Uma tentativa de desatar o nó geológico

O método cientifico e a especulação filosófica a partir do umbigo de Adão

Nesta reportagem explicarei melhor o que anteriormente havia citado a respeito do Procronismo de P. Henry Gosse (1810-1888), biólogo britânico contemporâneo de Charles Darwin. Gosse, como cristão devoto, ficou preocupado com a evidência geológica que parecia favorecer longas eras e mudanças evolucionárias, sentindo-se compelido a prover uma explicação racional para essa desconcertante evidência. Assim, em 1857, publicou uma obra intitulada Omphalos: An Attempt to Untie the Geological Knot.

Omphalos, em grego, significa umbigo. Tal nome ganhou destaque no título do livro por referência à Adão. Um debate teológico caloroso levou muitos fiéis a perguntarem a si mesmos se Adão tinha ou não umbigo. Não sendo concebido por uma mulher, o primeiro homem bíblico teria algum resquício de seu cordão umbilical inexistente? O argumento de Gosse seria de que Deus o faria com aparência de preexistência (futuramente procronismo), ou seja, Ele faria o primeiro homem como todos os outros que vieram a seguir.

Essa discussão voltou ao cenário com o nascimento da Geologia, ciência que colhia provas da imensa antiguidade da Terra. Os críticos à aparência geológica afirmavam, dentre outras coisas, que Deus teria criado as camadas geológicas e os fósseis nelas sepultados para dar à vida moderna uma ordem harmoniosa, conferindo-lhe um sensato – porém ilusório – passado. S. J. Gould expõe a teoria de Gosse: Assim como Deus proporcionou um umbigo a Adão para enfatizar a continuidade nos homens futuros, ele concedeu a um mundo intacto a aparência de uma história ordenada. Desse modo, a Terra podia ter apenas alguns milhares de anos, como o Gênesis afirmava literalmente, e ainda assim conservar o registro de uma história aparente de eras incontáveis.

Esse argumento, apresentado com maior seriedade e amplitude por Gosse, foi tido como ridículo para a maioria dos cientistas. Gould foi um dos que julgavam a insensatez da visão geológica cristã. Mas mesmo assim, este último cientista a estudou. Isso por ter se surpreendido com o fato de Gosse defender essa teoria mesmo sendo tido como o David Attenborough de sua época – mesmo tendo sido um naturalista entusiástico, passando meses em excursões geológicas e estudando fósseis. Além disso, Gould sustentou que as  exceções provam a regra (no sentido de submeter à prova ou testar, não de confirmar) e que, se compreendermos por que Omphalos é tão inaceitável, compreenderemos melhor como a ciência e a lógica procedem.

O defensor de Omphalos argumenta que as camadas geológicas e os fósseis foram criados simultaneamente com a Terra e apresentam uma ilusão de tempo decorrido. Em análise particular, a vida de todo ser orgânico estaria girando num círculo interminável, ao qual não se sabe como atribuir qualquer início. A semente é uma sequência tão interminável para a flor quanto a flor é da semente. Quando Deus cria – e certamente, para Gosse, as espécies haviam surgido de um mando divino – sem nenhuma evolução subsequente, ele deve irromper (surgir) em algum lugar desse círculo ideal.

Seja qual for o lugar de origem, seu produto inicial carrega traços de estágios anteriores do círculo mesmo que nunca tenham ocorrido em tempo real. Portanto a criação nada mais é que uma série de irrupções em círculos. Gosse nomeou esse processo: chama-se “procrônicos”, ou ocorrendo fora do tempo, as aparências de preexistência que indicam estágios anteriores no círculo da vida. E “diacrônicos” os eventos que ocorrem após a criação.

Gosse supõe que a vida de um tubarão adulto poderia ter sido dada há uma hora: sua boca carrega uma coleção de dentes eretos e ameaçadores, quando esses dentes em uso se desgastam e caem, sucedem outras camadas de dentes. Esses fenômenos nos obriga a atribuir uma longa existência passada a esse animal, devido a uma observação empírica diacrônica, mas que ocorrera dentro de um círculo ideal sem valor real de existência. Para Gould, o argumento de Gosse seria satisfatório para a questão de se o que veio primeiro foi o ovo ou a galinha. Numa interpretação entre o pro e diacronismo a resposta seria: “qualquer um, um com traços procrônicos do outro”.

Outras interpretações do procronismo não o via como um engano de Deus para testar a fé, mas representariam a obediência de Deus à sua própria lógica: Ele decidiu ordenar a criação em círculos. Essa interpretação não afetaria a geologia científica, dado que estudar essa ultima seria o mesmo que averiguar um mapa dos pensamentos de Deus.

Finalmente chegamos ao pensamento de Gould a respeito de Omphalos. Segundo ele, essa teoria tem apenas um erro paradoxal: o fato de não haver como inventar um modo de descobrir se ele está errado. Omphalos seria um exemplo clássico do pensamento inaveriguável e deveria ser cientificamente rejeitado não pela sua estranheza, mas pelo seu absurdo metodológico. A ciência, para Gould, é um processo para colocar à prova e rejeitar hipóteses, não um compêndio de certo conhecimento. A ciência é fazer, não cogitar. Por isso ela deve ver Omphalos não como um erro, mas como uma questão inútil. E é por essa aparente inutilidade que a filosofia ganha espaço. O espaço das possibilidades.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Categoria: Biofilosofia

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para a barra de ferramentas