, mas que não é isso que lhes interessa.

(Aristóteles, Política A 11, 1259 a 9)

Os estudos dos corpos celestes mencionados por Platão e Aristóteles, mas também por ícones como Heródoto, Diógenes Laércio e Dercílides, mostram ter Tales predito corretamente um eclipse (provavelmente como auxílio de tábuas babilônicas), calculado os solstícios e suas variações e estudado constelações para prováveis auxiliares da navegação. Além disso, também foram devidamente nomeadas as descobertas matemáticas do pré-socrático.

Jeronimo afirma que ele [Tales] mediu efetivamente as pirâmides por intermédio da sua sombra, após ter observado o momento em que a nossa própria sombra é igual à nossa altura.

(Diógenes Laércio, I, 27).

TalesEudemo, na História da Geometria, atribui este teorema a Tales; é que o método segundo o qual se diz que ele demonstrou a distância dos navios no alto mar deve ter implicado, segundo o referido autor, o emprego deste teorema.

(Procolo, Euclidem DK 11 A 20).

Fruindo de grande intelecto, Tales não ficaria à parte de uma teoria filo-cosmológica. Pensando a terra flutuar sobre a água, este pré-socrático disse ser a água o princípio de todas as coisas.

Na sua maior parte, os primeiros filósofos pensaram que os princípios, sob a forma de matéria, foram os únicos princípios de todas as coisas: pois a fonte original de todas as coisas que existem, aquela a partir da qual uma coisa é primeiro originada e na qual por fim é destruída, a substância que persiste, mas se modifica nas suas qualidades, essa, afirmam eles, é o elemento e o primeiro princípio das coisas existentes, e por essa razão consideram que não há geração ou morte absolutas, com base no fato de uma tal natureza ser sempre preservada… pois deve haver alguma substância natural, uma ou mais do que uma, de que provêm as outras coisas, enquanto ela é preservada. Contudo, sobre o número e a forma desta espécie de princípio nem todos estão de acordo; mas Tales, o fundador deste tipo de filosofia, diz que é a água (e por consequência declarou que a terra está sobre a água), tendo talvez formulado esta suposição por ver que o alimento de todas as coisas é úmido, e que o próprio calor dele provém e vive graças a ele (aquilo de que provêm é o princípio de todas as coisas) – formulou a hipótese não só a partir disto, como ainda do facto de os embriões de todas as coisas terem uma natureza úmida, sendo a água o princípio natural das coisas úmidas.

(Aristóteles, Metafísica A 3, 983 v 6).

Aristóteles, em De Anima, atribui ainda a Tales a consideração da alma como algo de cinético – isso se o pré-socrático tiver afirmado possuir uma pedra de Magnésia alma pelo fato de deslocar o ferro. Nesta mesma obra aristotélica, há a citação de que alguns afirmam estar a alma misturada no universo, razão que impulsionaria Tales a pensar que tudo está cheio de deuses. Diógenes, por sua vez, diria que Hípias também afirmou ter Tales partilhado a alma até pelos objetos inanimados.

A alma seria algo motriz, quer associada à respiração e ao sangue, quer ao fluido espinhal, ela seria universalmente considerada como fonte de consciência e de vida. Enquanto vivo, o homem é capaz de mover os membros e de igual modo as outras coisas; se perde os sentidos, é porque a alma o abandonou ou se tornou incapaz; se morre ela está incapacitada. A sabedoria anímica de Tales, por esta via, estaria ligada a um animismo pré-filosófico.

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Categoria: Filosofia, Filosofia Pré-Socrática

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

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