O Budismo enquanto pré antecipação Cristã

Olivier Clement fala sobre redescoberta da Índia no Ocidente

imagesEm Conversas com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I, Olivier Clement fala sobre a redescoberta da Índia, especialmente do Budismo. É crescente o número de ocidentais buscando nesta religião um caminho para a salvação. No sentido bíblico, isso se chamaria Sabedoria. Este dharma não é muito diferente do Decálogo: pede-lhes para não matar, não roubar ou mentir, ser casto, e abster-se de álcool e drogas. De certa maneira, eles parecem se distanciar de suas emoções e tendem a ver os outros e, a si mesmos, com grande tolerância e paz.

Para o Budismo, de fato, tudo é doloroso: nascer, inexoravelmente decair, sofrer muitos tormentos, ser submetido ao que se odeia, e ser separado daquilo que se ama.  E qual é a motivo para este sofrimento? O motivo é que não conseguimos parar de desejar, de ser “sedento”, de “queimar”. O desejo nasce da ignorância. Ele acredita na realidade, na importância, dos seres e das coisas. Dessa forma, ele produz erro, luxúria, ódio, que são “as três raízes do mal”. O “caminho da libertação” corrige nosso comportamento (as exigências morais são extremas – algo que o Ocidente geralmente se esquece), e, através da prática de meditação, nos permite discernir o processo de crescimento e, finalmente, nos despertar. Despertar para a realidade única, inefável, é apagar as chamas da paixão, do erro e ilusão. É se tornar impassível, ou seja, triunfar sobre as paixões que constantemente nos faz de brinquedo.

(Conversas com o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I por Olivier Clement, pp 219-224)

Este tipo de ascetismo, que é monástico, é semelhante à ascese também monástica da ortodoxia cristã. Essa última fala também sobre ignorância e paixões egocêntricas – todas elas nascem da angústia escondida quando se é confrontado com a natureza transitória deste mundo.

E os métodos para atingir esta libertação das “paixões” são similares: limpar a mente de “pensamentos”, alcançar a apatheia (estado desapaixonado ou de impassibilidade) e o “estado de vigília”. Esta última palavra é tão importante no hesicasmo como no Budismo, pois a palavra buddha significa “despertado”. De fato, as grandes testemunhas do hesicasmo são os chamados Padres “népticos”, um adjetivo derivado do grego nepsis, que significa vigília!

Olivier Clement sugere ser o Budismo uma espécie de pré antecipação Cristã mesmo que os antigos budistas sejam ignorantes deste fato. Trata-se de um desenvolvimento histórico do pensamento do homem. Ele explica que, para os Budistas, “este mundo” encontra-se no mal. E o mundo não seria nada mais que isso: agregados transitórios de matéria, que estão constantemente sendo transformados e desaparecendo, apenas para dar à luz a novos agregados, que não são menos transitórios. Para os ortodoxos, entretanto, os homens são chamados para remover uma espécie de véu da ilusão, enxergar a criação de Deus enquanto substância. Uma substância boa precisamente por causa de sua diversidade. “Este mundo não esgota a realidade do mundo de Deus”.

De forma semelhante, para o Budismo, o homem é simplesmente uma “combinação” não-essencial que pode, por exemplo, ser comparado com uma carroça. O homem é um simples processo, uma continuidade sem identidade. Certamente há uma reencarnação, mas ocorre através da simples casualidade de ação produzindo efeitos. Não há nenhuma transmigração, porque não há nenhuma alma que pode passar de uma habitação para outra. Se libertar é rejeitar a noção do “eu” – como bem, é claro, qualquer noção do “outro”. Reincarnação, a “roda da existência”, é um ciclo infernal, mas não existe indivíduos para serem condenados! Buddha nunca deixou de denunciar a “multidão ignorante” que se alimentava das absurdas “teorias da alma” e que acreditavam em reincarnações “pessoais”. Este “não-Eu”, seja mitigado ou não, é, de fato, não diferente do Si do Vedanta – a escola Hindu que sucedeu em perseguir o Budismo na Índia! Só se pode falar do Si em termos negativos, a fim de identifica-lo com o divino – e é apenas este aspecto divino que é transmigrado!

Diferentemente da religião cristã, para o Budismo a pessoa não existe. No entanto a Ortodoxia de Cristo

identifica a pessoa com o indivíduo, com a “substância individual de natureza racional”, como Boethius desajeitadamente declarou no mundo latino. Isto significaria que a pessoa não é nada mais do que uma máscara, que é, de fato, o sentido original da palavra latina persona, ou o grego prosopon.

Para a Ortodoxia a pessoa só é revelada na conclusão de uma antropologia negativa, o que faria dos esforços do Hinduísmo e do Budismo absolutamente úteis. Essa compreensão se estenderia para o absoluto, que não está além da pessoa, mas na “profundeza sem fundo” da pessoa, na comunhão. Existindo a possibilidade de encontro, existe também a preparação e desenvolvimento histórico.


Como referência deste texto foi utilizada a publicação “Sobre a Índia e Budismo – Conversações com o Patriarca Ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I” apresentada por SGantz no blog We Are Time

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Categoria: Budismo, Cristianismo, Espiritualidade

Natalia Cruz Sulman

Sobre o(a) Autor(a) ()

Estudante de Filosofia (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE), tenho paixão pelo mundo. Busco conhecer a vida em seus mais íntimos aspectos: desde a origem do primeiro ser ao que está se desenvolvendo no imensurável circulo existencial. Prezo pela comunicação afetiva e verdadeira e, através de tais encantos, vivencio a Palavra em seus mais profundos aspectos, isto é, o conhecer e o comunicar.

Comentários (3)

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  1. É muito interessante observar esse aspecto do Budismo!
    “[…]para os Budistas, “este mundo” encontra-se no mal. E o mundo não seria nada mais que isso: agregados transitórios de matéria, que estão constantemente sendo transformados e desaparecendo, apenas para dar à luz a novos agregados, que não são menos transitórios. Para os ortodoxos, entretanto, os homens são chamados para remover uma espécie de véu da ilusão, enxergar a criação de Deus enquanto substância. Uma substância boa precisamente por causa de sua diversidade.”

    Nesse trecho específico, fica clara a comparação com os ortodoxos. A alma sendo atribuída a valores únicos ou a uma consequência da existência, algo tão comum?

  2. fernando farias disse:

    Do budismo passar para o cristianismo seria um grande retrocesso.

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